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Feitos um para o outro
Revista Claudia
Por Mônica Manir e Celina Ferraz
Histórias de quem mudou de casa, de ritmo, de profissão e de comportamento depois que se deixou conquistar por um animal de estimação
Amor incondicional existe? No que diz respeito ao relacionamento entre homens e animais, a resposta parece ser sim. Cães, gatos, cavalos e companhia não raro mudam a vida dos donos. Para melhor. Pesquisa divulgada no site Petsite revela que 59% dos brasileiros têm bicho de estimação, e a grande maioria acha que o animal transmite emoções, principalmente alegria. "Sempre que chego em casa, minha cadela traz um urso de borracha, o brinquedo preferido, para mostrar que está feliz", afirma a estudante Carolina Lafemina.
Reações apaixonadas como essa são comuns. Não faltam casos de quem se sentiu escolhido por um cão ou um gato num petshop, de quem dá nome de gente a eles e até os presenteia com festas de aniversário. "Deixamos de tratar apenas das necessidades básicas dos bichos para pensar a relação deles com o homem de um jeito mais profundo e prazeroso", explica Marco Ciampi, presidente da Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal (Arca Brasil). O assunto está tão em foco que a entidade organizou no Rio de Janeiro a 9a Conferência Internacional sobre Interações Homem-Animal, que reuniu cerca de cem conferencistas. "Humanizar animais está virando regra", diz Alexandre Rossi, zootécnico e um dos palestrantes do evento. "A eles são atribuídos desejos e sentimentos que os tornam ainda mais próximos dos outros membros da família."
Paixão hereditária
A estudante de Direito Carolina Castellotti Lafemina, 25 anos, e a avó,
Licia Croso Castellotti, 80, compartilham a paixão pelos onze animais
da casa - nove gatos e duas cadelas. Verdade que Licia pende para os gatos,
enquanto a neta divide o quarto, a cama, o carro e a praia de fim de semana
com as duas labradores. "Não admito a idéia de deixá-las sozinhas", diz
Carolina. A avó, por sua vez, se derrete pelo gato Cicino, que trata como
filho. Viúva há dois anos, ela encontrou nos bichanos uma forma de contornar
momentos de solidão. Já Carolina fez do adestramento de cães sua profissão
alternativa.
Gatil em casa
Defensora perpétua dos gatos, a produtora Valéria Regina Raucci, 38 anos,
recebe diariamente quinze deles em casa. é ali que os animais se encontram
para as refeições e, eventualmente, para um passeio pela sala, uma fuçada
na cozinha ou um cochilo no armário. "São todos meus filhos queridos",
confessa. A maioria deles andava pela rua, muitas vezes correndo risco
de vida. Shadow, por exemplo, foi encontrada num bueiro de uma avenida
movimentada de São Paulo. Arthur José miava desesperado no fundo de um
barranco. A gata Sofia seguiu um vizinho até a casa, onde costuma dividir
uma das camas com a anfitriã. A produtora vê seus animais de estimação
como doces e fiéis. "Eles conhecem o barulho do meu carro e sempre vêm
atrás de mim em fila indiana", diz.
A passos largos
Tudo começou numa sessão de equoterapia. Convidada por um psicólogo, a
engenheira Ana Lúcia Madalosso, 43 anos, fez parte de um grupo que passou
dois dias em contato com cavalos. Logo descobriu que a vivência era fundamental
a seu dia-a-dia. Dois meses depois, comprou Olegário, garanhão que fora
abandonado num centro hípico de Sorocaba, a 87 quilômetros de São Paulo.
"Foi bater o olho para perceber que nossa relação seria especial", diz.
Todo fim de semana, Ana se desloca ao centro para montar o cavalo de estimação.
A experiência a ajudou a desenvolver a percepção do próprio corpo, pois
o animal não atende ao comando quando a engenheira está tensa. "Ao impor
respeito a ele, também estou aprendendo a tomar as rédeas da minha vida",
afirma. Ela pensa em se mudar para o interior, onde poderá se dedicar
mais a Olegário. "Como sou taurina e gosto de ter os pés no chão, o cavalo
é ideal para equilibrar o corpo e a alma."
Os olhos da dona
As pessoas param para observar os dois no metrô. Primeiro porque a advogada
Thays Martinez, 27 anos, nem de longe parece ser deficiente visual tamanha
a segurança com que anda pela estação. Segundo porque Boris, seu cão-guia,
é um labrador - e isso basta para cativar quem estiver por perto. Terceiro
porque o metrô proíbe a entrada de animais, exceção feita à advogada,
que conseguiu uma liminar autorizando-a a circular com o cachorro pelos
vagões. Cega desde os 4 anos por causa de caxumba, Thays sempre quis ter
um cão-guia. Após anos de procura, chegou a uma escola em Michigan, nos
Estados Unidos, onde foi apresentada a Boris. Além de lhe dar maior independência,
o labrador ajudou a aumentar sua auto-estima. "Quando usava bengala, as
pessoas se aproximavam por dó, enquanto hoje querem conversar sobre nós."
Feliz com a experiência, a advogada hoje coordena a área de desenvolvimento
da ong Projeto Cão-Guia, que busca famílias dispostas a socializar filhotes
para a função.
"Mãe, eu também quero um..."
Meninos e meninas ficam elétricos quando o schnauzer Micha chega nos braços
da artista plástica Inés Zaragoza, 40 anos. é dia de visita especial no
Hospital da Criança, em São Paulo, que incorporou às propostas de humanização
o Petsmile - projeto mantido por voluntários, que levam animais a hospitais,
creches e escolas. Orientados por Hannelore Fuchs, coordenadora do projeto
e especialista em comportamento animal, Micha e a dona despertam sorrisos
e integram pacientes (e pais) na ala infantil. "É maravilhoso perceber
como a terapia acelera a recuperação da criança", diz a artista plástica.
Bianca, 5 anos, não se agüentava de alegria. Internada por causa de uma
virose, abraçava o schnauzer e insistia com a mãe para comprar um igual.
"Mas você já tem dois cachorros e um coelho", lembrava Fátima Malfati,
certa de que o argumento de nada adiantaria diante do entusiasmo da filha.
De volta à boa forma
Ao comprar a bull terrier Blanka, o jornalista Alexandre Caliman, 27 anos,
contratou na verdade uma espécie de personal trainer. Na época (1999),
ele precisava perder peso e controlar a hipertensão. Para acompanhar o
ritmo da cadela, que necessitava de duas caminhadas diárias, o jornalista
retomou o gosto pelo esporte. Hoje, 15 quilos mais magro e com a pressão
estável, não fica sem praticar exercícios, principalmente musculação.
Blanka continua cuidando da boa forma do dono. Agarrada ao pneu de estimação,
vira um halteres nas mãos de Alexandre. "Ela adora essa brincadeira",
afirma. Em vez de estimulá-la a participar de rinhas, briga ainda cultivada
por donos de cães de raças fortes, como pit bull e bull terrier, o jornalista
a fez conviver com crianças. Vem daí a segurança em mantê-la perto da
filha, Giulia, 3 meses. Deitada de barriga para cima, Blanka recebe o
bebê no colo e dá lambidas na nova integrante da família.
"Ele é carinhoso como eu"
Há três anos em São Paulo, o produtor carioca Wanderson Vieira tem uma
rotina agitada e estressante. O melhor calmante? Cachorros. Quatro deles:
Rocco, um mastim napolitano, Bruna e Bento, dois boxers, e Chico, um basset
hound. "Muitas vezes chego muito cansado em casa, mas basta vê-los sorrindo,
esperando para brincar, que esqueço qualquer preocupação", diz. Como ótimo
pai de família, o produtor sabe de cor a personalidade de cada cria. "Chico
é teimoso ao extremo, chorão e apaixonado por crianças e velhinhas", afirma.
"Rocco protege os demais, Bento gosta de uma bagunça e Bruna é a mais
inteligente." Wanderson se identifica principalmente com o jeito do mastim.
"Ele é estabanado como eu, carinhoso como eu e guardião e amigo como só
eles podem ser."
Guarda compartilhada
A publicitária Joanna de Melo Monteiro Soares, 30 anos, morava com o então
namorado num apartamento pequeno quando decidiu adotar a vira-lata Priscila,
abandonada num estacionamento de carros. Uma semana depois, a cadela deu
à luz a um único filhote, Jotinha, o que implicou a mudança dos quatro
para uma cobertura, ampla o suficiente para acomodar melhor toda a família.
Dois anos depois, porém, o casal se separou e surgiu o dilema: quem vai
ficar com os cachorros? "Decidimos que eu tomaria conta deles por estar
mais apegada aos animais e por ter mais estrutura", lembra Joanna. Júlio,
o ex-marido, topou o acordo desde que pudesse visitar os cães pelo menos
uma vez por semana. "Apesar da separação, nós nos chamamos de pai e mãe
na frente deles", diz a publicitária. "Meu novo namorado é o tio, para
quem o Jotinha ainda rosna de ciúme."
Claudia - DATA: 01/10/2001
EDIçãO: 481 -
PáG.: 210-215

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