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Amor sem fronteiras
Confira a entrevista com Rosa Lewellen, que de sua casa ajuda animais na China, na Croácia, nos EUA...

Ajuda no desenvolvimento do ativismo pelos animais na China, campanha pelos cavalos no México e apoio à proteção dos animais da Grécia, entre muitas outras atividades internacionais. A brasileira Rosa Lewellen faz sozinha, por meio de sua rede de contatos e amizades, o trabalho de uma organização.

Sempre sensível à causa dos animais, Rita só percebeu a importância de uma mobilização organizada após um triste episódio que aconteceu em sua vida: o assassinato de seu gato de estimação por estrangulamento. Com a morte de seu companheiro peludo, Rosa ficou desnorteada e sem saber como agir para fazer justiça. Foi nesse momento que ela consultou a ARCA Brasil, obtendo as orientações para que pudesse entrar com uma ação judicial contra o culpado e fazer com que ele se responsabilizasse por seu crime. Nesse momento, ela percebeu que a realidade poderia ser alterada.

Hoje, morando nos Estados Unidos, a protetora age por conta própria em ações de alcance global. Confira a seguir a entrevista com essa brasileira que dá tudo de si para construir um mundo melhor para os homens e para os animais:

N.A. – Como deu início o seu trabalho na proteção dos bichos?

R.L. - Um dia, algo terrível aconteceu comigo: meu gatinho, o Misha, foi envenenado, enquanto eu viajava entre Brasil e Estados Unidos. Tomei conhecimento da ARCA nesse período difícil. Consegui levantar provas com o auxílio da vizinhança sobre quem o matou. Mas faltava procurar a justiça. Foi então que li uma entrevista do Marco Ciampi, presidente da ARCA, no suplemento sobre animais da revista Claudia, falando sobre a impunidade em situações de abuso animal no Brasil. Liguei para a ARCA e conversei com o Marco. Entre lágrimas, expliquei o que aconteceu. Ele me deu dicas e me encorajou a não desistir e procurar justiça. Disse que é justamente pela desistência que criminosos continuavam cometendo crimes. No dia seguinte, fui cedinho ao meu advogado e entrei com um processo criminal contra a assassina do Misha. Dez meses depois, ela foi condenada e como era ré primária, pagou apenas uma multa, mas ficou cinco anos em observação e com cadastro sujo. Em Nazaré Paulista, onde tudo isto aconteceu, fui a primeira pessoa a seguir com um processo criminal "somente" por causa de um gatinho.

N.A. – Como foi o início de seu trabalho pelos animais?

R.L. – Depois da morte trágica do Misha, senti-me forçada a repensar tudo sobre minha vida e percebi que ajudar outros animais seria um caminho para sufocar a depressão. E assim comecei a focar em algo positivo, tentando ajudar gatos abandonados, e pessoas que recolhem animais de rua. De volta aos EUA, passei a usar a internet com freqüência, associando-me a fóruns de proteção animal e conversando com ativistas no Brasil. Com o passar do tempo meus contatos se expandiram internacionalmente, até por necessidade de saber o que estavam fazendo lá fora. Foi fácil porque leio bem outros idiomas e, claro, pela fluência em inglês.

N.A. – Nesses anos de ativismo, o que você elegeu como seu principal alvo?

R.L. – A crueldade que é a retirada da pele de animais para ser usada no vestuário. Para mim isso é o fim, a última fronteira da degradação: esfolar animais ainda vivos pura e simplesmente para satisfazer a vaidade humana. Joguei-me de corpo e alma no ativismo para ver o fim dessa indústria cruel e repugnante. Assumi o slogan "Crueldade que vai além da decência humana" e parti mundo afora levando essa mensagem em inglês, francês, italiano, português e espanhol. Meu objetivo é formar uma corrente em torno do planeta contra a cruel indústria de peles. Foi incrível a recepção que tive. Conheci até grupos na Croácia, onde uma protetora dos animais me ajudou com a propagação.

N.A. – E como você percebe a repercussão desses trabalhos?

R.L. – Espelhado na minha manifestação em frente à Embaixada Chinesa, surgiu em Israel um grupo que conseguiu juntar todos os grupos anti-peles espalhados por mais de 20 países, para realizarmos protestos simultâneos nas Embaixadas Chinesas.
Vitórias já foram conseguidas, não apenas pelo grande número de pessoas que abandonaram o uso de peles, mas também pelas políticas: o Parlamento Europeu, a partir deste ano, aboliu a importação de peles de cães e gatos em toda a Europa e, muito em breve, contamos com o mesmo para os produtos das focas do Canadá.


Rosa em um dos protestos anti-peles.
Na placa: "Parem de escalpelar eles vivos!"

N.A. – Como tem sido se mobilizar em relação a um ponto tão afastado como a China?

R.L. – Depois de todos os protestos na Embaixada Chinesa, comecei a pensar que talvez estivéssemos batendo na porta errada. Pensei em procurar os chineses diretamente para serem conscientizados e que para ajudar os animais na China precisamos começar de dentro para fora. Afinal, eles têm que ser os primeiros a repelir a crueldade dentro de seu país e, para tanto, os tímidos grupos de proteção aos animais que ora se formam por lá, precisam do apoio de ativistas de todo o mundo. Assim fiz meu primeiro contato no ano passado com um grupo em Beijing envolvido no resgate de gatos destinados a restaurantes, animais que geralmente ficam dentro de engradados por muito tempo, sem comer ou beber água, numa temperatura de 40º C.
Também auxilio um grupo de 10 pessoas em Beijing que faz um belo trabalho castrando gatos abandonados e devolvendo-os às ruas. Já conseguiram castrar mais de 2.500. Estima-se que há mais de 500.000 gatos nessa situação na cidade, a maioria vivendo escondida em esgotos. Muitos deles, infelizmente, são capturados para serem vendidos aos restaurantes e às indústrias peleteiras.

Além disso, ajudo uma senhora chinesa a recolher gatos de rua, colocá-los em Lares Transitórios e doá-los. Conseguimos comprar um computador e uma impressora para que ela possa divulgar seus gatinhos para a adoção. Inclusive norte-americanos já foram ao país só para adotar um gato ou dois! O terremoto foi mais um transtorno para os já sobrecarregados ativistas na China. Consegui rapidamente levantar fundos, e minha primeira remessa já foi recebida com muitos agradecimentos. Os voluntários na região estão empenhados no resgate dos animais vítimas dos tremores.

N.A. – Você tem acompanhado a situação no Brasil?

R.L. – Sim! Recebo a newsletter da ARCA e admiro muito o trabalho educacional que estão fazendo. Conscientizar é realmente a melhor maneira de buscar nas pessoas a compaixão que nem elas sabem que possuem. Seus projetos "Adotar é tudo de Bom" e o programa "Veterinário Solidário" são parte dessa conscientização maravilhosa que a ARCA tem conseguido tão bem desenvolver. Não apenas o ato de adotar um cão e ter um veterinário responsável, mas imagine a mensagem de amor e compaixão que este simples ato está enviando Brasil afora? Educação por meio de "faça o que faço" e veja que coisa linda! Na China, estou vendo isto acontecer com a vizinhança dos meus amigos ativistas: pessoas estão se sentindo orgulhosas de ajudar os animais, porque é lindo ajudar e todos aplaudem. E, no fundo, todos gostam de uma salva de palmas.

N.A. – E você acredita que é possível mudar a realidade dos países em desenvolvimento, como o Brasil, com a superpopulação e o grave problema do abandono?

R.L. – Não só acredito como tenho certeza que caminhamos para um mundo melhor aos animais. Voltemos 20 anos atrás veremos um filme de terror contra os animais, e praticamente nenhuma voz para protegê-los. Lembro-me quando vivi em Londres, onde um dia vi um grande protesto no Picadilly Circus, indo pela famosa rua Oxford Street. Era um protesto pelas aves de abate. Achei aquilo ridículo e dei risada. Hoje ninguém acharia isso engraçado! Nos últimos 15 anos tenho visto progresso nos direitos animais que, no Brasil, começaram lentamente, mas que de repente pegaram força e estão se desabrochando. Em São Paulo, por exemplo, existem leis que nem os países de “primeiro mundo” conseguiram: proibição de animais em circos e esterilização gratuita, por exemplo. Isso não existe nos Estados Unidos, ou nenhum outro lugar que conheça.

N.A. – Como você acredita que é possível fazer essa mudança?

R.L. – Conscientização! O trabalho educacional que a ARCA está fazendo é muito importante. A conscientização combinada a exemplos práticos é fundamental, bem como o socorro na hora da aflição àqueles que têm um papel muito importante na luta pelo bem-estar animal. Mais importante ainda é a formação de corpo político composto de pessoas pró-animal. O mundo todo sofre deste mal terrível porque continuam elegendo pessoas que no mínimo desprezam os não-humanos.

N.A. – Qual a mensagem que você, exemplo de força de vontade na ajuda aos animais, poderia deixar para as pessoas que não acreditam que é possível reverter o quadro atual?

R.L. – A maior mensagem que posso transmitir é de que os nossos maiores amigos nesta batalha são o otimismo e perseverança. Jamais perder a fé e nos mantermos unidos. O movimento pela liberação dos animais já conquistou muito, num espaço de tempo muito curto. Contudo, não podemos esquecer que pela frente, ainda temos muitos desafios. E que também estamos apenas construindo as bases para o futuro, o qual talvez seja visto apenas por nossos filhos ou netos.

 

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