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Julho de 2008
Especial ARCA 15 anos


I Congresso do Bem-Estar Animal
Conheça o evento que mudou o cenário da proteção animal em nosso país.

Nas últimas reportagens especiais de 15 anos da ARCA Brasil, você acompanhou ações e projetos que motivaram profundas mudanças nas relações com os animais em nosso país. Saiba agora como nasceu o I Congresso Brasileiro do Bem-Estar Animal, o encontro que espalhou essas e outras sementes primordiais.

 

Duas senhoras conversam em um shopping da capital de São Paulo sobre a castração de seus animais: “Ouvi falar que com a técnica do gancho a cirurgia leva apenas 15 minutos”. Ao mesmo tempo, em uma escola pública em Fortaleza, uma menina de treze anos explica aos colegas como os bichos sofrem nos circos e espalha impressos com os 10 Mandamentos da Posse Responsável de Cães e Gatos. Nesse instante, alunos da UFRGS comemoram a substituição ao uso de animais no ensino em Santa Catarina, enquanto os protetores de animais conquistam uma lei que eliminará a circulação de carroças puxadas por cavalos em Porto Alegre no ano de 2016. Este cenário, de uma sociedade articulada e ávida por mudanças que diminuam o sofrimento e garantam o direito dos animais, seria impensável há doze anos.

Em 1996 a ARCA Brasil assessorou a implantação de projetos que impuseram profundas mudanças nas relações do país no controle ético dos cães e gatos. Mas isso somente foi possível devido aos esforços da ong em articular e divulgar esses resultados, principalmente por meio de relatórios técnicos e de matérias na imprensa. Entretanto, diversas outras áreas denotavam igual carência e pediam imediata atenção, o que só seria possível com a realização de um grande evento que reunisse especialistas em torno das necessidades e de possíveis soluções. Foi neste cenário histórico que nasceu o I Congresso Brasileiro do Bem-Estar, realizado pela ARCA em 1997, primeiro de uma série de encontros que trouxeram conhecimentos técnicos, científicos e humanitários jamais antes reunidos em nosso país.

Para Celso Martins Pinto, professor da FMVZ-Unisa, o evento foi marcado pela organização e o entusiasmo na abordagem de temas até então marginalizados. “Com a mudança de mentalidade trazida pelos congressos, pude discutir abertamente questões latentes, como a vivisseção, a experimentação animal, a utilização de animais para a diversão, a eutanásia indiscriminada nos CCZs e o comércio ilegal de animais silvestres”, relembra.


Na mesa, da esq. para dir.: Mateus Paranhos (FMVZ UNESP - Jaboticabal), Irvênia Prada
(FMVZ - USP), Luis Carlos Pinheiro Filho (UFSC), Valdecir Castilho e Heinz Hellwig
(Ambos da Secretaria Estadual da Agricultura).

Segundo o professor, a partir de então, atos comuns como manter passarinhos em gaiolas ou o adestramento dos cães, passando por questões maiores, que mexem com interesses de grupos consolidados – como os rodeios e frigoríficos – passaram a incluir a preocupação com o bem-estar animal. “A sociedade passou a ter, ao menos em parte, uma visão mais crítica sobre o que é feito por comodidade, interesses econômicos ou culturais”, explica.


Cristiana Prada (da Pró-Carnívoros) falou sobre modelos de interação na palestra "Agropecuária vs Animais Silvestres".


Saúde Pública
Após décadas de políticas fortemente sanitaristas, marcadas por campanhas que incluiam a captura e o extermínio sistemático de animais, uma geração de profissionais estava em busca de novos caminhos. “Considero que os Congressos do Bem-estar Animal foram sementes lançadas e que até hoje têm gerado bons frutos.”, revela a doutora Adriana Vieira, ex-diretora do CCZ de São Paulo e participante do I Congresso com o tema “Experiências Nacionais no Controle Populacional de Cães e Gatos”. “No encontro pude divulgar a experiência do município de Guarulhos que, aliada a outras experiências municipais, evidenciava que no Brasil também era possível implantar ações de controle de populações de cães e gatos pelos órgãos públicos”, conta ela.


Uma das mesas de saúde pública. Da esq. para dir. (funções na época):
Rita Garcia (CCZ - Taboão da Serra), Gerardo Huertas (WSPA), Marcelo Brandão
(CCZ - SP), Adriana Lopes Vieira (CCZ - Guarulhos) e Priscila Stockner (Animal Control - EUA).

Maria de Lourdes Reichmann, pesquisadora na área de saúde pública do Instituto Pasteur, também esteve presente no I Congresso. Ela falou sobre o “Programa Estadual de Controle da Raiva/Controle e Proteção Animal”. “Os encontros promovidos pela ARCA Brasil asseguraram aos participantes a oportunidade de conhecer de forma mais abrangente a importância de associar os objetivos de programas de Saúde Pública e Meio Ambiente ao bem-estar dos animais.”, explica a cientista. Para ela as instituições governamentais assumiram novos papéis: “Os serviços públicos tiveram reconhecida a importância de suas atuações, evitando doenças, sofrimentos e perdas de vidas, sem a conotação de desenvolverem atividades contra os animais. O equilíbrio passou a ser a palavra de ordem”, completa.


Dra. Maria Lourdes Reichmann durante sua fala
no
congresso. Ela se apresentou junto com...


... Neide Takaoka, também do Instituto Pasteur.

O comparecimento da classe veterinária
Outro fato inédito até então foi a resposta dos profissionais e estudantes de veterinária ao evento, que representaram 70% do público do I Congresso. A confirmação desse interesse dos profissionais do setor por questões humanitárias e pela melhoria das relações da sociedade com os animais foi a grande motivação para o lançamento, 7 anos depois, do programa Veterinário Solidário.

"Esses congressos foram marcos importantes no movimento de proteção e defesa dos animais, pois reuniu lideranças e profissionais de vários segmentos, conta a Dr.a Irvênia Prada, da FMVZ-USP. Para ela, a divulgação de informações e a "troca de figurinhas" entre os participantes reforçou a estrutura de cada um e, ao mesmo tempo, a de todos. "A sensação que sempre ficou é a de que realmente a união faz a força. Não estamos sozinhos, fazemos parte de um contexto".


Mais de trezentos presentes, vindos de 12 estados do país.

Entre as principais inovações que estes profissionais tiveram acesso no I Congresso do Bem-Estar em 1997, está a revolucionária técnica do gancho, trazida pelo clínico norte-americano Dr. W. M. Mackie (foto à esquerda). Esta técnica de realizar castrações, hoje ensinada em faculdades e aplicada em inúmeras clínicas, permite reduzir o tempo – e, conseqüentemente, o preço – do procedimento. A apresentação foi seguida de um workshop para 20 veterinários clínicos e professores universitários de todo o país, que por sua vez aplicaram a ensinaram esse método,, tornando possível a esterilização (castração) de milhares de animais.

Um outro assunto abordado durante as mesas do evento e pouco conhecido até então por aqui foi a terapia com utilização de animais, trazido pela Dr. Hannelore Fuchs, sobre as práticas realizadas dentro do projeto de Taboão da Serra, SP e por Dennis Fetko junto com Sue Godrich, ambos dos EUA, que também falaram sobre os estudos do comportamento animal. “As apresentações que tratavam de comportamento animal foram estimulantes, a tal ponto que os Manuais Técnicos do Instituto Pasteur passaram a conter diversas recomendações baseadas nos trabalhos divulgados nestes encontros”, conta Maria de Lourdes Reichmann.

 


Cerimônia de encerramento do I Congresso:
as sementes da mudança se espalhavam para os mais distantes canteiros.



Celso Martins Pinto, professor da FMVZ-Unisa– que também atuou na área clínica –, resume: “Os Congressos do Bem-Estar Animal consolidaram meus ideais, subsidiaram minhas propostas e confortaram minha formação profissional. O marcante para mim foi a certeza de que um novo rumo da atuação profissional do médico veterinário estava sendo construído”.


Acompanhe as outras matérias da série ARCA 15 Anos


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