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Lições do coração
Por Jô Gomes dos Reis para Revista Casa Claudia
Tem gente que ainda confunde os animais com brinquedos. Leva para casa, usa e depois... joga fora. Foi o que aconteceu com Meg, rejeitada na casa onde nasceu e abandonada à própria sorte. Outros filhotes têm igual destino, ainda recém-nascidos, quando os donos não conseguem distribuir a ninhada. Cléo, uma gata faceira, se livrou de ver crias suas sofrerem assim - depois de castrada, já não corre risco de engravidar. A jandaia Patrick, criada em cativeiro, só viu floresta pela TV e sente-se à vontade morando numa metrópole. Muitas outras aves, capturadas na mata e trazidas à força para enfeitar casas de cidade, no entanto, chegam a morrer de tristeza em suas gaiolas.
Meg encontrou um novo dono e muito afeto
Desde que ficou sem Xuxa, Pedro Henrique, 6 anos, não deu sossego
à mãe. A vira-lata precisou ser sacrificada, há
dois anos, por causa de um câncer. "Pedro acordava de noite
pedindo um cachorro", lembra Alexandra Petrolli, a mãe.
"Dormia mal, rangia os dentes. Foi quando fiquei sabendo pela
TV da campanha de adoção de animais do Centro de Controle
de Zoonoses. No dia seguinte, eu e meu marido já estávamos
na fila." Antes de levar a Meg, uma cachorrinha recém-nascida,
o casal preencheu uma ficha, foi entrevistado por um veterinário
e assistiu a uma palestra sobre responsabilidade de se adotar um animal.
"Desde que ela chegou, meu filho dorme muito bem." O Centro
de Controle de Zoonoses, em São Paulo, da Secretaria Municipal
da Saúde, recebe diariamente centenas de cães e gatos,
recolhidos das ruas para evitar a disseminação de doenças
transmitidas por animais, as zoonoses (como raiva e leptospirose).
Os animais não reclamados em 72 horas são sacrificados.
Parte é encaminhada para adoção, mas o número
de bichos que acham um lar ainda é pequeno. "Em 1999,
dos mais de 40 000 animais que chegaram aqui, só 2% foram adotados,
e 81,2% foram sacrificados", conta Osleny Viaro, do CCZ. A campanha
realizada em abril deste ano teve boa repercussão. Meg, de
casa nova, é que o diga!
Cléo, castrada e feliz da vida
Há dez anos, a siamesa Cléo teve sua primeira cria.
A ninhada nasceu morta e o parto quase dá à mãe
o mesmo destino. Para evitar outras gestações de risco,
a gata foi esterilizada. Hoje, com 11 anos, bela e satisfeita, prova
que bicho castrado não fica obeso nem bobo nem triste. "Isso
é puro preconceito", afirma Marco Antonio Ciampi, diretor
da ONGArca Brasil, organização não governamental
que atua, entre outras coisas, na prevenção da cria
indesejada. Ciampi garante que, se alimentado com critério
e exercitado, o bicho castrado não ganha peso. Também
não sofre, como se imagina, pois não se sente mutilado:
"Só deixa de receber a mensagem da procriação,
o que, no caso dos machos, evita brigas sem roubar a esperteza, qualidade
importante, por exemplo, para um cão de guarda", explica.
Castrar não é maléfico, pois a gravidez não
acrescenta saúde ao animal, que pode ser esterilizado já
nos primeiros meses de vida.
"Se minha mãe soubesse que a operação não prejudica em nada o bichinho, muita dor teria sido evitada", lamenta a publicitária paulista Suely Meng Gonçalves, dona de Cléo. Quando ela era pequena, a família tinha uma gata, a Madalena. "No cio, era aquela gritaria, e, a cada três meses, nasciam filhotes e mais filhotes. Um dia, sem achar outra alternativa, meus pais resolveram exterminá-los." Menina, Suely sofria com tal violência. Só quando se tornou voluntária na Arca Brasil entendeu as vantagens da castração, que evita a superpopulação de cães e gatos nas ruas. Muita gente até aceita as ninhadas, mas acaba livrando-se delas, de um jeito ou de outro, porque é caro e trabalhoso manter os filhotes. "Largados na cidade, podem causar acidentes de trânsito, furar os sacos de lixo, aumentando a sujeira, além do risco de morder alguém, ser vítima de crueldade ou transmitir doenças", lembra Ciampi. Perdem a dignidade. Será que merecem tal sorte?
Igor e Patrick, hóspedes legais de Beto
Foi numa temporada nos Estados Unidos que Luiz Alberto Altílio
Jr., o Beto, caiu de amores por Margarida. A jandaia (ave da família
dos psitacídeos, parente de papagaio, arara e periquito) pertencia
ao primo que o recebia. Nascida num criadouro na Flórida e
devidamente registrada naquele Estado, Margarida se adaptara perfeitamente
à vida urbana e vivia satisfeita no apartamento em Nova York.
Apreciador do belo - Beto tem um escritório de arte, em São
Paulo -, o hóspede declarou-se sócio do primo na posse
do pássaro, tão apegado que ficou ao bichinho. De volta
ao Brasil, trouxe na bagagem essa nova paixão. Mas a adoção
de espécies silvestres estava proibida no país. Só
em 1997, uma portaria do Ibama, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente,
legalizou os criadouros comerciais e então ele pôde trazer
para casa a jandaia Patrick e a maritaca Igor. Ainda recém-nascidas,
as aves não criaram intimidade com o dono. Mas Beto lembra
como Margarida se afeiçoara a ele e reagia à sua ausência:
"Era só eu voltar, para ela fazer desaforo: me bicava
e fugia para a árvore do quintal vizinho". Aos que criticam
a posse de animais silvestres como bichos de estimação,
ele argumenta: "Aves nascidas e criadas em cativeiro não
sentem falta da floresta".
Animais silvestres, dentro da lei
A Lei de Fauna, de 1967, criada para proteger animais silvestres,
classificava de crime ambiental a posse desse tipo de bicho. Em 1997,
a criação em cativeiro e a comercialização
foram liberadas, desde que respeitadas algumas normas. Só se
pode comprar filhotes em criadouros registrados no Ibama, que seguem
normas específicas para cada espécie. A bióloga
do Ibama Marly Carbonari aconselha: "Na compra, exija nota fiscal
com o nome do criadouro e o número do registro. Verifique se
oanimal traz um chip ou anilha (no caso de ave) com a marcação
do criadouro".
Casa Claudia Especial - 01/07/2000
Ed.: 466 - Pág.: 44-47

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