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Especial – ARCA 15 anos
Pioneira no controle de natalidade
Na terceira reportagem sobre a história da ARCA Brasil, conheça como se deu o debate sobre a importância do controle populacional de cães e gatos na redução do número de animais abandonados
Poucas pessoas, entre especialistas, protetores e amantes de cães e gatos, não citariam a castração como o método mais efetivo para controlar o crescimento descontrolado da população animal. Os dados são claros: em seis anos, uma cadela pode gerar 64.000 descendentes. O número é ainda maior em relação à gata.
Hoje a defesa da esterilização cirúrgica (castração) é feita abertamente graças a um importante passo dado pela ARCA Brasil na década de 90.
Naquela época, a questão da raiva canina estava praticamente sob controle nas principais capitais do país. Depois do extermínio nas décadas anteriores, em nome de um suposto controle da doença, cães e gatos continuaram a se multiplicar e a população de rua cresceu. A política adotada pelo poder público para controlar o número desses animais continuou a mesma de antes, ou seja, a eliminação daqueles recolhidos ou entregues aos CCZs.
Na época, nem as entidades de defesa animal ou os protetores encontravam uma solução efetiva no horizonte, em médio prazo. Como todos eram contra a eutanásia, o destino dos abandonados eram os abrigos superlotados. Sem informações especializadas, muitos viam a esterilização cirúrgica como mutilação do animal.
O panorama hoje está diferente e a castração já é vista por ongs, veterinários, sociedade, mídia e poder público como um meio eficaz de evitar a procriação sem controle e o abandono.
Um dos momentos importantes para essa mudança foi a participação da ARCA Brasil que, em 1995, com o apoio da WSPA e em parceria com o CCZ de São Paulo, promoveu um seminário para discutir o controle populacional e outras medidas. Era a primeira vez que o assunto seria debatido, em um fórum criado para este fim, entre uma organização não-governamental e a saúde pública. Deste encontro, nasceram muitos novos trabalhos e atitudes em prol dos animais, inclusive o projeto Veterinário Solidário.
Do evento, também ficou a necessidade de se implementar, na prática, o controle populacional dos animais.
Sopa quente se toma pelas beiradas
A capital paulista, por seu tamanho e, consequentemente, grande população de animais de rua – foi a primeira a ter a oportunidade de realizar o projeto. Mas a municipalidade e o CRMV, na época, não forneceram o apoio mínimo para a montagem da estrutura necessária. “Fomos ingênuos em pensar que uma ação dessa magnitude pudesse ser aceita de pronto. A falta de vontade política resulta da falta de cultura, de informações técnicas”, relembra Ciampi.
A recusa de São Paulo colocou o município de Taboão da Serra, situado na Grande São Paulo, na história da proteção animal.
Foi lá que, em 1996, já de forma independente, os líderes da ARCA Brasil desenvolveram o projeto de Controle das Populações de Cães e Gatos (saiba mais), ponto inicial da mudança de consciências e das ações públicas sobre a importância das ações preventivas desses animais.
O projeto foi implementado de maneira pioneira, em 1996. A prefeitura cedeu o material necessário e a divulgação, os veterinários realizaram as cirurgias por um preço muito inferior ao costumeiramente cobrado em consultórios e a ARCA forneceu a consultoria técnica e educacional. A união destas três frentes já seria um motivo para se considerar o evento como bem-sucedido.
O sucesso da iniciativa, reconhecida pela OPAS – Organização Pan Americana da Saúde, pode ser medido por outros desdobramentos. O primeiro foi a quebra do preconceito dos que consideravam a castração um ato de crueldade. O número de animais castrados foi outro. Cerca de 30% da população estimada de cães e gatos foi esterilizada – um recorde nacional – evitando a multiplicação e o abandono de milhares de animais. O sucesso só foi possível também porque o preço do procedimento de castração esteve abaixo do normal praticado, permitindo o acesso da população de baixa renda.
Um aspecto curioso, ao serem alertados sobre o problema de seus cães e gatos, famílias carentes conseguiram detectar a importância do seu próprio controle de natalidade e os métodos preventivos de gravidez tiveram maior procura nos postos de saúde.
No ano seguinte, ao realizar o I Congresso do Bem Estar Animal, a ARCA trouxe o veterinário americano W. Mackie, que ensinou a “técnica do gancho” (adquira o vídeo de treinamento) aos veterinários de Taboão.
Um ano depois, o projeto deu mais um fruto importante, desta vez para a cidade de São Paulo, a lei 12.327/97, que estabeleceu a campanha de controle da natalidade de cães e gatos
Muita coisa mudou para melhor de 1993 até hoje no que diz respeito ao controle populacional, como método mais eficaz para barrar esse ciclo de sofrimento que passa por gerações de animais sem lar.
Claro que nem todos têm consciência disso, incluindo a mídia, que chegou a chamar o procedimento de “medida radical” no jornal de maior circulação do país.
Como vemos, 15 anos depois, ainda há muito o que fazer.
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