Mascote para sempre

10/12/2014 by arcabrasil | Filed under Cão e Gato.

Uma breve história de Tingo, o cão sem raça definida que se tornou a mascote eterna da ARCA Brasil

Uma trajetória de 21 anos não tem como não ser marcada por alegrias e dores. Na história da ARCA Brasil, nada simboliza tão bem essa vastidão de sentimentos e descobertas como a passagem, por nossas vidas, do eterno mascote da entidade.

Tingo (ou Alemão, como muitos preferiam chamá-lo) foi resgatado pelo presidente Marco Ciampi das ruas de Embu das Artes (Grande SP). Naqueles dias, o simpático vira-lata bege-claro padecia de todos os males típicos de um bicho sem lar – carrapatos, sarna, parasitas intestinais, pulgas… E desconfiança em relação aos seres humanos. Muita desconfiança mesmo.

Ele, arredio; e Ciampi, por sua vez, temeroso de se abrir totalmente para o novo amigo. Afinal, como se diz, “santo de casa não faz milagre”, e o presidente da ARCA Brasil podia estar disposto a defender todos os animais do mundo, mas nem por isso deixava de nutrir o mais humano dos sentimentos: o medo de sofrer.

Pode parecer exagero, mas não é. Quanto mais sensível é uma pessoa, mais ela teme reviver feridas quando este amigo parte – e, por mais que a vida seja cheia de imprevistos, normalmente o animal parte antes de seu guardião.

Embaixador dos SRDs

Mas, como se diz em árabe, “maktub”— estava escrito. A amizade selada aos poucos entre Marco e Tingo não apenas transformou as vidas de ambos, como transcendeu suas respectivas individualidades e ganhou um significado mais amplo.

Com madrinha “de pedigree” (ninguém menos que Holly Hazard, da Doris Day Foundation, que estava ao lado de Ciampi no momento em que Tingo foi avistado, em estado lastimável), o vira-latas malandro, charmoso e machucado pela vida nas ruas foi alçado ao posto de “Embaixador dos SRDs” (SRD = sem raça definida). Marco Ciampi guarda com carinho a edição da Revista Clínica Veterinária que tem uma bela foto de Tingo estampada na capa. “Foi uma mudança de comportamento. Pela primeira vez, um SRD estava na capa de uma das publicações mais lidas pelos médicos veterinários brasileiros”, recorda o presidente da ARCA.

Além de ser capa de revista, Tingo participou de diversas reportagens em jornais, TV e outros canais da mídia. Ilustrou calendários, materiais promocionais e educativos produzidos pela entidade e tornou-se um case ambulante dos milagres que a guarda responsável pode operar. Afinal, de seu resgate em lamentáveis condições ao “estrelato”, Tingo mostrou como bons tratos podem devolver a beleza, a saúde e a vitalidade. Ele encarnou, assim, uma mensagem muito forte, a respeito do que se pode e deve fazer pelos animais de rua deste país: dar-lhes a oportunidade de iniciar um novo capítulo ao lado de alguém ou de uma família que se disponha a cuidar de cada um deles da forma como merecem!

Vale lembrar que Tingo se tornou conhecido em muitos círculos. Morava no apartamento de Ciampi, mas todos os dias ia “trabalhar” na sede da ARCA Brasil, que na época ficava na rua Wisard, Vila Madalena. Saía para passear com os colegas de escritório, sempre de coleira, medalhinha e guia, e depois tirava longos cochilos, aos pés de um felizardo. Gostava de biscoitos (caninos, é claro!) e às vezes se levantava para ir pedir carinho ao pessoal – de mesa em mesa, dava uma paradinha e emprestava a cabeça macia para receber cafunés. “O barulho de suas unhas sobre o assoalho fazia parte do cotidiano da ARCA Brasil, ainda é ouvido por nós”, lembra o amigo Vinícius Correa.

O adeus

O tempo passado pelas ruas cobrou seu preço, e Tingo nos deixou no pós-operatório de uma cirurgia delicada, para aliviar um pinçamento na coluna cervical que paralisou seus membros dianteiros por meses. Notícias da ARCA produziu diversas reportagens, que permitiram aos amigos de Tingo – muitos deles virtuais, espalhados por todo o Brasil – acompanhar de perto sua luta. Mas ele se foi em abril de 2007, com 15 anos de idade, segundo estimativas dos médicos veterinários que o atendiam. Partiu como viveu nos dez anos em que brindou a ARCA Brasil com sua doce presença: amado, assistido e estimulando uma profunda discussão sobre a dignidade e a vida animal.

E o medo de Ciampi, mencionado no início deste texto? Pois bem: ele sofreu, sim, com a perda do amigo. Mas o privilégio de ter experimentado sua amizade fez com que tudo valesse a pena. “Faria tudo de novo, e de novo, e de novo”, ele afirma. Tingo estará sempre com a família ARCA Brasil, pois ele se tornou parte da entidade – aquele cão “sarnento” conseguiu algo que a maioria das pessoas não consegue: dar à própria vida um significado maior, e levar ao mundo uma mensagem efetiva de amor, esperança e transformação.


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