LEISHMANIOSE: DECISÕES POLÍTICAS E NÃO TÉCNICAS?

01/09/2014 by arcabrasil | Filed under Cão e Gato, Saúde animal.

Para especialista, “é preciso ouvir a comunidade científica em alto nível, para tomar decisões embasadas”.

ARCA BrasilSabemos de alguns sinais de flexibilização da política atual. Quais as chances de uma reforma por parte do governo?

Dr. Carlos Costa – Minha visão não é otimista. Não sei se é por razões políticas, pelas pressões de grupos interessados em manter o programa de eliminação de cães… Não sei exatamente o que há por trás. Seguramente, não é ciência. Houve um evento no início deste ano, que deve ser louvado, no sentido de escutar a comunidade cientifica. Minha participação consistiu em tentar examinar com eles como seria o ‘dia seguinte’ ao se parar de eliminar os cachorros, como seria esse processo, tentando antecipar um cenário favorável. Há um certo mal-estar entre os cientistas com a manutenção dessa política, mas parece que esses funcionários públicos são relativamente insensíveis aos apelos científicos e à comunidade de proteção aos animais.

ARCA - Seriam posições pessoais e não baseadas em ciência?

Dr. Costa – Não sei se é pessoal. Havia uma funcionária do Ministério da Saúde, que hoje está na OPAS, que defendeu enfaticamente esses interesses. Essa senhora fez o embasamento jurídico no sentido de perpetuar a eliminação de cães. No caso dela, eu diria que é pessoal. Mas não sei se os técnicos atuais continuam na mesma obsessão, ou, na verdade, se estão sob pressões acima de suas forças. E, você sabe, há políticos sempre ocultos, a gente nunca sabe exatamente de onde vêm as pressões.

ARCA - O ambiente político estaria contaminado?

Dr. Costa – Sim é possível que esteja influenciando. É por isso que eu acredito que a saída seja judicial.

ARCA - E, certamente, informar e organizar a sociedade que ama esses animais, principal papel da campanha ‘Prevenir É a Única Solução – O Cão Não é o Vilão’. E quanto à educação ambiental, impedir o acúmulo de matéria orgânica…

Dr. Costa – Não há nenhuma evidência cientifica de que tirar a matéria orgânica tem alguma eficácia no controle da doença. Na verdade, não temos nenhuma medida de saúde pública eficaz para o controle da Leishmaniose Visceral (LV). Zero. A não ser o diagnóstico precoce e o tratamento, fora isso, nada está assegurado para o controle da doença. Talvez o DDT pudesse ter feito isso, mas hoje não existe nada cientificamente demonstrado. O resto é conversa pra enganar tolo.

ARCA - Então a mobilização nacional para controlar a doença deveria ser mais séria?

Dr. Costa – Muito mais séria. A outra doença, muito parecida com o Calazar, é a dengue. O número de casos aumenta e nós não sabemos o que fazer. A gente segue aquela regrinha, mas claramente sabemos que não serve de nada, a doença continua epidêmica e nada se resolve. Com a dengue, pelo menos sabemos que o foco está na água parada, e quando você tira, aquilo melhora. Para o Calazar, a situação é pior. A “vantagem” do Calazar é que tem tratamento de origem (*). Na dengue, o tratamento é etiológico (**). Em compensação, o Calazar mata mais. Temos que financiar pesquisa, colocar cientistas jovens, abrir a cabeça, deixarmos de ser repetidores. Inovarmos, porque o que existe hoje realmente não funciona. Criar vacinas, novos métodos de controle ambiental, melhoria das condições urbanas.

ARCA - Falta incentivo à Ciência?

Dr. Costa – À Ciência e às instituições de ciência, que são muito frágeis no Brasil. É preciso avançar não só o conhecimento em si, mas as instituições que dão origem ao conhecimento.

ARCA - Retomando sobre o encontro de especialistas no início do ano, parece ter sido um momento importante.

Dr. Costa – Foi a própria Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, que encomendou essa audiência a pesquisadores convidados. Fui sendo excluído ao longo dos anos, por minhas opiniões contrárias, e eles não queriam ouvir o contraditório. Por pressões superiores, desta vez participei. Mostraram-se bem mais flexíveis, o que achei muito louvável. Ouvir a comunidade cientifica, em alto nível, para tomar decisões embasadas, sem dúvidas é uma atitude importante.

ARCA - Pode ser o sinal de novos tempos, com a saída dos núcleos resistentes?

Dr. Costa – De certa forma, eles continuam lá. Mas as altas lideranças são mais flexíveis, já sabem que o programa não funciona. O Dr. Jarbas Barbosa (Secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde) sabe perfeitamente que os dois maiores problemas que ele tem hoje no Brasil são Dengue e Calazar, e que nenhuma das duas doenças obedece às medidas de controle. Claramente isso sofre pressões da presidência, com copa do mundo, grandes eventos etc. Aí, naturalmente, o Dr. Jarbas, que é inteligente e muito sensato, de certa forma, sacudiu os degraus abaixo da administração, para que saia desse marasmo de bater na mesma tecla durante décadas sem sair do lugar. Pelo contrário, a doença vem se expandindo, a cada ano está pior. Obviamente, é necessária uma intervenção em outra escala, em outro nível, com outra qualidade.

ARCA Isso seria honrar a tradição brasileira no setor.

Dr. Costa – O Brasil tem uma tradição muito forte em pesquisa e no controle de doenças – como a de Chagas . É preciso resgatar e dar à comunidade cientifica o poder de iluminar os caminhos da saúde pública no país.

*O tratamento do Calazar/Leishmaniose utiliza drogas que matam o parasita ou controlam sua replicação, controlando as principais manifestações clínicas do paciente.

**Visa o agente causador da doença.

Carlos H. Nery Costa, Dr. em Saúde Pública pela Harvard University; ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, prof. da UFPI e médico do Governo do Estado do Piauí.


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A IMPORTÂNCIA DA VACINAÇÃO NO CONTROLE DA LVC

Quatro dos maiores especialistas do Brasil dão sua opinião sobre o tema

Vitor Ribeiro – Escola de Veterinária PUC Minas; BRASILEISH.

“O melhor exemplo de que investir em programas de vacinação é mais vantajoso para o controle de doenças  do que os programas baseados em abate canino e felino é o controle da raiva no mundo. A “carrocinha” era temida pela população. Já as campanhas de vacinação obtiveram sucesso e adesão popular. Acredito que, com a LVC, passaremos por experiência semelhante: o Estado se tornará aliado do proprietário do cão, e não seu inimigo. É lamentável que se priorize o abate canino em vez de buscar soluções éticas. As vacinas já demonstraram, através de trabalhos controlados, sua eficácia e potencial como aliadas no programa de controle da leishmaniose.”

Filipe Dantas – Fundação Oswaldo Cruz, Recife, PE; BRASILEISH.

“Ferramentas como vacinas e repelentes de longa duração têm revolucionado o controle da LVC no mundo e precisam ser incluídas em qualquer programa de controle. O clínico veterinário está na linha de frente nessa guerra contra a LVC. É responsabilidade desse profissional recomendar tais ferramentas, esclarecendo aos proprietários os prós e contras de cada uma delas, contribuindo assim para o controle dessa doença que ainda acomete tantos animais em nosso país”.

Fabio Nogueira – Fundação Educacional de Andradina, MG; BRASILEISH.

“A vacinação é uma excelente ferramenta para o controle no reservatório canino assim como o uso de repelente e inseticidas. A vacinação dos animais em áreas endêmicas mostrou-se, pelos diversos trabalhos já publicados desde 2004, eficaz e segura, sem interferir no Programa de Controle da Doença proposto pelo Ministério da Saúde. Temos no mercado Nacional duas vacinas, sendo uma (Leish-Tec®) aprovada pelos Ministérios da Saúde e da Agricultura”.

Paulo Tabanez – Prontovet, DF; BRASILEISH.

“A vacinação é eficaz, segura e importante para o controle da leishmaniose visceral. Deve ser reconhecida como essencial no Brasil, em virtude da epidemiologia e forma de controle dessa enfermidade em nosso país.  A vacinação em massa dos cães gerará um efeito chamado ‘imunidade de rebanho’, conduzindo à proteção da população, se realizada em pelo menos 80% dos indivíduos. O médico veterinário não deve negligenciar a possibilidade de usar mais um instrumento de controle.  Animais vacinados são menos susceptíveis à doença e, consequentemente, o número de mortes cai drasticamente”.


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