Nossa fauna, vítima silenciosa

10/06/2015 by arcabrasil | Filed under Justiça e Legislação, Maus tratos, Vida Silvestre.

Perdas econômicas podem ser revertidas, mas a dilapidação da natureza é um caminho sem volta – afinal, extinção é para sempre!

O Brasil enfrenta uma crise política e econômica de proporções ainda desconhecidas — afinal, são tantos os escândalos que surgem dia após dia que não se pode prever qual será a má surpresa de amanhã. Em nível mundial, são inúmeros os horrores que nos fazem questionar se a humanidade tem futuro: há os crimes perpetrados pelo Estado Islâmico, a roubalheira protagonizada por altos dirigentes FIFA e até a evidência de que um certo Jack Warner desviou o dinheiro destinado a ajudar as vítimas dos terremotos no Haiti. Diante de tudo isso, cabe perguntar: resta espaço para defender os animais?

Pois tem de restar. Mais do que isso: quanto mais vemos abusos, absurdos, desrespeitos, mais temos de nos voltar para a proteção de seres que não podem se defender sozinhos — crianças, deficientes, idosos e, no caso da ARCA Brasil, animais. É impossível precisar quantos espécimes da nossa fauna são traficados, mortos por caçadores, atropelados nas rodovias, destruídos pelas obras de infraestrutura que dilapidam o meio ambiente sem pedir licença – ou, o que é pior, que o fazem com uma “licença” sim, lastimavelmente concedida pelos órgãos oficiais que deveriam zelar pela integridade dos nossos ecossistemas mas estão subjugados por interesses econômicos e político-eleitoreiros. O agronegócio também ocupa parcelas cada vez maiores de terra, e os grandes felinos brasileiros são abatidos sem cerimônia sob a justificativa de que é preciso “defender o gado”.

Estima-se em 20 mil o número de animais silvestres atropelados anualmente na BR-101, no Espírito Santo. Em todo o país, a cifra pode chegar a 475 milhões. É uma carnificina.

Crueldade e interesses mesquinhos

ARCA Brasil defende todos os animais, sejam eles domésticos, silvestres, domesticados, exóticos etc. Mas é chocante que animais em risco de extinção continuem a ser abatidos e o crime fique praticamente impune. Há poucos dias, o funcionário de uma fazenda em Mato Grosso do Sul foi denunciado por matar uma onça-parda. Poucos dias antes, pescadores haviam matado a pauladas outro exemplar de onça parda, que não oferecia qualquer risco aos homens e não teve a chance de se defender.

E não são apenas casos isolados. Há também uma exploração sistemática e bem organizada dessa estranha obsessão por destruir belos e raros animais. Em 2011, a Polícia Federal desbaratou um lucrativo negócio de caça ilegal com “proposta turística”, mantido em uma fazenda, também em Mato Grosso do Sul.

Além de matar, também se aprisiona. O tráfico corre solto em locais como as “feiras do rolo”, muito comuns nos bairros da periferia paulistana. Ali se troca curió por liquidificador, vende-se canários da terra para quem promove rinhas – sim, existem “lutas” de canários, que movimentam dinheiro de criadores e apostadores.

Dados oficiais revelam que, só em Uberlândia (MG), a apreensão de animais silvestres foi 200% maior em 2014 do que no ano anterior. Em Carapicuíba (SP), no início deste ano, duas centenas de pássaros nativos foram encontrados em condições de maus-tratos em um motel. E a penúria dos animais vitimados pelo tráfico não termina quando, por um acaso ou golpe de sorte, eles são resgatados pelas autoridades: no Rio de Janeiro, por exemplo, como bem mostrou reportagem do site noticioso G1, não há instalações adequadas para abrigar as vítimas do tráfico, recuperá-las e preparar sua reintrodução à natureza.

O Poder Público realmente não parece se importar com a vida animal, com o patrimônio ambiental do País e, consequentemente, com as próximas gerações. O que temos de melhor – nossa natureza – parece servir apenas para projetar uma boa imagem do Brasil no exterior. Ou, então, para faturar: que o diga o tatu-bola, imortalizado pelo “Fuleco”. Hoje, a espécie está oficialmente na categoria “Em Perigo” da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção (International Union for Conservation of Nature – IUCN, 2013), por conta da perda de cerca de 50% do seu habitat nos últimos 10 anos.


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