Inoperância do Poder Público e as vítimas animais

11/09/2014 by arcabrasil | Filed under Animal Advocacy, Ações ARCA, Justiça e Legislação, Maus tratos.

Incêndio na Favela do Piolho e demolição de uma casa que abrigava uma comunidade de gatos, no Tatuapé: em menos de 24 horas, dois episódios evidenciam que o respeito à vida animal ainda é uma noção distante da realidade brasileira

Sete de setembro de 2014, domingo:

Um incêndio devastou a comunidade conhecida como Favela do Piolho, zona Sul de São Paulo. Cerca de 500 famílias ficaram desabrigadas. Não houve vítimas humanas. Já entre os animais, segundo cálculos das protetoras Edna Dutra e Renata Buono, da ONG Anjos dos Animais, envolvidas no resgate e acolhimento dos animais afetados, a baixa foi em torno de 90%.

Uma fonte que preferiu não se identificar informou ao Notícias da ARCA que os traficantes já haviam alertado os moradores para a necessidade de abandonarem o local. Esse depoimento corrobora uma suposição do Corpo de Bombeiros já veiculada pela imprensa: a de que o incêndio tenha sido criminoso.

Se isso de fato aconteceu, significa que muita gente saiu do local deixando seus animais para trás. Ou seja, ainda há muito a ser feito para educar a população no sentido de que os animais merecem ser respeitados, e suas vidas, preservadas.

Os desdobramentos da tragédia também deixam claro o despreparo das autoridades ao lidar com episódios dessa natureza. A mesma fonte nos revelou que os bombeiros fizeram o melhor que conseguiram, mas até remendos em mangueiras usadas no combate às labaredas os soldados precisaram improvisar. Enquanto isso, nas vielas, cães e gatos morriam queimados ou asfixiados pela fumaça.

Favelas são tortuosas e ricas em material que pega fogo facilmente. Conforme os escombros caíram, os animais ficaram presos entre eles e não conseguiram escapar. Sem um plano de contingência por parte das autoridades, não houve como ajudá-los.

Famílias tentam salvar o que podem

Diversos candidatos estão utilizando a bandeira da proteção animal como mote para buscar a eleição ou a reeleição. A ARCA Brasil levou a seis deles o seguinte questionamento: “No caso de ser eleito, o senhor pretende trabalhar em algum projeto de lei que crie um plano de contingência para lidar com desastres como este, da Favela do Piolho? Morreram cerca de 90% dos animais da comunidade.”

Em sua resposta, o candidato Ricardo Tripoli, que busca a reeleição a deputado federal por São Paulo, afirmou: “Irei solicitar à Consultoria Legislativa da Câmara Federal que analise a viabilidade da proposta. Somente apresento Projetos de Lei que tenham coerência legislativa”.

Desde o dia do incêndio, cerca de 12 cães, sete gatos, um periquito e um peixe sobreviventes foram acolhidos pelas protetoras. Elas também estão prestando atendimento aos animais sobreviventes que permanecem junto das famílias desabrigadas. Em outras palavras: diante da ausência do Poder Público, as protetoras estão assumindo um papel que ultrapassa largamente suas possibilidades.

Filhotes resgatados do incêndio pela protetora Renata Buono

Edna Dutra fala que há em torno de 50 cães espalhados pelas ruas e calçadas. As protetoras têm ido diariamente ao local para alimentá-los e prestar assistência. “Não estamos pedindo doações em dinheiro, mas aceitamos ração, potes de sorvete e de margarina vazios, medicamentos (pomadas para queimadura, pomadas com corticoide, analgésicos para uso animal)”.

O veterinário que está apoiando as protetoras em seu trabalho é o Dr. Gustavo Sato, da Hipopet, um dos Veterinários Solidários da ARCA Brasil.

Quem quiser ajudar pode contatar as protetoras pelo e-mail: ednadutra@gmail.com, ou pelo Facebook: https://www.facebook.com/AnjosdosBichos

Oito de setembro, segunda-feira:

Entre 40 e 50 gatos viviam na casa da rua Elie Sarfatis, 33, no Tatuapé. Pertenciam à moradora despejada do imóvel no dia 4 de setembro. Um vizinho, Sérgio Bustamante, percebeu que os animais tinham ficado para trás depois da mudança e acionou alguns contatos, pedindo ajuda. No domingo, dia 7, a protetora Fabiola Ataide Ampessan se encontrou com a dona do imóvel, a pastora Edna Venezian Pagliarin, que pretende erguer no local um templo da Igreja Nova Geração Mundial de Deus. Conforme relata Fabiola, a religiosa aceitou esperar quinze dias para começar qualquer obra no local, dando assim tempo hábil aos protetores para retirarem os bichos.

Foto tirada no domingo, antes da demolição

Na manhã seguinte, a protetora recebeu um telefonema de Sérgio Bustamante, alertando-a de que a demolição havia começado. Ela foi imediatamente para o local e ambos tiveram de gritar e protestar para conseguir que o trator parasse. Mas a tragédia já tinha acontecido: filhotes estavam mortos, e os sobreviventes, completamente apavorados. Mais de 30 gatos adultos e um cão foram salvos e abrigados por protetores independentes e ONGs, que precisam de ajuda financeira e adotantes. Uma gata abortou após ser levada ao veterinário, e pelo menos seis animais apresentavam ferimentos.

Sérgio e Fabiola asseguram que todos os envolvidos – ou seja, tanto a pastora Edna como os profissionais da empresa de demolição – sabiam da presença dos animais.

A polícia ambiental e equipes de reportagem foram ao local logo após o incidente. O caso ganhou repercussão nas redes sociais e a pastora Edna divulgou vídeo no qual se compromete a parar a demolição e arcar com as despesas dos animais socorridos. Procurada pelo Notícias da ARCA, a religiosa não quis se pronunciar.

O que se coloca, mais uma vez, neste caso, é a inoperância do Poder Público. Sergio Bustamante observa que não há nenhuma placa nem qualquer outra indicação, no local, de que a obra que a igreja pretende realizar ali esteja de acordo com os parâmetros legais.

A protetora Fabíola disse que pelo menos dois políticos enviaram assessores ao local. Um deles foi Ricardo Izar, que busca novo mandato como deputado federal. Outro foi Ricardo Trípoli, também candidato à reeleição (já citado anteriormente [no caso do incêndio da Favela do Piolho]).

Em sua página no Facebook, o deputado Ricardo Trípoli informa ter comparecido à 2.ª Delegacia de Meio Ambiente da capital, onde o delegado Douglas Brandão Costa instaurou o inquérito n.º 405/2014. O delegado que irá presidi-lo será o Dr. Luiz Carlos Santos Silva. Ele pede que quem tiver laudos veterinários dos gatos resgatado deve encaminhá-los à delegacia, situada na Avenida São João, 1247, 7º andar, São Paulo, SP. O telefone para contato é (11) 3338-0155.

Gatos resgatados atendidos

Doações devem ser feitas diretamente àqueles que acolheram os animais:

Aujudando Miaujudando – 10 gatos

Catland – adoção de gatinhos – 6 gatos

Ajuda para os Gatinhos da Raquel da Heliopolis – 2 gatos + 1 cão

Danielly Teles – 1 gato

Elizabeth Sotero Cerqueira de Azevedo – 1 gata

Alessandra Madeo – 1 gato

Bicho Brother – 3 gatos

Cris Sakuraba – 2 gatos

Adote Um Gatinho – 3 gatos

Confraria dos Miados – 1 gato

Giovanni Bellato – 3 gatos


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One Response to “Inoperância do Poder Público e as vítimas animais”

  1. Gisela Bender disse:

    Absurdo. Descaso. Essa pastora e a empresa responsável pela demolição não poden ficar impunes. Devem pagar os custus de veterinário, assim como castracao , vacinas , etc…. Já qye não quiseram a paz então o mínimo que paguem . Bando de Demônios se escondendo atraz da biblia.

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