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Esporte saindo do armário

Liberação de abate de espécie proibida cria euforia entre uma das últimas minorias enrustidas: os adeptos da caça esportiva

João Gabriel de Lima, de Mostardas, RS
Fotos Liane Neves

Turma de amigos diante do resultado de uma caçada de perdizes em Jaguarão (RS); num banhado em Mostardas (RS), patos de borracha servem de chamariz para marrecas e marrecões (acima); o caçador Marco de Castro posa em meio a seus mais de 100 troféus.

Com asas em forma de Concorde e uma velocidade de vôo que pode chegar a 100 quilômetros por hora, o marrecão é conhecido no Rio Grande do Sul como "o rei dos banhados". Acompanhemos uma dessas aves enquanto sobrevoa os pântanos em volta da Lagoa dos Patos. Ela vê um grupo de marrecões nadando, ouve os grasnidos e resolve se juntar aos de sua grei. Ao chegar perto, nota algo de estranho — eram, na verdade, patos de borracha. Arremete e, em plena subida, é alvejada por uma chuva de chumbo de espingarda calibre 12, disparada pelo mesmo caçador que soprava um apito grasnador. O marrecão (Netta peposaca) é a mais cobiçada ave de caça do sul do país. Seu abate, proibido desde 1997, foi liberado neste ano pelo Ibama, e o fato provocou alvoroço entre a comunidade gaúcha de caçadores — o Rio Grande do Sul é o único Estado do Brasil onde o esporte é regulamentado. Foram 1.400 pedidos de licença de caça, 40% a mais do que no ano passado. O economista Lúcio Paz, presidente da Federação Gaúcha de Caça e Tiro, aposta no marrecão para dar um novo fôlego a um esporte que tem cada vez menos adeptos. "Os caçadores brasileiros sempre foram um grupo enrustido", diz ele. "Agora chegou a hora de sair do armário."

A analogia com termos emprestados do movimento gay não é por acaso. Os caçadores brasileiros se consideram uma minoria discriminada. A entidade presidida por Paz já teve 8.000 sócios, e agora chega com dificuldade aos 2.500. Em geral são homens na faixa dos 45 anos que aprenderam a caçar com os pais mas não conseguem convencer os filhos a aderir ao esporte. "Somos nós que estamos em extinção, não os marrecões", brinca o comerciante Júlio Martins, adepto da caça amadora. Além de poucos, os caçadores se dizem vítimas de preconceito — afinal, praticam o mais politicamente incorreto dos esportes. Num tempo em que a proteção animal impera, eles matam bichos. Numa época em que o país embarca numa campanha de desarmamento, eles se divertem com rifles e espingardas. No Brasil, agrupam-se principalmente em torno de duas entidades: a já citada Federação Gaúcha de Caça e Tiro e o Safari Club do Brasil. Enquanto os sócios da FGCT são em geral de classe média, o Safari Club congrega os caçadores mais abastados, que têm dinheiro para percorrer o mundo em busca de troféus. A entidade tem cerca de 150 sócios.

Para "sair do armário" sem sofrer discriminação em tempos politicamente corretos, os caçadores do mundo inteiro fizeram aliança com ecologistas. Nos Estados Unidos, ONGs de conservação do meio ambiente ajudam o poder público na contagem dos animais e nas pesquisas de impacto ecológico, a partir das quais são concedidas as licenças de caça. O Rio Grande do Sul copiou esse modelo. Lá, o ideólogo da nova mentalidade é o caçador-ecologista Álvaro Mouawad, que, quando não está no banhado à espreita de marrecos, dirige uma ONG chamada Sociedade Brasileira para a Conservação da Fauna. "Nosso modelo é melhor que o da Argentina e o do Uruguai, onde os censos são feitos sem critério científico e a fiscalização é precária", critica Mouawad. Os caçadores gaúchos se queixam de que os países vizinhos promovem verdadeiras chacinas das aves. Segundo eles, os governos argentino e uruguaio fazem vista grossa à matança por causa das divisas trazidas pelo turismo de caça.

No Rio Grande do Sul praticamente não existe esse tipo de turismo. Lá, a caça é um fenômeno muito mais cultural do que econômico — é feita por gaúchos, para gaúchos e no estilo gaúcho. Grupos de caçadores afeitos aos patos arrendam banhados nos arredores de Porto Alegre, para onde vão todos os finais de semana durante a temporada, que vai de abril a outubro. Os que preferem as perdizes se organizam para abatê-las nas fazendas de amigos. Durante as caçadas, toma-se muito chimarrão e se bebe muito vinho. À noite, todos se reúnem para comer os animais abatidos e contar causos, alguns deles misóginos, pois a caça no Sul é um esporte eminentemente masculino. O sonho do presidente da FGCT, Lúcio Paz, é sair dessa fase artesanal para uma outra, mais profissional, com a instalação de fazendas de caça. Existem dúvidas sobre se esse tipo de negócio, que consiste em criar animais para o abate de caçadores, seria capaz de trazer turistas ao Brasil, como ocorre em outros países. "A não ser que o Ibama liberasse a caça à onça, que é um animal cobiçado pelos atiradores do mundo inteiro, não vejo por que alguém viria ao Brasil atrás de bichos que existem em melhores condições em outros lugares", avalia o engenheiro carioca Sidney Parker, uma das estrelas do Safari Club.

Há quem ache que liberar a caça a uma espécie é a melhor maneira de preservá-la e ao meio ambiente. "A caça propicia um uso econômico do ecossistema. O proprietário de uma terra em que haja animais terá o maior interesse em conservar a espécie e o seu entorno, pois ele obtém lucros explorando esse tipo de turismo", opina o consultor paulista Marco Antônio Moura de Castro, outro caçador do Safari Club, que se orgulha de ter em casa mais de 100 troféus. Obviamente as entidades protetoras de animais discordam cabalmente desse raciocínio. "Se o Brasil não consegue vigiar nem suas fronteiras, como iríamos fiscalizar caçadores dentro, por exemplo, da Floresta Amazônica?", indaga o advogado Marco Ciampi, presidente da Arca Brasil, uma das mais respeitadas entidades de proteção animal no país. Paralelamente às polêmicas, os caçadores, cada vez mais desenrustidos, tentam melhorar sua imagem junto à opinião pública. O Safari Club promove, por exemplo, convênios com associações de apoio a deficientes visuais e organiza excursões desse público a suas exposições de taxidermia. "É comovente observar cegos que nunca viram um bicho passando a mão em nossos animais empalhados", acha Sérgio Almeida, do Safari Club. "É uma prova de que a caça pode ter utilidade humanitária".

 

Revista Veja - Edição 1866 . 11 de agosto de 2004 - VEJA ONLINE



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