Uma luz sobre a leishmaniose

10/08/2005 by arcabrasil | Filed under Saúde animal.

A Leishmaniose é uma das principais preocupações dos órgãos de saúde pública encarregados de controlar as zoonoses em nosso país. A doença, que só se instalou no Brasil na segunda metade do século passado, segue um longo trajeto antes de atingir o homem: em primeiro lugar, o vetor (inseto conhecido popularmente como mosquito-palha) pica e infecta um mamífero – que pode ser o cão. A partir desse momento, o animal se torna hospedeiro do protozoário Leishmania, causador da doença (cujos primeiros sintomas demoram semanas, meses e até anos para aparecerem). Esse cão infectado poderá ser picado novamente pelo mosquito, que por sua vez transmitirá a doença ao ser humano no momento em que picar uma pessoa.

Há mais de 40 anos, a saúde pública brasileira tenta controlar a doença e lança mão de medidas como o extermínio dos cães soropositivos ou que vivem em áreas de risco. O método, além de questionável sob o aspecto humanitário, tem se provado ineficaz, uma vez que a incidência de Leishmaniose só aumentou nos últimos anos. O surgimento recente de vacinas e de outros métodos preventivos, bem como de possibilidades efetivas de tratamento para os animais infectados, mostra que é hora de investir em outras frentes de combate à doença, e assim poupar as vidas de milhares de cães.

ARCA Brasil defende o fundamental envolvimento da classe médica veterinária. Esse foi um dos destaques do 2º Seminário Clinico Veterinário: Responsabilidade Social & Bem-Estar Animal, que aconteceu em 04.10.2005 no Hotel Transamérica, com a palestra “Leishmaniose: Aspectos Éticos e Legais do atendimento Clínico”.

Veja abaixo os aspectos defendidos pela ARCA Brasil, e que devem ser considerados ao se traçarem políticas públicas de combate à Leishmaniose:

Questão ambiental – 1)Desmatamentos: O avanço da urbanização e a conseqüente devastação das matas faz com que o mosquito perca seu habitat. Nas cidades, ele substitui seus hospedeiros naturais – os mamíferos silvestres –, por cães e seres humanos.
2) Políticas de controle ambiental e controle do mosquito vetor. A limpeza em peridomicílio e as podas de árvores e arbustos são feitos de forma aleatória. Com matéria orgânica à disposição (em lixões, aterros sanitários, granjas, terrenos baldios), os mosquitos vetores se multiplicam com rapidez assustadora.

* Legislação: No Brasil, a lei vigente data de 1963, e preconiza eliminação compulsória dos cães infectados. Essa política truculenta e obsoleta tem sido crescentemente rechaçada pela sociedade. Não raro, proprietários de cães infectados levam seus animais para outros municípios, a fim de poupá-los, o que promove a disseminação da doença.

A alta reposição de animais: Enquanto o Poder Público pratica a eutanásia de cães, os proprietários adotam novos cães – em geral filhotes, com sistema imunológico mais frágil e, portanto, mais suscetíveis à doença. Esse animal recém-adquirido é colocado no mesmo espaço (possivelmente sem o controle do mosquito transmissor ou de medidas profiláticas), ficando suscetível à infecção.

* Controle de natalidade animal: Elemento indispensável em qualquer planejamento de combate a zoonoses. Ao diminuir o excesso populacional de cães, reduz-se também o principal reservatório doméstico da doença.

* Novos métodos de prevenção: 1) Vacina: desenvolvida no Brasil, a vacina oferece proteção comprovada em mais de 90% e eficácia em 80% dos casos. É reconhecida pelo Ministério da Agricultura, porém não validada pelos órgãos de saúde que, entre outras, alegam que o cão continua a ser transmissor. Tal afirmação é refutada pelos fabricantes, que apontam estudos confirmando o contrário: “Ela não somente protege os cães da incidência e morbidade da doença, mas também os mantém não transmissores quando infectados, bloqueando a transmissão para os flebotomíneos” (Manual Técnico Leishmaniose Visceral Canina – Fort Dodge).
2) Coleiras repelentes: Estudos comprovam que o uso da coleira repelente em 80% da população canina, em determinada região, interrompe o ciclo de infecção e transmissão.

* Aprimoramento dos métodos de detecção da doença: Evitariam um grande número de sacrifícios desnecessários. Os métodos moleculares, como PCR, são os mais confiáveis para confirmação de Leishmaniose

* Conscientização – 1) Esclarecimento da opinião pública, com forte ênfase nos princípios da posse responsável.
2) Esclarecimento da classe veterinária, de modo a suprir eventuais dificuldades em lidar com a doença, tanto no que concerne aos diagnósticos quanto na orientação do proprietário sobre prevenção e / ou manejo e tratamento do animal infectado.

Tratamento para os animais infectados: O laço afetivo dos proprietários de animais é algo que não pode ser desprezado, como observou o Dr. Vitor Marcio Ribeiro, prof. Titular da PUC-MG, no Seminário ARCA Brasil, em parceria com a Anclivepa-SP, em outubro de 2005. Para salvarem seus animais da eutanásia, proprietários arriscam-se a transferi-los para outros municípios, aumentando os riscos de propagação da doença.O especialista defende que, uma vez observadas as medidas profiláticas e preventivas, mediante compromisso assumido, este é um direito do proprietário, uma vez que o cão tratado não oferece risco à saúde pública.

* Custos da eutanásia x medidas humanitárias: O custo médio para a eutanásia chega a R$140,00 (cerca de US$65) por animal. Medidas preventivas em grande escala revelam-se economicamente vantajosas, em especial no contexto dos países em desenvolvimento, onde as limitações financeiras servem de justificativa para o não atendimento de inúmeras necessidades.

* Envolvimento da comunidade veterinária: Uma das principais referências quando se trata de orientar o proprietário na manutenção da saúde do animal. É fundamental que o clínico veterinário seja envolvido na linha de frente de combate à doença.



Confira esses e outros temas 
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