Festa estranha…

15/09/2012 by arcabrasil | Filed under Maus tratos, No entretenimento.

Um ano após o lamentável episódio em que um bezerro morreu, prova bulldog é cancelada dos maiores rodeios do Brasil

Por Bruno Schuveizer

Faltam poucos minutos para o ‘espetáculo’. Cesar Brosco, próximo peão a participar da prova ‘bulldog’ – em que dois cavaleiros, em velocidade, ladeiam um bezerro, que é segurado pelos chifres e é derrubado no chão – está apreensivo, pois treinou duro durante o ano para conseguir um bom resultado. Ele respira fundo e parte em direção à arena. Poucos metros dali, um bezerro, assustado e sem escolha, já parecia pressentir que algo de ruim lhe aconteceria.

A prova começa, Cesar parte para mais uma ‘gloriosa’ vitória sobre um inocente bezerro. O peão se lança para segurar os chifres do animal e imobilizá-lo. Um golpe certeiro. O bezerro cai na arena. Mas a plateia, dessa vez, troca o grito de comemoração por murmúrios preocupados. O animal não se move, está visivelmente machucado. Minutos depois, sai carregado na carroceria de um veículo.

Segundo reportagem no portal da Folha de S. Paulo, o professor Dr. Orivaldo Tenório de Vasconcelos, coordenador do ECOA (Centro de Estudos de Comportamento Animal), ligado à organização do rodeio de Barretos, declarou – ainda no mesmo dia – que havia a suspeita de que o bezerro tivesse sofrido uma fratura na coluna cervical: “Percebi que ele tinha perdido o reflexo das patas e pedi para sacrificá-lo. Vou necropsiá-lo para saber a verdadeira causa da morte”.

O lamentável episódio aconteceu diante de milhares de pessoas durante a 56ª edição da Festa de Peão de Boiadeiro em Barretos, interior de São Paulo, no mês de agosto do ano passado.

Peão Cesar Brosco, durante a prova que causou o trauma e resultou no sacrifício do bezerro no ano passado. FOTO: Edson Silva 19.ago.11/ Folhapress

Esperar acontecer para mudar
A morte do bezerro fez com que a prova ‘bulldog’ fosse banida em rodeios como o de São João da Boa Vista e o de Americana.

Amanhã começa a 57ª edição da Festa de Peão e Boiadeiro de Barretos, onde a prova também foi cancelada esse ano. Nos últimos dias, Hugo Resende Filho, presidente do órgão organizador do evento, Os Independentes, se reuniu com a diretoria para decidir sobre o cancelamento da prova.

De acordo com o Prof. Dr. Orivaldo, esta é uma prova que vem aos poucos sendo abolida. Para ele, nessa modalidade o ser humano pode ser responsável por acidentes envolvendo o animal, como no caso citado acima.

“O ECOA recomenda que a prova seja suspensa até que se prove que é possível perceber e avisar o praticante, durante a prova, que há risco para o animal e interromper a competição”, completa o professor.

Em 2006 a prova do laço foi banida, o que foi motivo para comemoração para o movimento de proteção animal. Nessa modalidade, um peão, montado a cavalo, laça um bezerro pelo pescoço, mantém a corda esticada, pula do cavalo e amarra três patas para imobilizar o animal. A prova só termina quando o laçador fica sobre o bezerro e levanta as mãos.

Afinal, há maus-tratos?
Muita polêmica envolve essa pergunta. Alguns apetrechos usados para a prática do rodeio são alvos de críticas de entidades de proteção animal.

O sedém, por exemplo, é um artefato de couro ou crina, amarrado ao redor do corpo do touro (na região do pênis e saco escrotal), que é puxado com força no momento em que o bicho sai à arena para que ele pule.

Os partidários do rodeio costumam argumentar que o máximo que o sedem provoca são cócegas no touro. Do outro lado, quem é contra rodeio acredita que o objeto causa mais do que isso. De acordo com otexto baseado nas informações da ONG americana Humane Society of the United States, “além do estímulo doloroso, o sedem pode também provocar rupturas viscerais, fraturas ósseas, hemorragias subcutâneas, viscerais e internas. Dependendo do tipo de manobra e do tempo em que o animal fique exposto a tais fatores pode-se evoluir até o óbito”.

O Dr. Orivaldo diz que é contra qualquer imposição de dor aos animais e afirma ainda que “se aparecer um trabalho cientifico provando que o sedem provoca dor, [ele] seria o primeiro a querer acabar com o artefato no rodeio”.

A Profª Dra. da USP, Irvênia Prada, lembra que há também o fator emocional durante uma prova de rodeio. “Não ocorre apenas a ‘sensação’ de dor orgânica, como também o sofrimento mental, emocional, porque os animais se sentem ameaçados e perseguidos”, diz.

Velhos questionamentos
Mas o que realmente o público quer ver? Touros saltando – um comportamento antinatural – com um peão nas costas e vibrar quando ele ‘vence’ o animal? Ou a grande maioria das pessoas vai à Barretos para curtir o seu cantor/banda? Se for pela segunda opção, não sentiriam falta alguma de ver touros e cavalos sendo explorados, num péssimo exemplo para esta e futuras gerações.

Assistir aos shows de grandes artistas da música brasileira que se apresentarão entre os dias 16 a 25 de agosto em Barretos é muito mais atraente do que presenciar um episódio como o descrito no começo da matéria.

Show durante 'Festa do Peão e Boiadeiro de Barretos'. A maioria das pessoas quer ver seu artista preferido em vez de rodeio. FOTO: Divulgação "Os Independentes".

Por que, então, não pensar em alternativas? Provas de destreza equestre em vez de rodeio, por exemplo. A cidade de Descalvado, interior de São Paulo, deu um exemplo para o Brasil em 2009 quando resolveu acabar com as provas de rodeio e, no lugar, realizar a FAIPET (Feira Agroindustrial e de Produtos Pet), que conta com expositores e grandes shows todos os anos.

O Brasil, que nos próximos anos sediará os dois eventos mais importantes do Globo – Olimpíadas e Copa do Mundo – pode mostrar que é bom em esportes de verdade. Esportes nos quais todos competem de igual para igual.


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