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Farra do Boi - Abril de 2007
A
farra continua...
Em
entrevista exclusiva, o ativista Halem Guerra pede paz para os animais
do litoral de Santa Catarina
A farra do boi continua causando polêmica e mobilizando as entidades de proteção animal no Brasil e no exterior. Embora a prática ocorra o ano inteiro, é na Quaresma que ela se intensifica. Algumas cidades do sul do país ainda vêem a farra como uma “tradição”, apesar de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter proibido a prática em território catarinense por meio do Acórdão 153.531-8, de 1997, com punição prevista pela Lei 9605/98 de Crimes Ambientais.
Esta decisão vem sendo sistematicamente desrespeitada. Mesmo quando se empenha, a polícia tem dificuldade em coibir a prática, especialmente porque alguns políticos a apóiam, desmerecendo qualquer tentativa do poder público de fazer cumprir a lei.
Em março deste ano, a cidade catarinense de Governador Celso Ramos, um dos maiores redutos da farra, submeteu um projeto de lei que visa regulamentar a farra do boi à aprovação da Câmara de Vereadores. A prefeitura chamou o projeto de "iniciativa popular", no entanto, os jornais da região divulgaram que agentes de saúde pública estariam sendo obrigados a colher assinaturas entre os eleitores do município para que a lei pudesse ser discutida e aprovada na Câmara. Foram reunidas 1,5 mil assinaturas, e o projeto foi aprovado pelos vereadores.
Antes mesmo da aprovação da lei na Câmara, entidades como a Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, na sigla em inglês) vinham se manifestando contra o projeto, que pretende mudar o nome da prática para “brincadeira do boi”.
Para esclarecer melhor o que está acontecendo em Santa Catarina e propor eventos que possam substituir a farra, a ARCA Brasil entrevistou o presidente do Instituto Ambiental Ecosul, Halem Guerra Nery, que tem acompanhado a questão da farra há 25 anos.
ARCA Brasil - O projeto de lei da "brincadeira do boi"
foi aprovado pelos vereadores de Governador Celso Ramos. Quais os
trâmites pelos quais a lei está passando agora? Ela poderá
entrar em vigor na Páscoa desse ano?
Halem Guerra Nery - Só falta a sanção
do prefeito, o que é óbvio que vai ocorrer, pois a iniciativa
[de promover o projeto] foi dele. Não há possibilidade
da lei vigorar nesta Páscoa, nas demais vindouras ou em nenhum
outro momento, pois já estamos a postos com uma petição
ao Ministério Público acompanhada de um abaixo-assinado
de aproximadamente 9 mil assinaturas colhidas em todo o país
contra a farra do boi. Em torno de 30% destas assinaturas foram obtidas
e nos repassadas pela ARCA Brasil. O próprio Ministério
Público e o Judiciário já se manifestaram pela
inconstitucionalidade da lei e o Secretário de Segurança
Pública de Santa Catarina declarou recentemente que com ou
sem lei municipal, a farra vai continuar sendo reprimida de acordo
com a lei de Crimes Ambientais.
ARCA - Qual é sua opinião pessoal sobre a proposta da "brincadeira do boi" feita na cidade de Governador Celso Ramos?
Halem - É mais uma tentativa vã de
institucionalizar a barbárie e a violência sob o pomposo
jargão de tradição cultural e camuflada com o
nome de "brincadeira do boi". Em 2000, a Assembléia
Legislativa de Santa Catarina aprovou e publicou no Diário
Oficial duas leis liberando a farra do boi e a rinha de galo no estado,
que foram jogadas na lixeira da história pelo Supremo Tribunal
Federal por inconstitucionais. Esta lei aprovada no município
de Governador Celso Ramos terá o mesmo destino.
ARCA - Já foi criado algum projeto
de lei levando em consideração os requisitos dos protetores
para a regulamentação da farra do boi?
Halem - Não, até porque entendo que
não é função da proteção
animal propor ou concordar com requisitos ou regras para a realização
de espetáculos que utilizem animais. Devemos nos manter contrários
e lutar pelo fim do uso de animais em espetáculos para divertimento.
ARCA - Você, Halem, ou alguma entidade
de seu conhecimento, já propôs outros eventos que pudessem
ser alternativas à farra do boi? Ou seja, eventos que pudessem
satisfazer a população, substituindo a farra? Quais
e como seriam esses eventos?
Halem - Sim, desde 1987, quando participei como representante
da ACAPRA (Associação Catarinense de Proteção
aos Animais) de um grupo de trabalho criado pelo então governador
[Pedro Ivo Campos] para estudar e propor soluções para
a cruel prática, sugerimos a realização de eventos
esportivos saudáveis no litoral, principalmente nesta época
de crescimento da prática da farra, tais como jogos abertos
do litoral, torneios de futebol inter-municipais, valorização
das verdadeiras tradições açorianas em que não
haja sofrimento e dor para nenhum ser vivo, nem crueldade e desrespeito
à legislação. Na época, também
levamos a proposta de realização sistemática
de palestras sobre proteção ao meio ambiente e formação
de valores e respeito a todas as formas de vida nas escolas de ensino
fundamental. Se, em 1987, o governo do estado tivesse iniciado um
trabalho neste sentido, em conjunto com os ambientalistas e ativistas
pelos direitos dos animais, certamente hoje teríamos menos
uma ou duas gerações de farristas.
ARCA – Na sua opinião, por que essas propostas
não foram implantadas?
Halem - Por absoluto desinteresse e falta de vontade
política, tendo em vista que a maior parte do trabalho iria
ser realizado em nível de voluntariado pelos próprios
ativistas, inclusive com recursos captados juntos à outras
ONGs e iniciativa privada.
ARCA - Existem práticas culturais açorianas
que não incluam sofrimento animal e possam substituir a farra
do boi? Se sim, o que impede sua implementação?
Halem - Sim, o Boi de Mamão, a Renda de Bilro,
o Terno de Reis, a Ratoeira, o Pão por Deus e outras. Estas
estão praticamente extintas e é enigmático para
nós que somente a farra do boi resista a tudo e todos. Mas
talvez a justificativa mais concreta seja a manipulação
política destas comunidades mantidas no obscurantismo e condicionadas
a se contentar em correr atrás de bois. O boi é bem
mais barato e rentável politicamente e estas comunidades são
mantidas em verdadeiros mangueirões eleitorais pelas lideranças
políticas regionais.
ARCA - Como você se sente ao ver que
a lei do STF não é cumprida, ao mesmo tempo em que uma
cidade tenta criar uma nova lei, desrespeitando a mais alta corte
do país?
Halem - No Brasil as leis são tratadas desta
forma e os principais delinqüentes e praticantes da desobediência
civil são exatamente homens públicos que deveriam zelar
por seu cumprimento. Mas isto de forma alguma nos intimida, desanima
ou faz recuar. A partir deste ano, conseguimos formar uma grande frente
contra a farra do boi e outros crimes contra os animais, que congrega
o Ministério Público, a Policia Militar, Policia de
Proteção Ambiental, Poder Judiciário, CRMV-SC
e todas as organizações catarinenses que de alguma forma
lutam pelos direitos dos animais, sejam bem-estaristas, vegetarianas,
anti-especistas ou libertárias. Vamos vencer mais esta batalha,
com o apoio maciço que estamos tendo das demais organizações
nacionais e internacionais.
ARCA - Como você avalia a cobertura da imprensa sobre
a farra do boi?
Halem - A imprensa é contrária à farra, como
não poderia deixar de ser, por se tratar de um crime, e dá
cobertura à realidade dos fatos, com filmagens e fotos que
não deixam dúvida da crueldade com os animais, invasão
de propriedades, enfrentamento com a policia e agressões às
pessoas.
ARCA - Qual seria então a solução
para o problema da farra do boi?
Halem - Resultados mais efetivos só poderão
ser alcançados através da educação e mudança
de cultura das crianças nas escolas, em complementação
à repressão quando a farra estiver ocorrendo. São
duas formas efetivas de pedagogia. Hoje, quando os adultos vão
à farra, os filhos os acompanham e crescem neste rastro de
descensibilização e violência. Estamos trabalhando
para quebrar o vínculo entre adultos e crianças não
só na farra do boi, mas também em outras formas de violência,
de forma que as crianças sejam também agentes disseminadores
de uma cultura de paz, respeito, ética e empatia para com as
demais formas de vida. O Ecosul vem realizando desde 2005 palestras
em escolas de comunidades onde a farra do boi é praticada,
como Tijucas e Florianópolis, e o resultado tem sido bastante
positivo e animador. Já estamos também discutindo a
ampliação do trabalho em escolas de outros municípios
como Bombinhas, Navegantes, Itapema. Nossos parceiros do Fundo Viralata
também desenvolvem trabalho idêntico em Garopaba. No
nosso entendimento, os ativistas ambientais e protetores de animais
devem trabalhar a questão da farra do boi prioritariamente
quando ela não está ocorrendo, durante o ano inteiro.
ARCA - O que você acha de iniciativas como o boicote
econômico, feito principalmente por países estrangeiros,
na defesa de uma causa? Isso já foi tentado em relação
à farra do boi?
Halem - Creio que não foi tentado ainda e
pode ser uma alternativa a ser considerada. Os praticantes da farra
do boi são uma minoria que não deve ser confundida com
o povo ordeiro, pacífico e progressista de Santa Catarina.
E nossa luta é contra estes. Mas talvez tivesse algum efeito
um boicote aos municípios farristas, que hoje são pólos
turísticos – como Governador Celso Ramos, que possui
uma das geografias mais belas do litoral sul –, com excelentes
resorts e onde inclusive costumam estar em férias celebridades
como Gisele Bündchen.
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