Tradição ou crime?

06/11/2012 by arcabrasil | Filed under Ações ARCA, Maus tratos, Vida Marinha.

Todos os anos, de setembro a março, milhares de golfinhos são mortos na baía de Taiji. Esse costume bárbaro pode ser justificado em nome da cultura milenar?

Bruno Schuveizer

Quanto mais a Ciência avança no estudo do comportamento animal, mais se torna claro que, embora não possuam um raciocínio lógico à maneira “humana”, os animais têm, sim, capacidade de pensar e, sobretudo, de sentir. Eles amam, temem, ficam angustiados, pressentem quando algo ruim está prestes a acontecer… São seres “sencientes”.

E, no universo animal, os golfinhos sobressaem pela sensibilidade e inteligência. São capazes, por exemplo, de fazer amizades duradouras – com seres humanos, inclusive – e de transmitir aprendizados para as gerações mais novas. As fêmeas da espécie revelam um instinto maternal que poderia servir de inspiração para muita gente, pois uma mamãe-golfinho simplesmente não mede sacrifícios quando se trata de proteger sua cria.

Mas nem toda a beleza destes seres, nem sua riqueza interior, são capazes de comover seus algozes. Todos os anos, de setembro a março, mais de 20 mil golfinhos são mortos na baía de Taiji, no Japão. E eles não são as únicas vítimas, pois trata-se de uma “temporada de caça” aos cetáceos na Terra do Sol Nascente.

Ritual sangrento

Golfinhos são encurralados e mortos na baía de Taijí

Nem bem o dia amanhece, começam as cenas de horror. Os pescadores embarcam, armados com barras de ferro, e produzem sons que deixam os golfinhos desorientados – vale lembrar que esses animais têm um sistema sonar que lhes permite orientar-se espacialmente e encontrar alimento. Quando esse sistema sofre interferência, eles ficam confusos e angustiados.

O segundo passo consiste em conduzir os animais para uma pequena baía, onde são mortos. Alguns têm um pouco mais de “sorte” e são levados a aquários. Basicamente, livram-se da pena de morte para pegar prisão perpétua. Não há seleção: filhotes, fêmeas grávidas, machos, todos são friamente golpeados com lanças e facas. A morte é lenta e agonizante, e a água se tinge de vermelho.

Consultada pela ARCA Brasil, a embaixada japonesa informou que a pesca de cetáceos é uma “antiga tradição em certas regiões do Japão”, praticada desde 1600, aproximadamente. De acordo com Kentaro Morita, secretário para assuntos agrícolas da embaixada, ““essa tradição é uma importante parte do patrimônio cultural”. Fontes extra-oficias denunciam que, para o governo japonês, os golfinhos são “pragas”, pois comem muito peixe, afetando os interesses da indústria pesqueira.

A reportagem da ARCA procurou pessoas que moram no Japão para falar sobre a barbárie, e foi avisada de que os governantes daquele país preferem não tocar no assunto porque temem a repercussão negativa junto à comunidade internacional.

Ajude a acabar com esse massacre! ASSINE A PETIÇÃO!

Localização da baía de Taiji, no Japão. Google.

Golfinhos de Taiji
De acordo com Mario Rollo, biólogo especialista em mamíferos marinhos e professor-doutor da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), os golfinhos se dirigem à baía de Taiji em busca de alimentos e abrigo. “As características do arquipélago japonês e sua posição, em frente a um sistema de correntes que operam em giro, atraem os cetáceos que estão à procura de alimentos e abrigo, além de oferecerem as condições ideais para o processo reprodutivo e os cuidados com os filhotes recém-nascidos”, explica o professor. Isto é: os animais estão em busca de sobrevivência e da perpetuação da espécie, mas acabam encontrando a morte.

Baía de Taiji, no Japão, vista de cima. Google.

Segundo Rollo, é possível identificar três espécies de golfinhos que passam por Taiji nessa época do ano. “A partir da minha inspeção visual, identifiquei o golfinho listrado (Stenella coeruleoalba), que aparece sendo arpoado e trazido para dentro dos barcos. Também vi o golfinho comum e o golfinho nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), sendo que estes últimos eu identifiquei graças às imagens apresentadas em câmera lenta”, enumera o professor.

Majestosos delfins
Golfinhos são, estritamente, as espécies incluídas na família Delphinidae. Até o momento, a ciência identificou 36 espécies, das quais 20 já foram avistadas no litoral brasileiro. Por aqui, aliás, a espécie mais comum é o boto cinza (Sotalia guianensis), que pode ser visto o ano inteiro em diferentes pontos, da embocadura de estuários como Cananeia até arquipélagos de plataforma continental, como os Abrolhos.

Para Mario Rollo, a pesca de cetáceos é totalmente inaceitável nos dias atuais. “Esse tipo de prática é lesiva e injustificável sob todos os pontos de vista”, enfatiza o biólogo.

A ARCA e os golfinhos
A ARCA Brasil tem uma trajetória profundamente ligada à defesa dos golfinhos. A ONG nasceu em 1993, justamente para devolver à liberdade o famoso Flipper, golfinho que vivia em um parque de diversões na cidade de Santos – SP, confinado num tanque com 12 metros de largura.

O projeto “Flipper volta para casa” tinha à frente um famoso ex-treinador de golfinhos, o norte-americano Richard O’Barry, mais conhecido como Ric O’ barry, que na década de 1970 deu uma guinada na carreira e, em vez de continuar submetendo animais aos caprichos humanos, começou a atuar na readaptação de cetáceos cativos em seu retorno à natureza. Marco Ciampi, que hoje é presidente da ARCA, cuidava das questões legais e práticas para a transferência, enquanto Ric passava horas e horas no tanque de Flipper, preparando o animal para a maior aventura de sua vida: o reencontro com o habitat natural.

Na época, a instituição, criada para cuidar dos aspectos legais e administrativos da operação que devolveria ao mar o último golfinho preso e utilizado para shows do Brasil, chamava-se Amigos do Golfinho Flipper. Tinha o apoio da WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal) e deu conta do recado com enorme sucesso: no dia 2 de março de 1993, Flipper foi devolvido para o mar, em Laguna, Santa Catarina. Naquele dia, a cidade parou para torcer por Flipper. Uma faixa expressava o desejo coletivo: “Adeus Flipper, tenha uma vida feliz”.

Flipper, prestes a conquistar novamente a liberdade.

O golfinho iniciou sua exploração rumo ao norte, e foi avistado em inúmeras praias da costa brasileira, como Gamboa, Garopaba, Bombinhas, Balneário de Camboriú e Ilha de São Francisco do Sul. O animal percorreu 300 km neste trajeto, e em 25 de janeiro de 1995, um golfinho com o mesmo porte de Flipper e com mancha branca na barbatana – marca usada em Flipper para monitorá-lo – surgiu próximo à costa em São Vicente. As imagens foram registradas por TV local.

Na época, o trabalho de reintegração de Flipper foi classificado por O’ Barry como “a mais completa e minuciosa monitoria pós-reabilitação de golfinhos já realizada”. Hoje, o profissional dirige a SaveJapanDolphins.org, campanha da Earth Island Institute que pretende acabar com a matança de golfinhos no Japão, além de por fim a captura e o comércio desses cetáceos para zoos e aquários ao redor do mundo. Recentemente, O´Barry procurou a ARCA Brasil para obter possíveis notícias de Flipper e recuperar documentos que comprovem o sucesso de sua soltura. Falou também sobre a situação dos golfinhos no Japão e o papel da conscientização. Para ele, “enquanto houver pessoas que comprem um ingresso para assistir a esses shows, essa triste realidade continuará”.

A TV Tribuna, afiliada da Rede Globo em Santos, cobriu todo o projeto que devolveu Flipper ao mar e tem um bom acervo com essas imagens. Há também cenas do golfinho em contato com banhistas, saudável e feliz com sua liberdade. Um especial dos 20 anos da TV Tribuna foi ao ar em 16 de março de 2012, durante o programa Globo Repórter, e Flipper não ficou de fora.

O cenário mundial da caça de golfinhos hoje
Japão, Islândia, Noruega, Ilhas Faroe, Groenlândia e alguns países ilhas do Pacífico e do Caribe ainda caçam golfinhos. O Brasil não faz parte dessa lista, e pode se orgulhar de não ter nenhum golfinho em cativeiro. Isso coloca nosso país à frente de Estados Unidos, México, China, Espanha e Japão, dentre outros. Estima-se que existam 228 parques, zoos e aquários que mantém mamíferos marinhos em cativeiro ao redor do mundo – só no Japão são 47. Veja nos infográficos abaixo.

Ajude você também!

Os golfinhos continuam morrendo na baía de Taiji. Algumas manifestações organizadas pelo mundo mostra o repúdio de muitos, inclusive no Brasil. No dia 25 de novembro, um grupo de pessoas se reuniu no bairro da Liberdade, tradicional bairro da cultura japonesa em São Paulo, para protestar contra a matança de golfinhos na Terra do Sol Nascente. Veja como foi.

A 1ª manifestação dentro do Japão pode ser vista AQUI

Uma petição criada pela Save The Japan Dolphins já conta com mais de 500 mil assinaturas.

Ajude a por fim a essa triste realidade!


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One Response to “Tradição ou crime?”

  1. Iva Leticia disse:

    AAAAAAAAAAAAAJJJJJJJJJJJUUUUUUUUUUUUUUUDDDDDDDDDDDDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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