Terapia com animais
Entrevista: "animais são a cura do século XXI"
Entrevista
com Dennis Turner, presidente da IAHAIO -
Associação Internacional das Organizações
para a Interação Homem-Animal Professor de veterinária
da Universidade de Zurique, Dennis Turner defende que a companhia
de cães e gatos é essencial para a qualidade de vida
do homem.
- De que maneira conhecer o comportamento animal ajuda a melhorar
a qualidade de vida das pessoas?
- Conhecer as necessidades físicas e psicológicas
de cães e gatos nos permite entendê-los e tratá-los
melhor. Somente animais saudáveis e felizes podem ser boas
companhias para o homem e contribuir para nossa qualidade de vida.
é particularmente importante salvaguardar o bem-estar do
animal engajado nos programas de terapia assistida (AAT), para beneficiar
grupos específicos de pessoas com vários males ou
problemas. Precisamos, por exemplo, reconhecer os sinais de estresse
ou agitação - bastante diferentes em cães,
gatos e outros animais de companhia - para não fazer o animal
"trabalhar" demais nem colocar em risco o paciente.
- O senhor defende que os animais domésticos trazem benefícios
para a saúde e qualidade de vida do homem. Que tipo de benefícios
e como isso é possível?
- De várias maneiras. Vamos tomar como exemplo um cidadão
comum, quer dizer, alguém que não sofra de uma doença
ou deficiência e precise de terapia. Apenas a presença
do animal de estimação pode reduzir a pressão
sangüínea, o que é uma das justificativas para o alto
índice de sobrevivência de donos de animais um
ano depois de terem sido vítimas de ataque cardíaco.
A outra explicação é óbvia e vale para
todos os donos responsáveis de cães interessados em
prevenir doenças cardíacas: mais exercício
diário por conta das caminhadas com o animal pela vizinhança.
Donos de animais de estimação geralmente têm
baixo nível de colesterol, um dos fatores que pode levar
a um ataque do coração. Um estudo publicado pelo British
Journal da Royal Society of Medicine indica que, ao adquirir um
cão ou gato, o dono reclama com menos freqüência
de pequenos problemas de saúde e desfruta de melhor qualidade
de vida do que pessoas sem animais de estimação. Este
efeito dura, no mínimo, 10 meses depois da aquisição
- que foi a duração da pesquisa - para os donos de
cachorros. Logo, não estamos falando de um "efeito novidade"
que vale apenas para um breve período de tempo depois da
aquisição do animal. Pesquisas médicas de larga
escala na Austrália concluíram que donos de animais
de estimação se consultam com menor freqüência
com clínicos gerais e requerem menos medicação
do que as pessoas sem animal de estimação. O estudo
que apresentarei na 9ª Conferência mostra que o dono de
gato - e o de cachorro com menos intensidade - estão menos
sujeitos a gastar dinheiro com saúde do que os 'sem-animal'.
Já publiquei estudos que tratam de como o gato pode reduzir
sentimentos de depressão, solidão e ansiedade - sentimentos
que todos nós temos mais cedo ou mais tarde sem estar clinicamente
doente. Animais de companhia também se mostraram bastante
prestativos para crianças tanto em casa quanto na escola.
Eles aumentam a auto-estima da criança, melhoram sua integração
na sala de aula, incentivam o contato social com outras crianças
e aumentam sua vontade de aprender. é por isso que vamos
aprovar na conferência no Rio a Declaração
da IAHAIO sobre Pets na Escola. E não podemos nos esquecer
da parcela da população industrializada que mais cresce:
os idosos. Muitos estudos têm demonstrado a importância
e os benefícios do animal de companhia na terceira idade.
Quanto aos grupos de pessoas com necessidades especiais que podem
receber terapia assistida por animal ou participar de atividade
assistida por animal (AAA), temos estudos que comprovam a utilidade
- e, na maioria dos casos, o sucesso - do animal como co-terapeuta:
doentes psíquicos que não se comunicam, crianças
hiperativas ou agressivas, portadores da síndrome de Down,
pacientes de Alzheimer, pacientes com problemas neurológicos
e deficientes físicos.
- Então, se alguém quiser baixar seu nível
de colesterol, a única coisa que tem a fazer é ir
a uma loja, comprar um cachorro e alimentá-lo todos os dias?
- Não é simples assim. Nem estamos sugerindo que a
companhia - e a terapia - de animais são a solução
para todos os problemas. Ter cachorro, gato, passarinhos ou um aquário
em casa, na sala de espera de uma clínica ou no hospital
não vai produzir os efeitos benéficos desejados -
à exceção de reduzir a pressão sangüínea
de quem observa os animais, incluindo o peixe nadando no aquário.
Por meio de pesquisas como a que apresentaremos no Rio começamos
a entender como e por que essas relações acontecem.
As teorias que atraem mais a atenção são de
biofilia, ligação afetiva e apoio social. Antes de
qualquer benefício tangível, uma relação
social verdadeira - prefiro usar parceria, no caso de um animal
de estimação e seu dono - deve se desenvolver. As
relações normalmente começam com a observação
do parceiro e depois a interação com ele em diferentes
contextos. Quanto mais se aprende sobre o parceiro durante essas
interações, melhor se pode atender às vontades
e necessidades e maior a afeição e o respeito.
- Até que ponto uma relação homem-animal
pode ser considerada saudável para ambos?
- Não há um padrão e as relações
dependem mais da pessoa do que do animal. Podem ser intensas - o
dono faz tudo para e pelo animal - ou quase inexistentes - o dono
se limita a alimentá-lo. Muitos proprietários de animais
de países industrializados consideram os animais de estimação
parte da família e os tratam como tal. Seja como for, relações
saudáveis respeitam a dignidade do animal. Uma relação
se torna anormal e até patológica quando, por exemplo,
há relações sexuais com o animal ou quando
se comete qualquer outro tipo de crueldade (algumas das palestras
vão tratar destes tópicos). Pessoalmente, considero
errado apenas alimentar o animal e deixá-lo na rua durante
o dia ou à noite. Nem o dono nem o animal se beneficiam desta
relação.
- O cachorro pode substituir o psiquiatra ou o anti-depressivo?
- Minhas pesquisas com donos de gatos demonstram que os animais
podem ajudar a tirar uma pessoa de ondas de depressão ou
outros humores negativos. Vamos agora estender estas pesquisas a
pacientes com depressão diagnosticada clinicamente. Mas eu
diria que, se selecionados corretamente - no caso de cachorro, treinados
- animais podem atuar como co-terapeutas sob a supervisão
da equipe médica. Eles não podem nem devem substituir
o psiquiatra, o psicoterapeuta, o clínico geral, o terapeuta
ocupacional, mas complementar o trabalho destes profissionais oferecendo
um método terapêutico adicional. E, se no decorrer
da terapia, a dose de medicamento for reduzida, tanto melhor.
- O senhor pode dar exemplos bem-sucedidos de terapia assistida
por animais?
- Existe agora um número de livros no mercado que oferecem
muitos exemplos. Lembro-me do caso de um senhor afásico em
um asilo. Ele não havia pronunciado uma palavra por anos
até que o lugar adotou a AAT. Primeiro ele falou com os animais
- com um gato, em especial - depois com os enfermeiros e finalmente
com os outros idosos. Também me recordo da primeira vez em
que dei consultoria para um asilo. Selecionei dois gatinhos para
morar com os idosos. Sempre via os gatos na cama de uma senhora
que estava no estágio final de câncer. Passados alguns
meses da sua morte, recebi uma carta da filha me agradecendo por
"ter feito valer a pena os últimos meses de vida da
mãe, tornando-os mais suportáveis".
- Como os médicos vêem a AAT?
- Médicos que atuam em consultório particulares são
mais receptivos ao uso de animais como co-terapeutas do que os hospitais
e as clínicas. Eles sabem da importância dos animais
por intermédio de conversas com seus pacientes. A administração
de hospitais e clínicas resiste a tais programas argumentado
questões de higiene e barulho. Uma vez informadas de que
os animais estão sob supervisão de um veterinário
e são bem treinados, instituições permitem
a entrada de AAA/AAT para um período de experiência.
A partir daí , eles testemunham os efeitos da companhia dos
animais não apenas em seus pacientes, mas na equipe e acabam
aprovando a continuação do programa. Infelizmente
não há estatísticas disponíveis sobre
o número de clínicas, hospitais, asilos que dispõe
de AAA e AAT. Mas sabemos que de 20 a 30% dos psiquiatras e psicoterapeutas
envolvem animais nas suas práticas.
- O primeiro curso de pós-graduação vai
ser ministrado em uma universidade no Japão. A terapia assistida
por animais já é considerada um novo ramo da ciência?
- O interesse pelos efeitos benéficos do animal de companhia
começou na década de 60, nos Estados Unidos, depois
que Boris Levinson e Sam e Elisabeth Corson publicaram observações
iniciais em pacientes de um hospital psiquiátrico que recebia
visitas de cachorros. A pesquisa na área também começou
nos Estados Unidos, mas se espalhou rapidamente no Reino Unido e
na Europa continental nos anos 80. Delta Society, nos Estados Unidos,
e Sociedade para Estudos de Animais de Companhia (SCAS), na Inglaterra,
foram as principais organizações. Delta é reconhecida
pelo programa Pet Partners, que treina voluntários, donos
de cachorros, para programas de visita a instituições
e agora se dedica também a treinar os "animais de serviço".
Na Europa, minha instituição, IEAP, foi a primeira
a oferecer programas de educação contínua para
profissionais (AAT) e voluntários (AAA). AAT vai ser ofertado
como curso de pós-graduação a partir de abril
na Universidade de Azabu, perto de Tóquio. Universidades
nos Estados Unidos começam a oferecer cursos específicos
para terapeutas ocupacionais, por exemplo. Publicações
das comunidades científicas e médicas trazem estudos
sobre o tema. A mais importante revista da área é
Anthrozoös. Conselhos de pesquisa e institutos de saúde de
vários países começam a financiar pesquisas
sobre o tema. O campo está estabelecido, mas há muito
para que se fazer e descobrir neste século.
- De acordo com o Banco Mundial, 38,4% dos brasileiros são
pobres. Com tanto investimento para fazer na área social,
não parece luxo para o governo se preocupar com a questão
animal?
- IAHAIO nunca sugeriu que o governo deveria investir dinheiro em
AAT; no máximo, que deveria apoiar pesquisas na área,
mas especialmente que deveria abrir portas de várias instituições
públicas e privadas para AAT e AAA alterando a regulamentação
para permitir a entrada dos programas se estes forem operados profissionalmente.
Implementar programas de AAT e AAA envolve custos para treinar pessoas
e selecionar e treinar animais. Muitos programas são coordenados
por fundações, portanto isentos de impostos, com doações
da indústria privada e com indivíduos para treinar
voluntários e seus animais de estimação, especialmente
cachorros. Mas é impossível colocar uma etiqueta com
preço em um programa sem saber quais os objetivos principais
e o modus operandi.
- Qual a população de cães e gatos errantes
no mundo? Que perigo eles representam para a sociedade?
- Desconheço o número total, mas é alto especialmente
nos países desenvolvidos. No Brasil, há um cachorro
para cada sete humanos e 10% deste total é de animais abandonados.
Não há estimativas para gatos. Animais abandonados
representam um grande problema para governo e sociedade pois podem
ser portadores de doenças, barulhentos e fonte de poluição.
E o bem-estar destes animais também é comprometido.
Por isso organizações de bem-estar animal como Sociedade
Internacional para Proteção Animal (WSPA), em Londres,
Sociedade Internacional Humanitária (HSI), em Washington,
e Arca Brasil, entidade membro da IAHAIO, em São Paulo, se
dedicam a resolver estes problemas promovendo a posse responsável,
informado o público sobre a importância dos animais
para nossa saúde e qualidade de vida e ensinado às
crianças sobre comportamento e cuidados apropriados dos animais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), WSPA,
Arca e IAHAIO vão promover o programa de treinamento "Zoonoses
e Interações Homem-Animal" em São Paulo
depois da conferência no Rio, o que indica que estamos
todos empenhados em resolver o problema e cães e gatos abandonados.
- Qual o papel dos animais em nossa vida? Podemos dizer que eles
são a cura do século 21?
- Cresci com cachorros e, por conta das minhas inúmeras viagens
pelo mundo, tenho apenas dois gatos que são um grande conforto
para mim quando estou em casa - são como uma família.
O animal de companhia não é "a" cura para
todos os problemas, mas eles certamente terão um papel cada
vez mais significativo em nossas vidas.
-
- Quem é Dennis Turner
Dennis Turner vem ao Brasil em 99 a
convite da ARCA