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Fim da farra de Barretos

Durante todo o mês de agosto, a Festa de Peão de Barretos permaneceu em evidência: alavancada por uma campanha publicitária milionária e pela novela global “América”, que nasceu com a missão de ressuscitar a moda country, o evento atraiu milhares de espectadores durante três finais de semana consecutivos.

Os números podem dar a impressão de que os brasileiros se renderam por completo ao rodeio. Porém, uma análise um pouco mais cuidadosa sugere que essa febre pode ser temporária.

Para começar, vamos refletir sobre a trajetória de “América”. Em 2003, a autora Glória Perez começou a trabalhar a sinopse de um folhetim que giraria em torno do mundo dos cowboys brasileiros. O projeto fora encomendado pela Globo, que investira alguns milhões nos direitos de transmissão do rodeio de Barretos e tinha pretensões de lançar um canal de tevê a cabo focado exclusivamente no universo country. A novela estreou em 2005 e sofreu uma queda brutal de audiência logo após os primeiros capítulos. Para que a trama emplacasse e caísse no gosto popular, Glória teve de apelar: aumentou ainda mais as cenas sensuais e fortaleceu as personagens secundárias. Pode-se dizer que “América” literalmente se despiu do chapéu e das botas com esporas para conquistar o público.

Outro exercício interessante é tentar avaliar o que faz milhares de pessoas correrem para os rodeios. Será que elas estão lá porque não perdem a chance de ver um touro corcovear ou um novilho ser arrastado pelo chão? Nada disso! Basta acompanhar as comunidades de amantes de rodeios no Orkut ou visitar seus blogs para descobrir que quem paga o alto valor de um ingresso, geralmente, está à procura de paquera, de diversão nos shows e de seus cantores favoritos (este ano, teve até rock e música eletrônica, o que demonstra essa preocupação em seduzir todas as tribos) ou de uma simples curtição com os amigos.

Infelizmente, o que poderia ser apenas um lazer inocente converte-se em apoio para a crueldade e a exploração de animais. Ao afluírem para as festas de peão, as pessoas contribuem para legitimá-las, bem como a tudo que elas representam: seus bastidores de tortura, suas provas cruéis, seus abusos.

Nova lei traz esperanças

O mais recente passo em direção ao fim dos rodeios foi dado na última sexta-feira, dia 26, quando foi publicado no “Diário Oficial” do Estado de São Paulo o novo código de proteção aos animais, projeto do deputado Ricardo Trípoli (PSDB). De acordo com a determinação, “são vedadas provas de rodeio e espetáculos similares que envolvam o uso de instrumentos que visem induzir o animal à realização de atividades que não se produziria naturalmente sem o emprego de artifícios”.

É necessário que a lei seja regulamentada num prazo de 180 dias, pelo governador Geraldo Alckmim (PSDB-SP), para que possa entrar em vigor depois de 45 da sua publicação. Ficaremos na torcida!

Os defensores dos rodeios argumentam que a prática não resistiria tanto tempo se realmente houvesse crueldade. Entretanto, há pouco tempo, por conta de dissidências internas dentro da própria organização dos rodeios, a prova do laço, considerada uma das mais cruéis, foi banida. Rretornou recentemente, devido à mobilização de empresários do ramo. Laudos elaborados por profissionais da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, comprovam que os animais são vítimas de

estresse e danos físicos durante o evento. A Human Society, maior entidade de proteção aos animais do mundo, com sede nos Estados Unidos, condena o uso do sedém (tira do couro que é amarrada na virilha do boi) e denuncia outros abusos. Será que as produções primorosas da telenovela e das festas permitiriam que o público enxergasse tamanhas atrocidades?

Acreditamos que o encerramento da festa, que aconteceu no último domingo, e o último capítulo de “América” represente o fim dessa moda cruel. O movimento de proteção e bem-estar animal está engajado na disseminação de informações e temos certeza de que cada vez mais pessoas se tornem conscientes de que não há nenhuma justificativa para se prestigiar “diversões” dessa natureza.



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