Animais são a cura do século XXI
Entrevista com Dennis Turner, presidente da IAHAIO - Associação
Internacional das Organizações para a Interação
Homem-Animal Professor de veterinária da Universidade
de Zurique, Dennis Turner defende que a companhia de cães e gatos
é essencial para a qualidade de vida do homem.
Aos
53 anos, o americano Dennis C. Turner tem uma missão quase
impossível. Em um mundo em que 2 bilhões de pessoas são
classificadas pelo Banco Mundial como miseráveis, o cientista
comportamental doutorado pela Escola de Higiene e Saúde Pública
da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos, professor
da faculdade de Veterinária de Zurique, na Suí ça,
e diretor do Instituto de Etologia Aplicada e Psicologia Animal (IEAP),
fundação privada de pesquisa e educação,
tenta convencer desde ministros da Saúde de países do Primeiro
Mundo até líderes de pequenas comunidades na áfrica do Sul
a investir em programas de Terapia Assistida por Animais (AAT). "A
companhia de animais beneficia não apenas deficientes ou portadores
de doenças graves, mas também o cidadão comum
seja qual for a sua renda familiar", diz Turner. Não só
faz bem para a saúde do indivíduo, mas para a saúde
pública também. "A Terapia Assistida por Animais
representa uma tremenda economia para a saúde pública
e obtém sucesso até nos casos em que métodos
tradicionais de tratamento falharam."
A cada três anos, como presidente da Associação
Internacional das Organizações de Interação
Homem-Animal (IAHAIO), ele organiza conferências em várias
capitais, que reúnem PhDs do mundo inteiro para divulgar resultados
de estudos e experiências em que animais atuam como terapeutas
para crianças, delinqüentes juvenis, idosos, mulheres com câncer
de mama, deficientes e até casais em crise. Depois de passar
por Praga, Genebra e outras cidades da Europa e América do
Norte, a 9ª Conferência Internacional sobre Interações
Homem-Animal será sediada no Rio de Janeiro.
- De que maneira conhecer o comportamento animal ajuda a melhorar
a qualidade de vida das pessoas?
- Conhecer as necessidades físicas e psicológicas de cães
e gatos nos permite entendê-los e tratá-los melhor.
Somente animais saudáveis e felizes podem ser boas companhias
para o homem e contribuir para nossa qualidade de vida. é particularmente
importante salvaguardar o bem-estar do animal engajado nos programas
de terapia assistida (AAT), para beneficiar grupos específicos de
pessoas com vários males ou problemas. Precisamos, por exemplo,
reconhecer os sinais de estresse ou agitação - bastante
diferentes em cães, gatos e outros animais de companhia -
para não fazer o animal "trabalhar" demais nem
colocar em risco o paciente.
- O senhor defende que os animais domésticos trazem benefícios
para a saúde e qualidade de vida do homem. Que tipo de benefícios
e como isso é possível?
- De várias maneiras. Vamos tomar como exemplo um cidadão
comum, quer dizer, alguém que não sofra de uma doença
ou deficiência e precise de terapia. Apenas a presença
do animal de estimação pode reduzir a pressão
sangüínea, o que é uma das justificativas para o alto índice
de sobrevivência de donos de animais um ano depois de
terem sido vítimas de ataque cardíaco. A outra explicação
é óbvia e vale para todos os donos responsáveis
de cães interessados em prevenir doenças cardíacas:
mais exercício diário por conta das caminhadas com o animal
pela vizinhança. Donos de animais de estimação
geralmente têm baixo nível de colesterol, um dos fatores
que pode levar a um ataque do coração. Um estudo publicado
pelo British Journal da Royal Society of Medicine indica que, ao
adquirir um cão ou gato, o dono reclama com menos freqüência
de pequenos problemas de saúde e desfruta de melhor qualidade
de vida do que pessoas sem animais de estimação. Este
efeito dura, no mínimo, 10 meses depois da aquisição
- que foi a duração da pesquisa - para os donos de
cachorros. Logo, não estamos falando de um "efeito novidade"
que vale apenas para um breve período de tempo depois da aquisição
do animal. Pesquisas médicas de larga escala na Austrália
concluíram que donos de animais de estimação se consultam
com menor freqüência com clínicos gerais e requerem menos
medicação do que as pessoas sem animal de estimação.
O estudo que apresentarei na 9ª Conferência mostra que
o dono de gato - e o de cachorro com menos intensidade - estão
menos sujeitos a gastar dinheiro com saúde do que os 'sem-animal'.
Já publiquei estudos que tratam de como o gato pode reduzir
sentimentos de depressão, solidão e ansiedade - sentimentos
que todos nós temos mais cedo ou mais tarde sem estar clinicamente
doente. Animais de companhia também se mostraram bastante
prestativos para crianças tanto em casa quanto na escola.
Eles aumentam a auto-estima da criança, melhoram sua integração
na sala de aula, incentivam o contato social com outras crianças
e aumentam sua vontade de aprender. é por isso que vamos aprovar
na conferência no Rio a Declaração da IAHAIO
sobre Pets na Escola. E não podemos nos esquecer da parcela
da população industrializada que mais cresce: os idosos.
Muitos estudos têm demonstrado a importância e os
benefícios do animal de companhia na terceira idade. Quanto aos
grupos de pessoas com necessidades especiais que podem receber terapia
assistida por animal ou participar de atividade assistida por animal
(AAA), temos estudos que comprovam a utilidade - e, na maioria dos
casos, o sucesso - do animal como co-terapeuta: doentes psíquicos
que não se comunicam, crianças hiperativas ou agressivas,
portadores da síndrome de Down, pacientes de Alzheimer, pacientes
com problemas neurológicos e deficientes físicos.
- Então, se alguém quiser baixar seu nível de colesterol,
a única coisa que tem a fazer é ir a uma loja, comprar
um cachorro e alimentá-lo todos os dias?
- Não é simples assim. Nem estamos sugerindo que a
companhia - e a terapia - de animais são a solução
para todos os problemas. Ter cachorro, gato, passarinhos ou um aquário
em casa, na sala de espera de uma clínica ou no hospital não
vai produzir os efeitos benéficos desejados - à exceção
de reduzir a pressão sangüínea de quem observa os animais,
incluindo o peixe nadando no aquário. Por meio de pesquisas
como a que apresentaremos no Rio começamos a entender como
e por que essas relações acontecem. As teorias que
atraem mais a atenção são de biofilia, ligação
afetiva e apoio social. Antes de qualquer benefício tangível, uma
relação social verdadeira - prefiro usar parceria,
no caso de um animal de estimação e seu dono - deve
se desenvolver. As relações normalmente começam
com a observação do parceiro e depois a interação
com ele em diferentes contextos. Quanto mais se aprende sobre o
parceiro durante essas interações, melhor se pode
atender às vontades e necessidades e maior a afeição
e o respeito.
- Até que ponto uma relação homem-animal
pode ser considerada saudável para ambos?
- Não há um padrão e as relações
dependem mais da pessoa do que do animal. Podem ser intensas - o
dono faz tudo para e pelo animal - ou quase inexistentes - o dono
se limita a alimentá-lo. Muitos proprietários de animais
de países industrializados consideram os animais de estimação
parte da família e os tratam como tal. Seja como for, relações
saudáveis respeitam a dignidade do animal. Uma relação
se torna anormal e até patológica quando, por exemplo,
há relações sexuais com o animal ou quando
se comete qualquer outro tipo de crueldade (algumas das palestras
vão tratar destes tópicos). Pessoalmente, considero
errado apenas alimentar o animal e deixá-lo na rua durante
o dia ou à noite. Nem o dono nem o animal se beneficiam desta relação.
- O cachorro pode substituir o psiquiatra ou o anti-depressivo?
- Minhas pesquisas com donos de gatos demonstram que os animais
podem ajudar a tirar uma pessoa de ondas de depressão ou
outros humores negativos. Vamos agora estender estas pesquisas a
pacientes com depressão diagnosticada clinicamente. Mas eu
diria que, se selecionados corretamente - no caso de cachorro, treinados
- animais podem atuar como co-terapeutas sob a supervisão
da equipe médica. Eles não podem nem devem substituir
o psiquiatra, o psicoterapeuta, o clínico geral, o terapeuta ocupacional,
mas complementar o trabalho destes profissionais oferecendo um método
terapêutico adicional. E, se no decorrer da terapia, a
dose de medicamento for reduzida, tanto melhor.
- O senhor pode dar exemplos bem-sucedidos de terapia assistida
por animais?
- Existe agora um número de livros no mercado que oferecem
muitos exemplos. Lembro-me do caso de um senhor afásico em
um asilo. Ele não havia pronunciado uma palavra por anos
até que o lugar adotou a AAT. Primeiro ele falou com os animais
- com um gato, em especial - depois com os enfermeiros e finalmente
com os outros idosos. Também me recordo da primeira vez em
que dei consultoria para um asilo. Selecionei dois gatinhos para
morar com os idosos. Sempre via os gatos na cama de uma senhora
que estava no estágio final de câncer. Passados alguns
meses da sua morte, recebi uma carta da filha me agradecendo por
"ter feito valer a pena os últimos meses de vida da
mãe, tornando-os mais suportáveis".
- Como os médicos vêem a AAT?
- Médicos que atuam em consultório particulares são
mais receptivos ao uso de animais como co-terapeutas do que os hospitais
e as clínicas. Eles sabem da importância dos animais por intermédio
de conversas com seus pacientes. A administração de
hospitais e clínicas resiste a tais programas argumentado questões
de higiene e barulho. Uma vez informadas de que os animais estão
sob supervisão de um veterinário e são bem
treinados, instituições permitem a entrada de AAA/AAT
para um período de experiência. A partir daí ,
eles testemunham os efeitos da companhia dos animais não
apenas em seus pacientes, mas na equipe e acabam aprovando a continuação
do programa. Infelizmente não há estatísticas disponíveis
sobre o número de clínicas, hospitais, asilos que dispõe
de AAA e AAT. Mas sabemos que de 20 a 30% dos psiquiatras e psicoterapeutas
envolvem animais nas suas práticas.
- O primeiro curso de pós-graduação vai
ser ministrado em uma universidade no Japão. A terapia assistida
por animais já é considerada um novo ramo da ciência?
- O interesse pelos efeitos benéficos do animal de companhia
começou na década de 60, nos Estados Unidos, depois
que Boris Levinson e Sam e Elisabeth Corson publicaram observações
iniciais em pacientes de um hospital psiquiátrico que recebia
visitas de cachorros. A pesquisa na área também começou
nos Estados Unidos, mas se espalhou rapidamente no Reino Unido e
na Europa continental nos anos 80. Delta Society, nos Estados Unidos,
e Sociedade para Estudos de Animais de Companhia (SCAS), na Inglaterra,
foram as principais organizações. Delta é reconhecida
pelo programa Pet Partners, que treina voluntários, donos
de cachorros, para programas de visita a instituições
e agora se dedica também a treinar os "animais de serviço".
Na Europa, minha instituição, IEAP, foi a primeira
a oferecer programas de educação contínua para profissionais
(AAT) e voluntários (AAA). AAT vai ser ofertado como curso
de pós-graduação a partir de abril na Universidade
de Azabu, perto de Tóquio. Universidades nos Estados Unidos
começam a oferecer cursos específicos para terapeutas ocupacionais,
por exemplo. Publicações das comunidades científicas
e médicas trazem estudos sobre o tema. A mais importante
revista da área é Anthrozoös. Conselhos de pesquisa
e institutos de saúde de vários países começam
a financiar pesquisas sobre o tema. O campo está estabelecido,
mas há muito para que se fazer e descobrir neste século.
- De acordo com o Banco Mundial, 38,4% dos brasileiros são
pobres. Com tanto investimento para fazer na área social,
não parece luxo para o governo se preocupar com a questão
animal?
- IAHAIO nunca sugeriu que o governo deveria investir dinheiro em
AAT; no máximo, que deveria apoiar pesquisas na área,
mas especialmente que deveria abrir portas de várias instituições
públicas e privadas para AAT e AAA alterando a regulamentação
para permitir a entrada dos programas se estes forem operados profissionalmente.
Implementar programas de AAT e AAA envolve custos para treinar pessoas
e selecionar e treinar animais. Muitos programas são coordenados
por fundações, portanto isentos de impostos, com doações
da indústria privada e com indivíduos para treinar voluntários
e seus animais de estimação, especialmente cachorros.
Mas é impossível colocar uma etiqueta com preço em
um programa sem saber quais os objetivos principais e o modus operandi.
- Qual a população de cães e gatos errantes
no mundo? Que perigo eles representam para a sociedade?
- Desconheço o número total, mas é alto especialmente
nos países desenvolvidos. No Brasil, há um cachorro para
cada sete humanos e 10% deste total é de animais abandonados.
Não há estimativas para gatos. Animais abandonados
representam um grande problema para governo e sociedade pois podem
ser portadores de doenças, barulhentos e fonte de poluição.
E o bem-estar destes animais também é comprometido.
Por isso organizações de bem-estar animal como Sociedade
Internacional para Proteção Animal (WSPA), em Londres,
Sociedade Internacional Humanitária (HSI), em Washington,
e Arca Brasil, entidade membro da IAHAIO, em São Paulo, se
dedicam a resolver estes problemas promovendo a posse responsável,
informado o público sobre a importância dos animais
para nossa saúde e qualidade de vida e ensinado às crianças
sobre comportamento e cuidados apropriados dos animais. A Organização
Mundial da Saúde (OMS), WSPA, Arca e IAHAIO vão promover
o programa de treinamento "Zoonoses e Interações
Homem-Animal" em São Paulo depois da conferência
no Rio, o que indica que estamos todos empenhados em resolver o
problema e cães e gatos abandonados.
- Qual o papel dos animais em nossa vida? Podemos dizer que eles
são a cura do século 21?
- Cresci com cachorros e, por conta das minhas inúmeras viagens
pelo mundo, tenho apenas dois gatos que são um grande conforto
para mim quando estou em casa - são como uma família. O animal
de companhia não é "a" cura para todos os
problemas, mas eles certamente terão um papel cada vez mais
significativo em nossas vidas.
-
- Interação
Homem-Animal