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Por Fernando Tadeu Santos para
Revista Tudo
Pit Bulls treinados para matar, tráfico de animais e maus-tratos são motivo de novas leis e campanhas para acabar com esse horror
O ringue de madeira avermelhada tem uma pichação (o endereço de um site www.pitbullcaesdebriga.hpg.com.br) e marcas antigas de sangue. Nesse espaço de 3 metros quadrados, localizado nos fundos de uma loja na periferia de São Paulo, acontece semanalmente um triste espetáculo de crueldade contra animais: a rinha de pit bull, em que dois cães de raça (fruto do cruzamento do buldogue inglês com game terriers), que valem R$ 500 em média, são postos para brigar até que um dos donos desista da luta ou um dos animais morra. Para atiçá-los, os preparadores usam outro animal (vivo) como isca, que pode ser um coelho ou uma galinha. "Isso é só um aquecimento, mano! Libera adrenalina e deixa os pits mais fortes", explica Paulo Xavier (nome trocado), dono do cachorro que venceria a rinha e que faturou R$ 7 mil numa única briga. Depois do macabro aquecimento, mais 15 minutos de agonia. Engalfinhados, os cachorros cravaram os dentes afiados no pescoço do outro e se morderam até que a pata de um cão atingiu o olho do outro, provocando um grave ferimento. A luta foi, então, encerrada. "Isso é um vale-tudo de cães", orgulha-se João da Silva (nome trocado), preparador de cachorros de briga, que também dá aulas de vale-tudo (para humanos) em academias de artes marciais. "Aqui vêm empresários e políticos. Rola uma grana preta", conta Xavier, para quem as rinhas quentes envolvem carros, jóias e imóveis. Perguntado se não tinha medo de ser preso, foi irônico: "No meu pedaço, a polícia não chia. De vez em quando, os federais pintam por aqui para fazer uma fezinha." Falante e simpático, ele é casado e diz gostar de animais. "Minha mulher reclama dos cães, mas eles são muito dóceis, só atacam dentro do ringue."
Treino de guerra
Quem não tem pit bull, mas lê os jornais, duvida
das palavras de Xavier. Todas as semanas são registrados casos
de pessoas, bichos de estimação e até cavalos
atacados por cachorros dessa raça. Eles são violentos
por natureza? Os veterinários garantem que não. O problema
dos pit bulls são os donos, que torturam os bichos para torná-los
ferozes e furiosos. Uma das técnicas cruéis usadas para
treiná-los para a rinha é prendê-los por vários
dias num buraco de 2 metros de profundidade por 1 de largura. "é
uma preparação de guerra", diz Silva. "Cão
é como soldado, tem de sofrer." No cubículo, o
treinador joga água gelada no pit bull, sangue de outros bichos,
dá choques elétricos e entrega animais para serem devorados
vivos. "Uso pneus velhos para simular o inimigo. Eles mordem
tanto que ficam com a mandíbula de pedra."
Os pit bulls, apesar de não serem simpáticos, merecem 100 anos de perdão diante de tanto sofrimento. A pergunta difícil de fazer e de responder é por que pessoas como Xavier são capazes de tamanha atrocidade? "Quem faz isso com um bicho quer compensar suas fraquezas", explica a psicóloga e veterinária Hannelore Fuchs, especialista em comportamento animal. "A pessoa que fere um animal pode matar uma pessoa." O FBI, departamento de investigação federal dos EUA, tem dados que confirmam essa tese. Cerca 80% dos assassinos americanos começaram torturando animais. A história de Russel Weston é exemplar. Em 1998, ele entrou no Congresso americano e atirou em três pessoas. Minutos antes, havia matado os gatos do pai. No Brasil, o caso mais famoso é o do maníaco do parque, Francisco de Assis Pereira. Antes matar mulheres em São Paulo ele tinha o hábito de abusar sexualmente de cadelas.
Leis só no papel
Apesar de existir uma lei que proíbe a venda, a importação
e a criação de cães ferozes no estado do Rio
de Janeiro, ninguém sabe explicar a demora para ela ser colocada
em prática e ser estendida a outros estados. A omissão
das autoridades em algumas cidades começa a custar caro. Em
menos de um mês, houve três tragédias,
no Rio. A pior foi em 23 de outubro. Provocou a morte de Rafael de
Oliveira Pinto, 10 anos. Um homem tentava matar um pit bull que atacou
um cavalo, mas acertou o olho direito do garoto. Em 4 de outubro,
Maria Eduarda Rodrigues, 11 anos, esperava a perua da escola na portaria
do prédio, quando foi atacada pela pit bull Kirra. Entre janeiro
de 2000 e julho deste ano, os serviços de saúde do Rio
atenderam 22.830 vítimas de ataques de cães. Quando
a lei de crimes ambientais, que engloba a proteção aos
animais, surgiu no país, em 1998, veio a esperança de
dar um basta no quadro de abandono e crueldade contra bichos. A partir
de então, maltratar qualqueranimal doméstico, como cão,
gato, cavalo ou galinha, deixou de ser contravenção
para se tornar crime, com pena de três meses a um ano de
prisão.
Na prática, no entanto, a lei é pouco cumprida. "Tem gente que mutila o cão e o gato no quintal de casa. Não é raro o abandono de cadelas prenhas e de galinhas com o bico cortado com objetos de aço, no campo", reclama a bióloga Sônia Fonseca, presidente do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, entidade que reúne hoje cerca de 100 ONGs no país. "A sociedade não tolera mais a violência contra os bichos e o tema hoje é discutido abertamente", completa o ambientalista Marco Ciampi, da Associação Arca Brasil.
Se existem leis, campanhas, denúncias e ONGs lutando pelos bichos, por que a crueldade persiste? "Falta mais ação e menos impunidade", diz o promotor de Justiça paulista Laerte Fernando Levai, autor do livro Direito dos animais: O Direito Deles e o Nosso Direito sobre Eles. Levai lamenta que as penas para maltrato a animais sejam brandas demais, geralmente convertidas em multas irrisórias. "Isso desmoraliza a boa intenção da lei", acrescenta. Para ele, a violência contra os bichos não é só problema legal. é moral.
Você conhece uma prática mais amoral do que o tráfico? Saiba que no Brasil, o tráfico pilha 12 milhões de animais por ano. Nesse caso, amorais andam de mãos dadas com cruéis. Para traficar para o exterior pássaros, macacos e cobras, os criminosos os submetem a condições terríveis. Os bichos viajam sedados, escondidos em canos de plástico, fundos de mala, e bagagens de mão. A maioria morre no meio do caminho. Vender animais silvestres é uma atividade lucrativa. No Brasil, as cifras representam quase 10% do mercado mundial. Segundo um relatório da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) esse negócio movimenta 1 bilhão de dólares ao ano. Em termos financeiros, só perde para o contrabando de armas e para o tráfico de drogas.
O relatório estima que existam no país de 300 a 400 grupos organizados, ligados também ao narcotráfico, especializados em capturar e distribuir animais. "A falta de policiamento em ecossistemas ricos como Pantanal e Amazônia é uma dádiva para traficantes", diz o geógrafo Marcos Freitas, do Grupo Ambientalista da Bahia. Falta fiscalizar, cumprir a lei e, principalmente, pressão das pessoas para acabar com isso. "Não podemos deixar de zunir e fazer pressão nos ouvidos desses gananciosos que faturam milhares de dólares à custa dos animais", conclama a cantora Rita Lee, que já protestou na frente do Consulado da Espanha para protestar contra as touradas. "Não vamos cruzar os braços, temos que continuar sendo os porta-vozes dos animais, que não podem se defender sozinhos."
O Mundo cão pelos olhos do repórter
"Não fazia idéia de quem eram as pessoas envolvidas
com esse mundo sujo ligado às rinhas de pit bull. Achava que
era apenas uma atividade ilegal patrocinada por meia dúzia
de imbecis. Ledo engano. Dele, não participam apenas traficantes
e filhinhos-de-papai, mas gente engravatada, que poderia combater
essa aberração. Fiquei impressionado com o que vi. Quando
parecia que o cachorro ia abocanhar o coelho, senti um misto de pânico
e indignação tão forte que deixei de lado a objetividade
da reportagem para clamar pela vida do coelho. Por causa do meu desespero,
ganhei o apelido de Lessie (alusão ao cachorro do seriado de
TV que ajudava pessoas e animais em perigo). Não tive dúvidas.
Aquilo era o símbolo da degradação da espécie
humana.
Já tinha um bom estoque de informações e entrevistas feitas com especialistas de cães antes dessa reportagem. Sabia que o pit bull era uma seleção genética de raças de cães que, para ser violento, dependeria muito do meio onde ele vive. Ou seja, se receber bons estímulos, dificilmente ataca. O lado sujo, hipócrita, covarde, criminoso e mais violento do ser humano mostra então a chaga de uma sociedade que precisa urgentemente mudar. Antes que seja tarde."
Sofrimento do bezerro
A carne de vitela é muito apreciada por ser tenra, clara e
macia. O que pouca gente sabe é que o alimento vem de muito
sofrimento do bezerro macho, que desde o primeiro dia de vida é
trancado num compartimento, sem espaço para se movimentar.
Assim, o animal não cria músculos e a carne se mantém
macia. Como não há uma lei específica que proíba
essa prática - como na Europa - o jeito é conscientizar
as pessoas sobre essa questão. "Nossa única arma
é a informação. Se a população
souber o que está comendo, o negócio muda", afirma
Marco Ciampi, da ArcaBrasil.
Tudo - 09/11/2001
Ed.: 41 - Pág.: 68-71
Entidades espalhadas pelo Brasil inteiro recebem denúncias de maus-tratos. Se você testemunhar algum caso, por favor, avise
Você pode e deve ajudar a combater a crueldade praticada contra os animais. é crime abusar, maltratar, ferir ou mutilar bichos de qualquer espécie. Não silencie quando souber de algum caso. Qualquer autoridade policial recebe queixas, mas você também pode encaminhar uma representação (relato por escrito do ocorrido) ao promotor de Justiça da sua região ou ao Centro de Controle e Zoonoses da sua cidade. Outra opção é procurar diretamente uma das entidades de defesa dos animais. Algumas aceitam denúncias também por e-mail. Veja as mais conhecidas:
IBAMA: 0800-618080
LIGA DE PREVENçãO à CRUELDADE CONTRA O ANIMAL
(LPCA): (31) 224-4735
POLíCIA FLORESTAL E MILITAR: 190
MINISTéRIO PúBLICO: (11) 3119-9524/ 3119-9536
(fax)
CENTRO DE CONTROLE E ZOONOSES: (11) 6221-9755
SãO PAULO
ASSOCIAçãO ARCA BRASIL (11) 3031-6991
Site: www.arcabrasil.org.br
E-mail: arcabrasil@arcabrasil.org.br
UNIDADE INTERNACIONAL PROTETORA DOS ANIMAIS (UIPA):
(11) 228-0178
FóRUM NACIONAL DE PROTEçãO DEFESA ANIMAL:
(11) 5572-2846
E-mail: franima@terra.com.br
RIO DE JANEIRO
DEFENSORES DOS ANIMAIS
(21) 2250-5143
E-mail: defens.animais@uol.com.br
SOCIEDADE EDUCACIONAL FALA BICHO:
(21) 2568-1708
Site: www.falabicho.org.br
E-mail: falabicho@infolink.com.br
SOCIEDADE MUNDIAL DE PROTEçãO ANIMAL - WSPA
Site: www.wspa.org
E-mail: wspabrzz@iis.com.br
MINAS GERAIS
LIGA DE PREVENçãO DA CRUELDADE CONTRA O ANIMAL
(lpca)
(31) 3224-4735
E-mail: sosanimal@ieg.com.br
BAHIA
ASSOCIAçãO BRASILEIRA PROTETORA DOS ANIMAIS
(71) 264-4909
PARANá
ASSOCIAçãO PROTETORA DOS ANIMAIS DE CURITIBA
(41) 256-8211
RIO GRANDE DO SUL
UNIãO DE DEFESA DA VIDA ANIMAL
(51) 3315-4715
Site: www.udeva.org.br
E-mail: udeva@udeva.org.br
GRUPO DE APOIO AO BEM ESTAR ANIMAL (GABEA)
(51) 3332-9369
Site: www.gabea.com.br
Tudo - 09/11/2001
Ed.: 41 Pág.: 74
Você gosta de animais de estimação? Procura boa companhia para as crianças dentro de casa? Então, escolha o bicho da sua preferência e prepare-se para descobrir o fantástico mundo dos animais. Só que, para um bom convívio com as pessoas, eles exigem cuidados especiais. Manter o bicho limpo e saudável é o primeiro passo. Boa alimentação, vacinas e visitas periódicas ao veterinário têm de fazer parte da agenda do dono. "Não basta pôr o animal dentro de casa e largá-lo de qualquer jeito", diz o ambientalista Marco Ciampi, da Associação Arca Brasil - organização não-governamental que defende o bem-estar dos animais. "Cuidar de bichos dá trabalho, mas a recompensa é bem maior."
Conheça os dez mandamentos da posse responsável de animais
Tudo - 14/09/2001 -
Ed.: 33 - Pág.: 53

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