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Tingo - Dezembro de 2006

 

Tingo: o coração canino da ARCA Brasil
por Silvia Lakatos (*)

No site de relacionamentos Orkut, ele tem mais de 700 amigos. Na Vila Madalena, é figurinha carimbada: as pessoas o conhecem pelo nome e param para lhe fazer agrados e cafunés. Amado, popular e extremamente charmoso, Tingo cumpre com mérito a função de “embaixador dos vira-latas”, a ele atribuída em 1998, ano em que foi resgatado, todo sujo, doente e com sarna, numa rua de Embu das Artes (Grande SP).

A adoção de Tingo pelo presidente da ARCA Brasil, Marco Ciampi, foi um gesto simbólico de grande importância. Na medida em que Tingo recuperou a beleza, a saúde e a vitalidade, converteu-se em exemplo real do que é possível – e necessário – fazer pelos animais de rua deste país: dar-lhes a oportunidade de iniciar uma nova vida ao lado de alguém que os ame, zele por sua saúde e os trate com o carinho e a dignidade que merecem. Em oito anos de ARCA Brasil, Tingo foi capa de revista, participou de reportagens em diversos canais da mídia e ilustrou calendários, cartões e materiais promocionais da entidade, ajudando a levar para um grande número de pessoas a mensagem de respeito aos animais.

Infelizmente, porém, o sofrimento que Tingo enfrentou nos dias de abandono vem manifestando suas conseqüências. Com idade estimada em 14 anos, este bom companheiro está cada vez menos dinâmico e disposto. Em 2005, ele precisou ser submetido a uma cirurgia para a retirada do baço, devido às seqüelas de uma doença provocada por carrapatos. Agora, ele se recupera de uma pancreatite – num lapso de descuido, Tingo, que só come ração de boa qualidade, revirou o lixo e comeu alguma coisa proibida. A traquinagem resultou em 7 dias de internação em UTI, e desde que voltou para o “lar” – definição que engloba o apartamento de Ciampi e o escritório da ARCA –, Tingo usa uma sonda para a drenagem da urina, não consegue andar direito e necessita de ajuda para comer.

Os colegas da ARCA Brasil, habituados a conviver com Tingo no dia-a-dia, sentem falta de ver o velho amigão pulando para ganhar ossinhos, ou indo de mesa em mesa pedir carinho. Nesta arte, ele é peculiar: chega de mansinho e repousa delicadamente a cabeça nos joelhos das pessoas, à espera de um chamego. É tão estranho não escutar seus passinhos discretos pelo escritório ou o barulho de sua língua na vasilha d´água...

A história de Tingo nos leva a muitas reflexões. O que pode ter estimulado um cão saudável e bem alimentado a comer porcarias do lixo? Lembranças da fome que o atormentou no passado? Talvez. É um pouco frustrante constatar que, tantos anos depois de Tingo ter sido tirado das ruas, ainda não tenha sido possível “tirar a rua de dentro dele”.

Outro traço que distingue Tingo de outros animais é seu ar grave, quase triste. Mesmo quando abana o rabo para recepcionar os amigos, ele parece conservar uma certa seriedade, como se sua alegria nunca fosse plena. E é incrível como fica ansioso para retornar logo a um “lugar seguro”, todas as vezes em que sai para passear. Parece que ele continua temendo ser abandonado...

E, por falar em abandono, não podemos deixar de registrar um profundo desgosto com a maneira com que muitas pessoas ainda lidam com seus companheiros animais. Na UTI em que Tingo permaneceu internado, havia também outros cães, quase todos vitimados pela falta de responsabilidade de seus donos. Um, obeso, enfrentava problemas drásticos de saúde em decorrência de uma alimentação totalmente nociva, baseada em gorduras e guloseimas. Outro sofrera uma queda, que poderia ter sido evitada com medidas simples de segurança.

O pior é saber que muitas pessoas optam pela eutanásia de seus animais mesmo quando existe uma chance real de recuperação, simplesmente porque não querem continuar pagando por um tratamento muito demorado. Em casos de doença irreversível, a eutanásia é válida. Mas como alguém pode pensar em matar um bom amigo simplesmente porque tentar salvá-lo pode custar caro?

Tingo tem sido um grande professor para as pessoas que com ele compartilham a vida. Agüenta calado o sofrimento, luta corajosamente para enfrentar a morte, nunca se entrega nem esmorece. Esperamos que, no fundo de seu coração canino, ele saiba que contribuiu para tornar o mundo melhor, tanto para as pessoas que com ele convivem quanto para os animais que ajudou e ainda ajuda indiretamente.

Desde sua fundação, a ARCA Brasil sempre se pautou pela ética, pela seriedade e pelo compromisso de promover ações amplas e efetivas em prol do bem-estar dos animais, contemplando o desenvolvimento de políticas públicas e a realização de campanhas de conscientização da sociedade e de sensibilização dos profissionais e das empresas do setor veterinário. Tudo o que compartilhamos com Tingo nestes oito anos nos deu a certeza de que precisamos fazer ainda mais pelos animais. Afinal, não temos a menor dúvida de que eles merecem o nosso empenho, o nosso amor e a nossa dedicação.

 

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(*) Silvia Lakatos é jornalista, colaboradora da ARCA Brasil e ativista pela causa dos animais.

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