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Não alimente os pombos

é a única forma de fazer com que parte deles migre para o campo e deixe de espalhar doenças, como a toxoplasmose, por diversos bairros da cidade

Por Fernando Tadeu Santos para revista Claudia


Símbolo da paz, diversão certa para as crianças, passatempo para os idosos e cartão-postal de praças de todo o mundo. Os pombos são assim no imaginário de muita gente. Mas, quando o contato com eles se torna próximo demais, oferecem riscos que a maioria das pessoas desconhece. Além da sujeira e dos estragos em residências, prédios e monumentos, causam uma série de doenças. De uma simples alergia à toxoplasmose - infecção transmitida por aves e mamíferos com conseqüências seríssimas para as pessoas, muitas vezes fatais.

Apesar disso, não existe nenhum programa que controle a proliferação dessas aves na capital. Não se sabe quantas delas convivem com a população em praças, parques e até em imóveis residenciais, mas com certeza são muitas. Uma quantidade que salta à vista em vários bairros: basta olhar para os fios elétricos nas ruas e enumerar centenas de pombos pousados lado a lado. Outro indício de que estão se transformando em um problema grave é o aumento do número de reclamações no Centro de Controle de Zoonoses, o CCZ. Em 1994, a média anual era de 160 queixas. Neste ano, foram 353 só até o mês de maio. "Um dos motivos que mais colaboram para essa situação é o fato de as pessoas insistirem em alimentá-los", diz a médica veterinária Elizabeth de Toletti, diretora do CCZ. "Se não houvesse comida, eles migrariam para outras regiões e não teriam tantos filhotes." Há muitas outras idéias sobre o tema.

"A construção de pombais no campo poderia ser uma forma de levá-los para fora da cidade", opina Marco Ciampi, presidente da ong Arca Brasil - Associação de Proteção Animal.

Como em Veneza
A reprodução sem controle dessas aves preocupa a população e as autoridades de vários países. Ninguém imagina a Piazza San Marco, em Veneza, sem eles. Mas os moradores da cidade italiana não acham muito vantajoso o tal toque no cenário. Pelo contrário. Há anos promovem campanhas para que os turistas não os alimentem. Na capital inglesa, Londres, o prefeito comprou briga com o público que se divertia jogando porções de milho na Trafalgar Square. Proibiu a diversão para afugentar os 40000 pombos que vivem sujando a região.

Em São Paulo, tudo o que existe para combater o problema é uma cartilha do Centro de Controle de Zoonoses, distribuída em pontos estratégicos, que orienta as pessoas a adotar hábitos preventivos (ver "Cuidados quando eles estão por perto"). Não se fala em distribuir pílulas anticoncepcionais para os bichinhos nem em promover campanhas para que a população pare de alimentá-los. "Cansei de buscar ajuda, mas não consegui nada até agora. Acabei me tornando justamente a vítima que não queria ser", reclama o jornalista aposentado Hélio de Sá, morador do Bosque da Saúde. Ele perdeu boa parte da visão devido a uma grave toxoplasmose, provavelmente contraída por ter aspirado partículas de fezes secas dos pássaros. Nessas condições, elas se espalham pelo ar, levando o protozoário causador da infecção. "Estou doente e ainda sou obrigado a deixar a casa fechada o dia todo", desabafa.

A poucos metros dali, as donas de uma escola protegem as crianças com um arsenal de medidas. "Colocamos telhado que não permite que as aves entrem no forro, lavamos o quintal duas vezes por dia e aplicamos uma pasta escorregadia nos parapeitos e nas janelas", conta a diretora educacional Lídia Nakata. "Mal estacionamos o carro e lá vem sujeira", completa a empresária Vera Morey, que todos os dias deixa no local a filha Daniela, 4 anos. A escola organizou um abaixo-assinado com 300 assinaturas de pais, funcionários e vizinhos pedindo a intervenção do CCZ. No bairro da Lapa, a indignação é igual. Os moradores da Rua Mário estudam ir à Justiça. Eles pretendem iniciar uma ação de responsabilidade pública contra a prefeitura. "Infelizmente é o único meio de acabar com essa praga em nosso bairro", reclama o engenheiro Dino Del Carlo. "Chega de descaso com nossos direitos."


Cuidados quando eles estão por perto

Retire diariamente as fezes das aves depositadas em parapeitos e no quintal. Para isso, umedeça a área com uma mistura de água e desinfetante à base de formol e só lave a sujeira no dia seguinte usando luvas, botas e máscara protetora ou pano molhado no rosto.
Não alimente os pombos de forma alguma.
Recolha sobras de comida ou de ração das vasilhas de animais domésticos.
Mantenha o lixo em sacos plásticos sempre bem fechados.
Se morar em apartamento, coloque rede de proteção na varanda e nas janelas ou pendure fios de náilon no sentido horizontal, formando uma espécie de grade.
Para reclamações, ligue no Centro de Controle de Zoonoses, tel. 6221 9755.

 

Claudia - 01/08/2001
Ed.: 479 - Pág.: 224-226



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