Animais não são peças de museu

22/08/2014 by arcabrasil | Filed under Ações ARCA, No entretenimento.

Sucessivos incidentes, muitos deles fatais, colocam em xeque o conceito de zoológicos

Em seus 21 anos de existência, a ARCA Brasil manteve-se coerente na defesa do bem-estar animal e no repúdio à clausura de todas as espécies, fosse esta praticada sob qualquer pretexto. Ao longo desta jornada, a ONG cerrou fileiras contra o uso de animais em circos e em outras formas de entretenimento, e em diversos momentos questionou o papel dos zoológicos. Sua seriedade na condução destas discussões a tornou interlocutora de órgãos de imprensa, a exemplo da revista Veja, que em sua versão online veiculou matéria sobre o futuro dos zoológicos com depoimento do presidente da ARCA Brasil, Marco Ciampi.

A reportagem em questão aborda o tema “zoos” a partir da nova tragédia que se abateu sobre este tipo de instituição: em julho de 2014, no pequeno zoológico do Município de Cascavel (PR), o menino Vrajamany Fernandes Rocha, de 11 anos, teve um braço amputado após provocar o tigre em seu recinto. O episódio é um novo chamamento à sociedade: é justificável que os zoológicos continuem existindo nos moldes atuais?
Logo após a tragédia ocorrida em Cascavel, teve início uma espécie de “gincana” para encontrar o culpado: seria o animal feroz demais? O pai do garoto teria sido negligente? O zoológico estaria ou não oferecendo condições satisfatórias de funcionamento e segurança?
Nenhuma das questões acima pode ser respondida com um “sim” – ainda que o zoo tenha sido negligente, o pai distraído e o garoto ousado além da conta, todos os envolvidos estão apenas vivenciando os reflexos de um equívoco histórico, protagonizado pela humanidade como um todo.
A atração pela vida selvagem e o desejo de possuí-la e dominá-la acompanham o homem, desde sempre, em sua jornada por este planeta. Podemos perceber essa paixão se manifestar das formas mais cruéis – por exemplo, na ostentação de troféus de caça – ou de maneiras aparentemente amorosas, desprendidas, com viés preservacionista – e é neste leque de boas intenções que os zoológicos se enquadram.
Surgidos na segunda metade do século XVIII com o propósito de serem verdadeiros “museus vivos”, os zoos ganharam o mundo. Não raro, vemos notícias de animais morrendo à míngua nos zoológicos sediados em países miseráveis, assolados pela seca, pelas guerras civis, pelas epidemias ou por tudo isso junto.
Infelizmente, não precisamos sair do Brasil para deparar com situações trágicas.


Tragédias paulistas

No segundo semestre de 2013 e início de 2014, o Município paulista de Taboão da Serra, situado a apenas 15 km da capital do estado, ficou sob os holofotes da mídia depois que vieram à tona denúncias sobre o péssimo estado dos animais mantidos dentro do Parque das Hortênsias, uma espécie de zoológico municipal. Ali, em poucos meses, morreram um leão, vítima de um parasita sanguíneo, um tigre e uma tigresa. A ARCA Brasil acompanhou o desenrolar dos fatos e engrossou o coro das vozes de ativistas e de visitantes, alarmados com a incapacidade dos administradores da instituição preservarem minimamente a integridade dos animais.
Casos de crueldade ou tragédias com vítimas humanas não se restringem a estabelecimentos carentes de recursos. Em janeiro de 2004, por exemplo, teve início uma série de mortes de animais mantidos pela Fundação Zoológico de São Paulo, o maior do país. Na primeira leva, foram nada menos que 73 óbitos, incluindo um elefante. O segundo surto de mortes se estendeu de dezembro de 2004 a fevereiro de 2005, e teve pelo menos 30 vítimas confirmadas – provavelmente, por contaminação por urina de rato. No entanto, nunca houve uma confirmação acerca das causas das primeiras nem das últimas mortes.
Infelizmente, a sucessão de tragédias não parece estar prestes a acabar.
A maioria dos zoos é dirigida pelos municípios onde se encontram. Quando estes enfrentam dificuldades financeiras, os animais sofrem com a supressão do básico a sua subsistência. Em maio de 2014, frequentadores e funcionários (mantidos no anonimato) denunciaram a situação de abandono em que se encontram os animais do Parque Ecológico Cid Almeida Franco, em Americana (a 126 km de São Paulo).  Aparentemente, os gestores municipais começaram a atrasar os pagamentos dos fornecedores, que reduziram pela metade a entrega de víveres – os animais começaram, literalmente, a passar fome.
Impõe-se, assim, uma pergunta: se determinada instituição não se compromete sequer com a integridade física daqueles que deveria proteger, ela deve, de fato, continuar com suas portas abertas, adquirindo espécimes e recebendo “visitantes”?
Apenas 43 dos 123 zoos existentes no país – ou seja, 35% do total – são filiadas à Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil (SZB), organização que fornece apoio técnico e capacitação para que os zoológicos brasileiros “trabalhem dentro dos mais altos padrões éticos e de bem estar animal”.  O zoo de Cascavel, local da tragédia ocorrida em julho, não integra o grupo dos associados.

Educação versus aprisionamento

Um dos pretextos para a existência de zoos é o de que estes serviriam para “educar” as crianças e “ensinar” a elas noções sobre vida selvagem. No entanto, o efeito didático da observação de animais enjaulados, afastados de suas reais necessidades, não raro mentalmente afetados pelos longos anos de cativeiro, merece, no mínimo, ser questionado.
Vitórias eventuais também ocorrem. Em agosto de 2014, o zoológico de Belo Horizonte foi palco do nascimento do primeiro gorila gestado em cativeiro da América Latina. A espécie está ameaçada de extinção, e o nascimento do bebê foi comemorado mundo afora. Entretanto, os profissionais da instituição admitiram que essa reprodução vinha sendo tentada desde a década de 1970. Ou seja: o fato, é que a procriação de animais selvagens em cativeiro é tarefa árdua e raramente bem sucedida.
Não há como ser contra a proteção e a preservação de espécies, nem é razoável menosprezar os esforços neste sentido de pesquisadores dedicados e especialistas que, muitas vezes, atuam em zoos. O que devemos colocar na berlinda é o modelo, propriamente, dos zoológicos – seriam os santuários uma resposta? Cabe a nós refletir. E, especialmente, devemos ter sempre em perspectiva o fato de que o risco de extinção de inúmeras espécies deve-se, sobretudo, à forma predatória, arrogante, exploradora, com que a humanidade vem tratando as outras espécies que com ela compartilham o nosso planeta.
Outros casos de ataques de animais selvagens a visitantes de zoológicos.

1994, Alaska. Uma turista australiana, Kathryn Warburton, escala duas cercas de segurança para conseguir uma foto especial do urso polar Binky. O animal passa a cabeça por entre as barras de proteção e dilacera uma das pernas de Kathryn. Ela sobrevive graças à rapidez de outros visitantes, que distraem a atenção do urso acenando galhos de árvores.

1996, Ontario, Canadá. Em seu terceiro dia como funcionária do Haliburton Forest & Wild Life Reserve Ltd., Patrícia Wyman, uma bióloga de 24 anos, é encontrada morta no recinto dos lobos cinzentos. Seu corpo tem diversas marcas de mordida. Pernas e braços estão dilacerados. Os lobos são mortos – testes realizados posteriormente não indicam a presença de vírus da raiva nem qualquer outro distúrbio que possa justificar o comportamento violento.

1998, Oklahoma, EUA. A tratadora Lisa Morehead entra no recinto de Melody, uma anta malaia que acabara de dar à luz um filhote. Lisa é atacada, sofre lacerações faciais e tem seu braço esquerdo parcialmente arrancado.

2006, 2007, 2009, Pequim, China. Em seu primeiro ataque, o panda gigante Gu Gu se volta contra Zhang Xinyan, um homem embriagado que simplesmente salta para dentro da área do animal. Mordido nas pernas, o homem consegue se salvar, sendo içado por funcionários do zoo. No ano seguinte, um garoto de 15 anos, Li Xitao, também invade o recinto de Gu Gu, bem na hora da alimentação. Saldo: fraturas expostas nas pernas e nos braços. Em 2009, uma criança (nome não divulgado) derruba um brinquedo dentro do recinto de Gu Gu e seu pai resolve invadir a área para resgatar o objeto. Mais uma vez, Gu Gu parte para o ataque contra as pernas da vítima. Funcionários do zoo conseguem salvar o homem.

2012, Zoo Frankin, Nova Zelandia. Mila, uma elefanta africana de 39 anos de idade, traumatizada depois de trabalhar num circo por nada menos que 30 anos ininterruptos, esmaga com a tromba a proprietária do zoológico, Helen Schofield.


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2 Responses to “Animais não são peças de museu”

  1. Jussara disse:

    Sou totalmente contra a exposição de animais silvestres e selvagens em Zoológicos para o deleite dos seres humanos.

    Esses recintos deveriam ser destinados a recolher animais feridos e, se possível, devolvê-los aos seu habitat natural. Se não fosse possível a devolução, poderiam dar assistência aos animais até o fim de suas vidas.

  2. MAGDA disse:

    os casos de ataques em zoológicos, acho que na maioria das vezes não são divulgados…
    Eu me lembro de um bastante comentado em um bairro em que morei quando criança… Faz uns 40 anos, havia em Vila Maria – zona norte de São Paulo, um mini zoológico que fechou após um elefante ter esmagado a cabeça do tratador com a pata dianteira… Quantos casos como esse não devem ocorrer pelo mundo?????

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