Começa a temporada infame

22/08/2010 by arcabrasil | Filed under Maus tratos, Vida Silvestre.

Alerta! É nessa época do ano que começa o tráfico de papagaios pelo país. Não compactue com esse crime!

Todo ano, entre o final de agosto e o início de novembro (no cerrado) e dezembro e março (na caatinga), a fauna silvestre brasileira sofre um terrível sequestro: a captura de filhotes de papagaios-verdadeiros para abastecer os centros consumidores, principalmente do Sudeste.  Os animais são tirados de seus ninhos e transportados por caminhões em situações deploráveis, em viagens que podem durar até três dias. Os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e norte do Paraná são as principais áreas de captura da espécie (Amazona aestiva).

Para a população de papagaios-verdadeiros, a prática acarreta na falta de reposição dos animais, alterando o ciclo natural da vida. “Na natureza começamos a ter casais com longa idade, já que grande parte dos filhotes são retirados para atender o tráfico, além de um grande empobrecimento genético que esta atividade acaba gerando nas populações de vida livre”, diz Marcelo Pavlenko, da organização não-governamental SOS Fauna.

Apesar do aumento do número de apreensões nas rodovias, não há um combate efetivo ao tráfico de animais. Os governos estaduais são tímidos e ineficientes, o federal mais ainda, pois não há contratação e treinamento de agentes capacitados e, além disso, uma medida conjunta como a fiscalização nas fronteiras dos locais de captura (estados de MT, MS, GO, MG e PR), nunca é implantada.  

O custo de voltar pra casa
“Um animal silvestre em cativeiro está praticamente morto. Já era”, revela Marcelo Pavlenko Rocha da “SOS Fauna”. Isso acontece porque, após a retirada dos filhotes de papagaio da natureza, é muito difícil sua reintegração ao habitat de origem, por causa do alto custo dessa operação. Eles devem estar habilitados para a vida livre e esse é um processo longo. Após a apreensão, os filhotes devem ser levados a um local seguro, com profissionais habilitados – uma ONG ou órgão do governo com a infra-estrutura necessária – para se restabelecerem e desenvolverem suas atividades naturais de alimentação e vôo. Passada essa fase, os animais são transportados ao seu habitat original (uma viagem que pode durar dias) e permanecem em um abrigo local, adaptando-se à alimentação da região e com possibilidade de saída voluntária após pelo menos trinta dias de ambientação. Mas é somente dentro de algum tempo que eles vão se dispersar, o que pode levar de semanas até meses. O custo total dessa operação gira em torno de R$50.000,00, afirma Pavlenko.

É preciso saber exatamente a origem geográfica do grupo de filhotes apreendido. Caso contrário, podem ocorrer alterações nas configurações genéticas, isto é, a introdução de um grupo com características incompatíveis em uma população de papagaios já formada. Com o passar das gerações isso pode causar, por exemplo, o nascimento de machos estéreis, provocando a diminuição dos espécimes no local.

Mercadorias, melancolias
É nessa época do ano – final do mês de agosto – que os filhotes estão a caminho. E isso só ocorre porque existem pessoas dispostas a adquiri-los. Entretanto, é preciso pensar neles não como simples objetos manipuláveis, mas como seres vivos. Sua comercialização implica em danos irreparáveis para o meio ambiente, para a espécie – que aos poucos desaparece – e para os próprios animais capturados.

Algumas pessoas insistem em acreditar que a posse de um animal contrabandeado na sua casa se trata de um delito leve, mas é preciso se conscientizar de que uma vida, inclusive a de um animal, não é mera mercadoria, e de que vale a pena lutar por ela. Quem comete esse crime deve ser preso, à semelhança dos animais inocentes que são vendidos nos centros consumidores e nunca mais serão livres. As penas devem ser mais severas, tanto para o traficante como para o receptor, cabendo ao cidadão consciente denunciar e exigir das autoridades posturas mais firmes. “O tráfico de animais silvestres só existe porque há pessoas dispostas a comprá-los. Elas acreditam que ao cuidar dos animais, não fazem mal algum, mas isso não é verdade: quem ama deixa viver livre”, diz Marco Ciampi, presidente da ARCA Brasil.


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