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Leishmaniose - novembro 2007


Leishmaniose Visceral: como proteger seu animal

Doença que já vitimou milhares de cães no Estado chega a São Paulo. ARCA Brasil ajuda a preparar os profissionais que combaterão esse mal.

A Leishmaniose Visceral – doença causada por um protozoário transmitido pelo mosquito-palha ao homem e ao cão (chamado neste caso de “reservatório”) – é uma realidade para a população das regiões Nordeste e Centro-Oeste do país. Quando a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) confirma um caso de Leishmaniose humana, são realizadas ações locais que incluem coleta maciça de material para diagnóstico, uso de inseticidas específicos para combate ao mosquito-palha e eliminação dos cães contaminados. Para o Ministério da Saúde, essas medidas são coerentes e certamente mais factíveis a curto-prazo do que consolidar políticas de combate à desnutrição infantil e de saneamento básico para os brasileiros. Mesmo sabendo-se que a desnutrição e a falta de esgoto e água limpa são os principais fatores que tornam o ser humano suscetível à doença. As lacunas e contradições ficam cada vez mais evidentes, após décadas de enfrentamento desta doença e muitas vezes apresentam o cão, que é mais uma vítima, como vilão.

Desde a década de 90 sabia-se que a Leishmaniose seguia sua trajetória rumo a capital paulista e ao Sul do país. Em 1998, 60 mil cães foram mortos no município de Andradina, noroeste do Estado, na tentativa de barrar a doença.  Este ano, os municípios de Embu, Cotia e Suzano, todos na Grande São Paulo, foram decretados áreas endêmicas da enfermidade. Técnicos e especialistas prevêem que sua chegada ao município de São Paulo é uma questão de tempo. Pouco tempo.

Há cerca de 10 anos, a ARCA Brasil organiza eventos – alguns com a participação da OMS, OPAS, Funasa, Instituto Pasteur, entre outros – que alertaram para o problema e permitem a essencial troca de informações sobre a doença. O mais recente foi o Ciclo de Atualização, encontro que reuniu 210 estudantes e profissionais veterináriosnos dias 23 e 24 de outubro, nas dependências e em parceria com a Universidade Anhembi Morumbi. No programa, as medidas preventivas, as opções e métodos de diagnósticos para identificar o protozoário, além do polêmico tratamentos para certos casos dos cães infectados. “Esse Ciclo é de extrema importância. Quando a Leishmania chega às cidades não endêmicas, os veterinários não estão capacitados para identificá-la, pois suas manifestações clínicas são diversas e mimetizam outras doenças”, explica o professor e clínico Fábio Nogueira, especialista em imunoterapia e imunoprofilaxia da Leishmaniose Visceral Canina pela UNESP de Araçatuba.

 “No Ciclo, pudemos refletir sobre como lidar com a doença de forma ética e responsável. Tivemos acesso a protocolos de tratamento que, realizados com critério e o acompanhamento do animal, o que representa uma opção válida para preservar a vida do animal infectado”, afirma a veterinária da ARCA Alessandra Borges. “O evento foi uma verdadeira ação preventiva contra a Leishmaniose em São Paulo”, comemora Alessandra.

Opção ineficaz e cruel

De acordo com Marco Ciampi, presidente da ARCA Brasil, o Ciclo de Atualização reflete a necessidade de uma urgente mudança de postura: “A posição do governo, que preconiza a eutanásia dos cães positivos e, ao mesmo tempo, não oferece estrutura adequada para a prevenção e controle da doença, é desumana e tecnicamente equivocada” (saiba mais  seminario/palestra_vitor.htm). A trajetória das contaminações no país mostra que a política de eliminação não impediu o alastramento da doença. “O Brasil é um dos últimos países que ainda adotam essa medida como forma sistemática de combate”, complementa Ciampi. Na Europa já existem ao menos três terapias diferentes como forma de tratamento para os animais.

O procedimento governamental também foi questionado em outros aspectos durante o ciclo. Seu sistema de diagnóstico – baseado nos testes Riff e Elisa, que fazem parte do Kit Biomanguinhos – mostrou-se um dos mais imprecisos, pois não permite diferenciar os animais contaminados dos animais vacinados, conforme demonstrou o professor Marcio Moreira, da Universidade Anhembi Morumbi.  

A ARCA Brasil busca soluções alternativas, a exemplo de outras cidades. Campo Grande (MS) matou milhares de animais no passado, sem resultados significativos. Hoje a prefeitura interrompeu a eliminação dos cães e decidiu investir em prevenção, distribuindo mais de 100 mil coleiras repelentes à população. “A intenção é organizar um movimento junto aos profissionais veterinários, às entidades de classe e demais setores da sociedade sensíveis ao problema para um debate definitivo com a saúde pública, barrando assim esse ciclo de mortes sem sentido”, explica Ciampi.

Tratamento
O tratamento da Leishmaniose Visceral Canina com medicações de uso humano não é recomendado pelo Ministério da Saúde. A entidade diz temer que o protozoário crie resistência ao princípio ativo e a droga perca a validade em humanos. Apesar disso, a organização já vê a eutanásia com restrições, pois desde 1963 – quando a eliminação compulsória dos cães foi preconizada – a incidência de casos só vem crescendo, mostrando a ineficácia dessa medida de controle.

Na Europa há remédios específicos para o tratamento em cães, alguns usados há pelo menos 40 anos. Lá, também foi criada uma ração terapêutica para os animais infectados.

No Brasil, a importação das drogas para tratamento dos cães ainda não foi aprovada pelo Ministério da Agricultura (responsável por este tipo de trâmite). No entanto, tratamentos com drogas alternativas vêm sendo realizados por veterinários de outros estados e do interior de São Paulo.

No entanto, esperar o cão adoecer para depois pensar na cura não é boa medida. “Todos os remédios apresentam um alto índice de toxidade para o animal e, por isso, a prevenção ainda é o principal e melhor remédio”, alerta o professor Nogueira.

Como prevenir
A melhor opção para combater a Leishmaniose é evitar que o mosquito transmissor entre em contato com o cão. Veja o que você pode fazer:

  • Mantenha o animal dentro de casa ao entardecer, coloque telas nas janelas e no canil, espalhe vasos de citronela pelo quintal.

  • Use a coleira Scalibor®, que dura seis meses e é eficaz para repelir o vetor, um mosquito menor que um grão de arroz. Seu custo não chega a R$ 8 por mês.

  • Denuncie o desmatamento de áreas verdes, um dos fatores a contribuir para a proliferação dos mosquitos nas áreas urbanas.

  • Fiscalize e exija que sua prefeitura execute o programa de controle do mosquito transmissor, não os cães de forma isolada. Isso inclui a poda de árvores e arbustos, recolhimento das folhas, controlar a exposição de matéria orgânica (lixões, aterros sanitários, granjas e terrenos baldios). Abaixo-assinados dirigidos as autoridades e imprensa podem ser um meio eficaz de unir os vizinhos nesse combate.

  • Vacine seu cão. A vacina Leishmune® teve sua utilização autorizada no Brasil desde 2003. Por decisão do Ministério da Saúde, só pode ser aplicada em regiões consideradas endêmicas ou periendêmicas. A alegação do órgão público é de que cães vacinados são diagnosticados em testes como se estivessem infectados. Devem ser feitas três aplicações, ao custo de R$ 60 a R$ 100 cada uma, com espaço de 21 dias entre elas. A imunização se dá 3 semanas após última dose.


     
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