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Alguém tem que falar por eles (parte II)
Depoimento da jornalista Silvia Lakatos sobre a importância da comunicação para a causa animal
É fácil falar sobre a importância da comunicação: basta recorrer a exemplos. Foi para “levar a palavra” que, há mais de 2 mil anos, um grupo de pescadores da Galiléia mobilizou-se para cruzar terras e mares e divulgar os ensinamentos de seu mestre, um profeta chamado Jesus. Resultado: mais de dois bilhões de pessoas professam hoje o Cristianismo, a religião com o maior número de adeptos do planeta. Num contraponto extremo, Paul Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolph Hitler, perpetrou a máxima: “Uma mentira repetida muitas vezes transforma-se em verdade”. Numa seara mais popular, vale lembrar que o dom da oratória fez um camelô chamado Senor Abravanel transformar-se em líder de um pequeno império, o Sistema Brasileiro de Televisão. Bem que Chacrinha (1917-1988) falava: “Quem não se comunica, se trumbica!”.
Para o bem e para o mal, a comunicação é a arma mais poderosa destes tempos em que as notícias correm velozes pelas vias sem fronteiras da web. Até Osama Bin Laden, o “inencontrável”, despende energia para gravar vídeos que são divulgados pela TV. Quem luta nas trincheiras do bem, como as entidades de defesa dos animais, devem se valer, cada vez mais, dos instrumentos da comunicação para disseminar conceitos como o respeito e a solidariedade à vida animal.
É pela comunicação que mudamos culturas e abrimos as portas para o novo. Em meados da década de 80, quando se comentava com alguém sobre castração de animais, era comum os interlocutores reagirem com acusações do tipo “isso é cruel, coitado do bichinho, não vai ter filhotes...” – foram necessários mais de 10 anos de comunicação sistemática para que a sociedade finalmente começasse a compreender a importância da esterilização de animais como ferramenta para o controle de natalidade humanitário, com vistas à redução do abandono e de todos os males advindos desta prática.
O desafio de comunicar e criar novas culturas se reproduz em inúmeras áreas da defesa animal. Um conceito que aos poucos vai sendo abandonado é o do abrigo de animais, infelizmente ainda visto por muitas pessoas como uma “opção válida” para os indesejados. Assim, torna-se necessário fomentar mais a visão de que o abrigo não é o destino ideal para nenhum cão ou gato, pois esses animais tradicionalmente dependem da companhia humana para serem felizes. Eles não querem só comida e água: eles carecem de outros cuidados, que incluem carinho, amor, atenção, a presença de um humano “pra chamar de seu”.
E há muito o que combater no campo da comunicação malfeita, aquela que mais atrapalha do que ajuda. A cada vez que um programa sensacionalista chama um pitbull de fera assassina, ou que um cientista aparece no telejornal falando que o uso de cobaias é imprescindível para que vidas humanas sejam salvas, preconcebem-se conceitos que acabam impondo desafios redobrados aos defensores dos animais. Sou totalmente a favor da liberdade de expressão e de imprensa. Mas sinto falta de ver os comunicadores do país ouvirem o “outro lado” – ou seja, o do animal – quando temas assim são trazidos à baila.
Como profissional da área de comunicação, sempre procurei contribuir, por meio de artigos e prestação de assessoria, para o bom andamento dos trabalhos das instituições que defendem as causas das quais comungo. Na ARCA BRASIL, tive a oportunidade de doar trabalho voluntário para a elaboração de um folder de posse responsável e de matérias para o portal da entidade. Foi uma experiência gratificante, e sobretudo válida. É muito bom saber que o seu trabalho está, de alguma forma, sendo útil aos animais, e conseqüentemente, tornando o mundo um pouco melhor.

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