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Galogate - 20 de janeiro de 2005

Atração mórbida

Por Antônio Rayol, delegado da Polícia Federal
que mandou prender Duda Mendonça
Texto publicado no jornal O Globo - 15 de Janeiro

 

As rinhas de galos e combates de outros animais, como canários e cães (principalmente os da raça pitbull) nada mais são do que pretexto para jogo a dinheiro, propósito nada nobre, já que há apostas nas lutas. Nas rinhas de galos freqüentadas por pessoas como o marqueteiro Duda Mendonça - preso em 21/10/2004 em uma delas no Rio de Janeiro - cada rodada de apostas chegava a alcançar a cifra de R$ 50.000 (cinqüenta mil reais).

As rinhas e outros tipos de combates constituem prática de crueldade contra animais, o que é vedado pela Constituição federal (art. 225 §1 inciso VII) e está tipificado como crime no artigo 32 da lei 9.605/98, a Lei dos Crimes Ambientais.

Os rinheiros têm argumentos interessantes mas falaciosos. Afirmam que as rinhas de galos são uma prática cultural milenar, tal e qual a escravidão humana, o que não a torna menos abominável e a salvo de repressão por nações que se pretendam adjetivar como civilizadas.

Alegam que é melhor um galo morrer em combate em uma arena do que ser abatido para consumo, o que é uma comparação absurda. Os adeptos das rinhas de galos se dizem "preservacionistas". Afirmam que as raças de galos "combatentes" não existiriam se não fossem as rinhas. As raças dos "combatentes" nada mais são do que resultado da manipulação genética. Somente os galos mais agressivos são aproveitados para reprodução. Os "apaixonados" também defendem a tese de que o combate entre galos é um fenômeno da Natureza, que eles apenas organizam e apreciam - meia verdade, ou meia mentira, o que no final das contas é a mesma coisa.

Nas rinhas de galos promovidas e organizadas pelos "preservacionistas", os galos são colocados em uma pequena arena e, mesmo assim, quando os animais se desinteressam pela luta (o que ocorre com certa freqüência), os rinheiros tratam de atiçá-los para o combate. Os galos são "equipados" com biqueiras e esporões artificiais feitos de acrílico ou aço, o que torna as lutas mais "emocionantes", com muito sangue e sofrimento.

Não é normal a atração mórbida por espetáculos de sangue e qualquer ser humano médio diante de um confronto dessa natureza tem o impulso de interrompê-lo, por se tratar de visão desagradável.

Em estudos sobre serial killers (assassinos em série) promovidos pelo FBI - a polícia federal americana - ficou estabelecido o padrão de que tais indivíduos foram objeto de violência na infância, ao mesmo tempo em que exerceram a mesma violência sobre animais, que eram então as criaturas que estavam ao seu alcance. Quando adultos, dirigiram o impulso violento contra outras pessoas.

É claro que isso não quer dizer que todo aquele que em cuja infância exerceu violência contra animais seja um serial killer em potencial, mas apenas e tão-somente que todos os serial killers catalogados e estudados pelo FBI o fizeram.

Há algo de muito errado e doente em uma sociedade que admite que espetáculos de sangue sejam aceitos como um traço cultural- na verdade um negócio - em que se aposta e se ganha dinheiro. Felizmente, não parece ser o caso do Brasil onde episódios recentes fizeram com que milhares de pessoas, através dos meios de comunicação, manifestassem seu repúdio.

 

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