Zoológicos: polêmicas, negligência e mortes

27/09/2009 by arcabrasil | Filed under No entretenimento, Vida Silvestre.

Goiânia já registrou 69 mortes desde janeiro. Em 2005 foram cerca de 200 vítimas em SP. O que estamos fazendo com os nossos animais?

Goiás já perdeu 69 bichos, entre eles um casal de girafas, um hipopótamo e um leão, sendo interditado no dia 20 de julho. O episódio revive um dos piores momentos da história dos zoológicos em todo mundo. Em 2004 e 2005 no parque de São Paulo, cerca de 200 animais, entre eles três chimpanzés, uma anta, um orangotango, um dromedário e um elefante foram mortos. Mas o que está acontecendo com essa instituição chamada zoológico?

Entenda melhor
Em agosto deste ano, o Zôo de Goiânia chamou para uma avaliação técnica, a Sociedade de Zoológicos do Brasil (SZB) que apontou graves problemas na infra-estrutura do local. Unidades de apoio precárias; falta de ambulatório veterinário e um setor de quarentena; a reprodução de algumas espécies acontece de forma desordenada; além da falta de capacitação profissional. Ainda de acordo com o relatório, existe uma inacreditável superpopulação de pombos e urubus, o que coloca em risco qualquer controle sanitário na instituição.

Já o titular da Delegacia Estadual de Meio Ambiente (Dema) de Goiânia, Luziano de Carvalho, acusou cinco pessoas de negligência pela morte de 16 animais: o diretor do parque Raphael Cupertino, dois veterinários, um zootecnista e um professor de veterinária.

“Não podemos descartar o estresse dos animais. Eles também têm muita proximidade com os visitantes, é preciso considerar que muitos são idosos. Temos um bisão macho com 22 anos, e eles vivem, em média, 15”, rebateu o diretor Raphael Cupertino durante uma coletiva de imprensa, onde apresentou alguns fatores que podem ter influenciado nas mortes.

O diretor só esqueceu de mencionar as informações contidas no relatório da Polícia Civil de Goiás: nos últimos cinco anos as mortes superaram os nascimentos. Em 2009 nasceram 32 animais, mas até o mês passado, 70 já morreram.

Esse número elevado de mortes remete às lamentáveis ocorrências no zoológico de São Paulo, tornando as comparações inevitáveis. Mas para o presidente da SZB, Luiz Pires, não existe relação entre os acontecimentos nas duas cidades. “A não ser pelo fato de que a maioria das mortes ter ocorrido entre mamíferos, os laudos de necropsia e os exames laboratoriais em nada ligam os casos”, adianta Pires.

A tragédia de SP
Em 2004 e 2005 no maior zoológico do país, uma grande seqüência de mortes, cerca de 200 mamíferos, abalou o mundo. A cada dia a imprensa noticiava uma perda, o que aumentava a comoção e as especulações envolvendo o assunto. Até um suposto serial killer foi procurado pela polícia, e entre as versões, um veneno de rato teria causado o desastre.

A substância (monofluoracetato de sódio -MFA) apontada pela direção do parque como a causadora das mortes já foi contestada. “O exame cromatografia de camada delgada (CCD), é capaz de gerar falsos positivos. Como especialista em MFA, eu não afirmaria envenenamento por essa substância apenas analisando o CCD”, afirmou Dra. Regina Moreau, professora e especialista da USP, à revista Época em fevereiro de 2009.

Descartado o envenenamento, a doença encefalomiocardite, transmitida pelas fezes e urina dos ratos tornou-se a hipótese mais real, pois o vírus só atinge mamíferos, as principais vítimas do período – essa particularidade da doença foi confirmada pelo pioneiro no isolamento desse vírus, o professor Paulo Michel da UFRS.

“É mais fácil colocar a culpa em alguém do que assumir a própria ineficiência” dispara Márcio Augelli, professor de Química Analítica da Unesp, sobre as teorias do parque, Augelli foi um dos primeiros a divulgar a idéia da ‘doença dos ratos’. “Os episódios em 2004 e 2005 ocorreram nos meses de verão, quando a reprodução dos roedores atinge seu ápice”, conclui o professor.

A verdade inquestionável é que vidas inocentes foram brutalmente perdidas.  “Se o homem ainda acha correto aprisionar animais inocentes criando uma espécie de museu vivo, deve no mínimo, garantir aquelas vidas”, declarou Marco Ciampi, presidente da ARCA Brasil, uma das várias entidades de proteção que questiona o papel dos zoológicos nos dias de hoje.

Será que o público entende o que representa para o animal ser a atração no chamado “lazer contemplativo”? A ARCA Brasil já alertou sobre os comportamentos anormais gerados pela vida em cativeiro (zoocoses). De acordo com o filme “No Place Like Home” da ONG inglesa The Captive Animals Protection Society, 40% dos elefantes presos e 48% dos leões, apresentam essas condutas.

“É ruim a situação em Goiânia, mas ainda é melhor que 90% dos zôos brasileiros. Existem parques que dão restos de comida até com palito de dente para os seus animais”, explica o professor Augelli, sobre a situação geral dos zoológicos no país.

No Brasil, segundo o SZB, existem mais de 37 mil animais vivendo dentro 127 parques. São milhares de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes, sujeitos a todo tipo de negligência humana. Até quando eles serão condenados a viver assim?

O caso de SP, mesmo após cinco anos, continua em “segredo de justiça” e sem nenhum desfecho em vista. Enquanto isso os animais e a sociedade seguem sob ameaça e sem respostas.

Saiba mais:
- ONG The Captive Animals’ Protection Society: você pode assistir 5 minutos do filme (em inglês) http://www.captiveanimals.org/


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