Brutalidade sem rodeios

25/08/2011 by arcabrasil | Filed under Maus tratos, No entretenimento.

Bezerro morto durante evento expõe crueldade que Festa do Peão de Barretos procura ocultar

Por Bruno Schuveizer

Bastaram dois dias de provas para Barretos confirmar porque é o evento popular mais combatido pelo movimento de proteção e defesa dos animais do país. No dia 19 desse mês, a prova bulldog (imobilização de bezerros) fez sua primeira vítima. Logo que caiu na arena, derrubado pelo peão Cesar Brosco, o animal ficou imóvel, visivelmente machucado.

Segundo reportagem no site da FOLHA, Orivaldo Tenório de Vasconcelos, diretor do Ecoa (Centro de Estudos de Comportamento Animal), ligado à organização do evento, disse – ainda na sexta-feira — que havia a suspeita de que o bezerro tivesse sofrido uma fratura na coluna cervical. “Percebi que ele tinha perdido o reflexo das patas e pedi para sacrificá-lo. Vou necropsiá-lo para saber a verdadeira causa da morte”, afirmou o diretor.

O ocorrido gerou repulsa em todo país, especialmente em entidades de proteção animal. O Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal (FNDPA) que, há quatro anos, conseguiu banir a prova do laço, desta vez entrará na justiça para tentar proibir a prova bulldog no Brasil. “O peão se atira sobre o animal, girando seu pescoço para trás com toda a sua força. Isso não é crueldade?”. Questiona a indignada presidente do fórum, Sonia Fonseca.

Não bastasse este terrível episódio, no sábado (27/08), um touro teve de sair da arena se arrastando durante uma prova do Barretos Internacional Rodeo por conta de uma cãibra nas patas traseiras. O peão que montava o animal, o americano James Willian Marris, teve que completar a prova em outro touro. Para atenuar possíveis manifestações da platéia – que no momento pareceu ser o aspecto mais importante para os organizadores e seus patrocinadores – fizeram o touro desfilar de um lado para outro da arena, logo após a disputa, mostrando que o animal já estava ‘recuperado’.

Por quê?

O rodeio de Barretos, que acontece todos os anos no mês de agosto, chegou a sua 56º edição e continua atraindo visitantes.

Mas o que realmente esse público quer ver? Touros saltando – um comportamento antinatural – com um peão nas costas e vibrar quando ele ‘vence’ o animal? A grande maioria das pessoas vai à Barretos para curtir o seu cantor/banda e só assiste às provas porque fazem parte do pacote, se elas faltassem certamente não haveria mais do que alguns poucos peões decepcionados. Os demais que procuram aquela cidade do interior paulista nessa época não sentiriam falta alguma de ver touros e cavalos sendo explorados, num péssimo exemplo para esta e futuras gerações.

Essa falta de consideração com o animal pode reverter-se contra o homem. Em abril deste ano, o peão Gustavo Daniel Pedro, de 21 anos, caiu do touro e foi pisoteado durante a Festa do Peão de Bragança Paulista. O rapaz não resistiu aos ferimentos e morreu pouco tempo depois. Em 2001, 2003 e 2010 também ocorreram acidentes, em dois deles os peões não sobreviveram.

Sinais de conscientização

Em algumas regiões, já há ações na justiça para que a prática seja coibida. Recentemente, o promotor Dr. Fausto Paniccci, da comarca das cidades de Espírito Santo de Pinhal e de Santo Antonio de Jardim, ambas em São Paulo, ajuizou ação para que sejam proibidos equipamentos que alterem o comportamento do animal, como espora, Sedém e choque elétrico. A ação também quer proibir provas como a bulldog, citada no início dessa matéria, e a “vaquejada”, na qual peões seguram fortemente pela cauda o animal em fuga, derrubando-o com truculência ao solo.

Este ano em Mococa (SP), onde uma ação que tramita desde 2004 tendo como objetivo todos os elementos citados, o rodeio não foi realizado por falta de segurança.

É lamentável que em pleno século XXI esse tipo de ‘entretenimento’ – um simulacro copiado da lida dos peões do centro-oeste norte-americano – ainda se sustente. Em países como a Inglaterra, por exemplo, isso não ocorre.

O circo da Roma Antiga, que colocava na arena um homem diante de várias feras, era mais justo nesse sentido. Em outro exemplo, embora de gosto duvidoso, as atuais lutas de vale-tudo ao menos reúnem homens que, conscientes, escolhem participar das disputas. Obviamente, não é o caso dos animais.

“Os rodeios de hoje não passam de uma exibição manipulada do domínio do homem sobre os animais, mal disfarçadas de “entretenimento”, resume Marco Ciampi, presidente da ARCA Brasil


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