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Série: Causa - Efeito - Prevenção (CEP)
Só uma picadinha
Vacinas V8 e V10 podem evitar muito sofrimento e frear o aumento nos casos de Cinomose e Parvovirose - doenças que matam milhares de cães todos os anos.
Um procedimento clínico simples e indolor, com duração média de dez minutos, e o seu cachorro está livre de doenças fatais ou de tratamento custoso e de alto risco. Simples para um amante dos bichos? Pois, na prática, isso não acontece. A falta de vacinação responde pelo maior número de entradas em um dos principais hospitais veterinários de São Paulo, o da Universidade Anhembi Morumbi. Nesta segunda reportagem de uma série exclusiva da ARCA Brasil você saberá como evitar essas doenças (leia mais), em que se destacam a Cinomose e a Parvovirose.
De acordo com informações do SINDAN (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal), apenas 17% dos cães brasileiros estão imunizados com as vacinas V8 (Cinomose; Hepatite Infecciosa canina; Doença Respiratória causada por Adenovirus tipo2; Coronavirose canina; Parainfluenza canina; Parvovirose canina; e infecções por Leptospira canina e Leptospira icterohemorrhagiae.) e V10 que agem contra a Cinomose e a Parvovirose, entre outras doenças. Para se ter uma idéia, é preciso vacinar 80% dos cães para eliminar o risco de uma epidemia.
Estes males - considerados erradicados em países como os EUA -estão entre as principais causas que levam os bichos ao Hospital Veterinário Anhembi Morumbi e a outras clínicas veterinárias da cidade de São Paulo. No hospital, foram 72 casos de Cinomose com sintomas óbvios, 4 casos de Parvovirose e 140 casos de gastrenterite hemorrágica (um dos principais sintomas da forma mais comum de Parvovirose), em um universo de 2862 animais atendidos em 2006.
| No primeiro ano de vida o cão deve receber três doses. A primeira aos sessenta dias de vida e as outras nos dois meses seguintes. Ele não deve sair na rua antes de ter tomado todas as doses. |
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A ARCA Brasil conversou com sete clínicos, dois hospitais veterinários, três laboratórios e com o Sindan, entre outros profissionais e técnicos, para descobrir por que os proprietários deixam de vacinar seus bichos. A falta de um cuidado tão simples faz com que muitos deles morram ou fiquem com seqüelas neurológicas irreversíveis.(No primeiro ano de vida o cão deve receber três doses. A primeira aos sessenta dias de vida e as outras nos dois meses seguintes. Ele não deve sair na rua antes de ter tomado todas as doses).
A polêmica do custo
O preço da vacina pode variar de acordo com a localização do consultório veterinário. Clínicas de bairros mais afastados tendem a cobrar menos. Em locais como São Miguel, Itaquera e a estrada de Guarapiranga, os médicos veterinários cobram entre R$ 30 e R$ 35 a aplicação da vacina V8 e entre R$ 35 e R$ 45 a V10.
Já em bairros como Vila Mariana e Pinheiros, há clínicas que cobram entre R$ 40 e R$ 50 reais e algumas poucas chegam a pedir mais do que isso. “O preço muda de região para região. Nas periferias ou lugares onde existem muitos consultórios veterinários o custo é menor”, explica a Veterinária Solidária Daniela Medeiros Mamprim, que atualmente monta uma clínica em Moema. Em todos os casos acima, a vacina aplicada é produzida por laboratórios de empresas multinacionais.
Mamprim mantém contato com uma clínica em Diadema onde são recebidos cerca de três animais com Cinomose por semana. “Lá, o preço da vacina é de R$30 sem a cobrança da consulta. Quem não tem esse dinheiro, paga parcelado e quase sempre quita a dívida direitinho. Apesar disso, tem muito cachorro doente na rua e pessoas que não se preocupam em dar a vacina.”, revela a médica.
Ela compara o preço da aplicação com outros serviços prestados por clínicas: “O banho custa R$ 20 e as pessoas pagam, mas muitas delas não vacinam o animal, um investimento que irá durar o ano inteiro”. Como a imunização deve ocorrer anualmente, tomando por base uma aplicação com custo de R$ 40, o preço da prevenção fica em irrisórios R$ 3,33 por mês.
Vacina “ética”
Os médicos e laboratórios classificam as vacinas em duas categorias. Aquelas vendidas apenas para veterinários são denominadas vacinas “éticas” e as comercializadas para outros estabelecimentos além dos médicos, como pet shops, casas de agropecuária e avicultoras, são chamadas “não-éticas”.
A justificativa é de que, apesar desses estabelecimentos terem obrigação de contar com um veterinário responsável, nem sempre ele está presente ou a loja não segue as normas de armazenagem da vacina (para que não percam o efeito). Isso também afeta a imunização do animal, pois o cão precisa estar em condições saudáveis atestadas por um médico veterinário.
A maioria das vacinas “éticas” é produzida por empresas multinacionais, enquanto as “não-éticas” são feitas por laboratórios brasileiros. Ambas são aprovadas pelo Ministério da Agricultura. “É uma opção de mercado. Nós temos um rigoroso controle sobre os pontos de venda e acompanhamos de perto o trabalho feito pelos distribuidores. Além disso, temos um sistema de fiscalização sobre a estocagem da vacina”, explica Andréia Castro, do laboratório Hertape, que vende tanto para veterinários como para pet shops.
Por ser comercializada em pet shops e outros estabelecimentos, a maioria dos veterinários não utiliza as vacinas nacionais, que têm um preço mais em conta. De acordo com o SINDAN, apesar de não possuírem o mesmo avanço tecnológico e investimento em pesquisas, são funcionais. Alguns médicos reclamam de animais aparentemente imunizados que apareceram doentes. “Cerca de metade dos cães que recebo com Cinomose foram vacinados em casas de ração”, revela Guadalupe Polizel, clínica do Hospital Veterinário Dog Bakery. Para ela, que abrirá uma clínica na periferia de Mauá, na Grande São Paulo, a denominação não é correta: “Vacina ética é aquela que funciona. Se o Ministério da Agricultura testou e diz que ela funciona, é uma vacina maravilhosa. Na minha clínica terei vacinas importadas e nacionais para que o cliente faça a escolha”.
Cinomose e Parvovirose: imunização
A Cinomose é causada por um vírus Paramyxoviridae e por isso é difícil de ser combatida. “A doença se manifesta lentamente até chegar aos sintomas neurológicos, quando o dono leva ao médico. Mas neste momento, ela já está em um estágio difícil de ser tratada”, explica a médica Daniela Mamprim. De acordo com a Veterinária Solidária Fabiana Anselmo Rosa, com clínica na Vila Mariana, nessa fase apenas seis de cada dez cães sobrevivem ao tratamento e, mesmo assim, ficam com seqüelas para o resto da vida.
Além de o tratamento ser incerto pelas características da doença, ele tem um custo alto. “O proprietário não deve economizar na vacina, pois isso colocará o seu animal em risco”, explica Regina Zanelato, Veterinária Solidária de Taboão da Serra. A Cinomose é considerada uma doença de fácil contágio.
Já a Parvovirose ocasiona-se pela presença de um parvovírus. Ela tem diferentes tipos de manifestações e a mais comum é a gastrenterite hemorrágica, quando o intestino dos animais é atingido, causando sangramentos e prejudicando a absorção de alimentos. Também existem casos de mortes súbitas, na forma miocárdica da doença. Por ter uma atuação mais localizada, o combate a esse vírus é um pouco mais fácil do que o da Cinomose. A Parvovirose também tem alta transmissibilidade, podendo ser contraída pelo ar.
“Uma maneira importante para afastar seu cão dessas doenças é imunizá-lo e fazer a manutenção anual”, declara Alessandra Borges, coordenadora do projeto Adotar é Tudo de Bom da ARCA Brasil. As três profissionais alertam para a necessidade de consultar um veterinário para orientações específicas para desinfecção do ambiente, caso animais doentes tenham sido mantidos no local (os desinfetantes comprados em mercado não são suficientes). Do contrário, todo animal não-imunizado que passar por lá tem grandes chances de se contaminar. “Eu já peguei vários cães seguidos de uma mesma casa com Cinomose, pois a família comprava outro sem antes desinfetar o ambiente”, conta Fabiana Anselmo Rosa.
Descuido, falta de informação e abandono
Outro aspecto levantado pelos clínicos é de que ainda há muita desinformação sobre as vacinas. “São pessoas que vacinaram o bicho apenas uma vez ou tardiamente, ou ainda os que nunca o fizeram”, explica Luiz Luccas, veterinário representante da Merial e presidente da COMAC (Comissão de Marketing de Animais de Companhia) do Sindan (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal).
De acordo com os médicos, há pessoas que nem sabem da necessidade da aplicação da V8 ou V10. “É necessário explicar para o povo a importância de vacinar e deixar claro que a campanha da prefeitura é só contra a raiva”, esclarece Daniela Mamprim. Já para Fabiana Anselmo Rosa, além do desconhecimento, pode haver um pouco de desleixo: “São pessoas bem instruídas, mas muitas vezes aplicam a primeira dose da vacina e deixam de aplicar as outras”.
Fabiana trabalhou durante bastante tempo em Diadema e explica que o fator geográfico é decisivo. “Na periferia muitos animais ficam vagando pelas ruas, onde fazem suas necessidades nos portões das casas. Já em regiões como a Vila Mariana, os animais mais expostos são os que freqüentam parques e não estão imunizados.”. De acordo com Luiz Luccas, o contágio da doença pode acontecer até no contato dos focinhos entre um animal contaminado e outro suscetível.
Fora o boca a boca entre veterinários, ongs e proprietários de animais, não há divulgação sobre a importância da vacinação. Segundo Luiz Luccas, esse é um dos planos da COMAC, que foi instituída recentemente. De acordo com Mitika Kuribayashi Hagiwara, professora e doutora da USP, não há no Brasil ou em São Paulo nenhum estudo, por parte dos laboratórios (nacionais ou internacionais), entidades de ensino ou organizações de classe, que identifique através de estatísticas, o tamanho da epidemia dessas doenças.
Tanta falta de informação é surpreendente, especialmente diante dos números em questão. Para a ARCA Brasil tal fato não deixa de ser uma negligencia diante de um fato de extrema importância, conforme revelou o levantamento inédito feito junto ao Hospital Veterinário Anhembi Morumbi.
Agradecimento: Hospital Anhembi Morumbi - Coordenação Prof.a Dra. Marcia Marques Jericó
Fabiana Grecco, médica veterinária e coordenadora técnica da Fort Dodge. Lineu Padovese, veterinário e gerente de produtos para animais de companhia da INTERVET. Sergio Fedini, Veterinário Solidário da Vila Mariana. Maria Inês Ferreira, veterinária e assessora de comunicação da ANCLIVEPA.
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