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Febre amarela: as vítimas da ignorância
Assim como os cães no caso da leishmaniose, macacos pagam pela falta de políticas em saúde

Um grupo de macacos descansa após uma saborosa refeição de frutas silvestres e bananas. Estão nos galhos de uma majestosa figueira, onde costumam passar as tardes quentes de verão. Alguns catam piolhos, enquanto outros se coçam ou brincam. De repente, estrondos rasgam o céu e alguns dos macacos caem mortos no chão, enquanto os outros fogem, aterrorizados. Isso aconteceu em Goiás, onde esses animais estão sendo mortos por fazendeiros que temem a febre amarela.

Esta narrativa, baseada em um caso real publicado no jornal O Estado de S.Paulo no mês de janeiro, revela o medo que tomou conta da população, por conta da doença. De forma equivocada, muitos encaram o animal como vilão e agem com violência, quando, na verdade, ele é mais uma vítima.

A febre amarela é transmitida por um mosquito e têm primatas e gambás no papel de reservatório da doença. O mesmo ocorre com a leishmaniose, onde os cães são os reservatórios.  Ambos os males, erradicados em muitos lugares do mundo, são re-emergentes no Brasil.

A ARCA Brasil, que desenvolve uma grande mobilização com a classe veterinária no combate à leishmaniose, entrevistou o professor e clínico Fábio Nogueira.  Especialista em imunoterapia e imunoprofilaxia da leishmaniose visceral canina pela UNESP de Araçatuba, ele discute o descaso da saúde pública e a vilanização dos animais “reservatório”. Acompanhe:

O Brasil precisa se preocupar com os casos de Leishmaniose e Febre Amarela?
Sem dúvida. Há  uma enorme preocupação com o atual momento das doenças infecciosas reemergentes. A  febre amarela e a leishmaniose são consideradas  pela OMS como endemias [doenças com casos constantes] de extrema importância no panorama mundial e necessitam ser erradicadas. No entanto, o que se vê é a negligência por parte dos médicos, veterinários, profissionais da saúde pública, e até da imprensa de uma maneira geral.

Em que medida essa negligência ocorre?
 Analisamos e estudamos estas doenças somente em situações de epidemias. Em áreas não endêmicas [como a cidade de São Paulo], tais profissionais desconhecem o problema, dificultando o controle, o diagnóstico e o tratamento. O que mata na leishmaniose humana não é a doença em si, mas sim a demora do diagnóstico e os efeitos colaterais da droga usada no tratamento.

Como é feita a conscientização sobre a importância dessas doenças?
Até hoje não vi e nem ouvi o ministro da Saúde abordar a leishmaniose em cadeia nacional. Leishmaniose e febre amarela têm mosquitos como vetor e animais como reservatório. É importante dizer que tanto essas doenças, como seus vetores e reservatórios estavam em seu habitat silvestre, mantendo sua cadeia epidemiológica. O descaso com a natureza e o desmatamento trouxeram  tais enfermidades, que se readaptaram ao ambiente urbano.

Quem sofre mais com as políticas inadequadas e a falta de conscientização?
 Os indefesos, que não vão oferecer risco ao cenário de desenvolvimento econômico, ou seja, os animais.  Nas áreas endêmicas, pela negligência da própria imprensa em informar corretamente, os animais são alvos de um verdadeiro "holocausto". Na cidade de Andradina, localizada no oeste paulista – com uma população estimada em 60.000 habitantes – mais de 12.000 cães já foram mortos, e milhares de outros abandonados nas ruas, muitos destes sem ter a doença! Agora com a febre amarela vemos o mesmo panorama, com macacos sendo "eliminados" pela desinformação e a falta de amor pelos animais, ou melhor, pela vida. 

Qual o melhor caminho para lidar com essas doenças?
A leishmaniose visceral humana data de 1914, com uma prevalência mundial de 100.000 a 500.000 novos casos anuais com óbitos freqüentes. No entanto, está associada à classe social menos favorecida.  Sabemos  que o combate à desnutrição, educação e vacinação melhora as condições higiênico-sanitárias. Isso e a  prevenção são prioritários no combate das doenças infecciosas. Sem dúvida o respeito pela natureza e pela vida deve prevalecer.

Saiba mais:

http://www.arcabrasil.org.br/noticias/0711_leishmaniose.html

http://www.arcabrasil.org.br/noticias/051222_opas.htm

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