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Comprador, fique atento!
Conheça o que há por trás da produção de ovos em sistemas de confinamento intensivo

Galinhas soltas ciscando o chão, porcas no chiqueiro amamentando suas crias, vacas em pastagens verdes... Quem nunca viu cenas como estas, tão comuns no campo? Pois saiba que infelizmente elas estão cada vez mais escassas. A criação caseira de animais para produção de carnes, leite e ovos está sendo rapidamente substituída por sistemas intensivos, que colocam inúmeros animais em espaços apertados.

As chamadas “linhas de produção” dominam a indústria de ovos e carnes. Porém, para os animais, esse modo de vida é cruel e prejudicial à saúde. Segundo Susan Prolman, diretora de campanhas internacionais da ong norte-americana Humane Society International - HSI (braço mundial da HSUS, maior em seu gênero nos EUA), esses animais são obrigados a viver em confinamentos de alta densidade e elevado grau de mecanização. No caso das galinhas poedeiras, por exemplo, de cinco a dez animais são obrigados a conviver em pequenos espaços a maior parte de suas vidas. Um único galpão pode abrigar dezenas de milhares de aves, em um sistema conhecido como “gaiolas em bateria”, que são empilhadas e se estendem por longas fileiras.

Ela conta também que o espaço é tão apertado que as aves não conseguem ficar em pé ou esticar as asas. “As galinhas em gaiolas em bateria são incapazes de realizar comportamentos naturais, como fazer ninhos, ciscar, tomar ‘banhos de areia’, empoleirar, forragear - hábitos extremamente importantes para as aves. Privadas destes hábitos ficam deprimidas, pois são muito sociáveis”, revela. Estudos mostram que quando livres, as galinhas passam mais da metade de seu tempo ciscando a terra em busca de comida e explorando o ambiente, enquanto em gaiolas, a circulação é impossível. “Com as restrições de movimento, ficam mais suscetíveis a problemas de saúde, incluindo a osteoporose e fraturas”, expõe Susan.

Como se não bastasse, as galinhas têm parte de seu bico cortado para prevenir brigas com outros animais ou até mesmo atos de canibalismo. Utiliza-se para isso uma lâmina quente que acarreta sangramentos e machucados que podem inflamar e trazer mais dor. Os produtores fazem isso justamente por saberem dos comportamentos adversos que esses animais apresentam em situações de estresse e limitações de hábitos que lhes são impostos durante o confinamento.

Somando todos os fatores acima mencionados, é fácil imaginar o alto grau de estresse em que estas galinhas vivem durante toda a sua vida produtiva. “Esses animais são tratados como máquinas. Não temos nós a obrigação de criá-las sob condições que atendam melhor suas necessidades fisiológicas e comportamentais?”, questiona Maria Cristina Yunes, bióloga especializada em produção e bem-estar animal.

Após um ou dois anos as galinhas são retiradas das gaiolas para dar lugar a aves jovens. Para esses animais, que sofreram por toda uma existência, o destino é um só: a morte. Ou seja, quando o assunto é alimentar o comércio de ovos no mundo, o bem-estar dessas aves é algo totalmente secundário.

Atitudes que fazem a diferença

No mundo todo, a maioria das pessoas não está informada sobre os sistemas intensivos de confinamento usados na chamada “indústria animal”. Quando a realidade desses sistemas cruéis é mostrada aos consumidores, eles passam a desaprovar estes sistemas. Por exemplo, nos EUA, onde 280 milhões de galinhas poedeiras são confinadas em gaiolas em bateria, 86% das pessoas consideram esta situação “inaceitável”. “Um número crescente de consumidores norte-americanos está mandando o recado para os e supermercados e comércio em geral que eles não comprarão ovos produzidos dessa maneira”, diz Susan.

Com o objetivo de conscientizar as pessoas a preferir ovos de galinhas não-confinadas ou criadas em sistemas menos cruéis, ONGs de proteção animal como a HSUS têm se mobilizado e já conseguem avanços importantes junto a produtores, cadeias de supermercado, restaurantes e consumidores. Um exemplo disso é o Burger King, segunda maior rede de hambúrgueres no mundo, que se comprometeu a comprar 5% de ovos produzidos sem o uso de gaiolas em bateria até o final de 2007, bem como de exercer a política de dar preferência a fornecedores que não utilizam este sistema ao adquirir ovos além deste percentual.

Na União Européia essa pressão já existe. Em alguns países está proibida a instalação de novas granjas com gaiolas convencionais, e, até 2012, todas as granjas deverão mudar seu sistema para gaiolas “enriquecidas” (adaptadas para permitir maior bem-estar aos animais) ou mesmo banir as gaiolas. Neste mesmo ano a lei deverá se estender para toda União Européia, banindo também, no início de 2013, as celas de gestação para porcas prenhes. Neste ínterim, com o aumento da oposição do público às práticas desumanas, um crescente número de supermercados, restaurantes e outros estabelecimentos em países da União Européia estão oferecendo carne, ovos e produtos lácteos produzidos sob padrões mais humanitários no que diz respeito à produção animal.

Susan explica que nos Estados Unidos, por exemplo, os eleitores do estado da Califórnia – o mais populoso do país e uma grande força no setor agrícola – votarão em novembro se vão banir a criação de animais em sistema de gaiolas em bateria e, no caso das porcas, as celas de gestação.

Cristina Yunes concorda com Susan e afirma que a mudança de postura dos governos só vai acontecer quando as pessoas tomarem consciência do modo como seu alimento, especialmente o de origem animal, é produzido. “A questão dos produtos orgânicos vem abrindo os olhos dos consumidores, assim como a questão ambiental. Esses avanços são importantes para a busca do bem-estar dos animais de produção”, fala.

Pensando nisso, a ARCA Brasil, em parceria com a Humane Society International, desenvolve estudos preliminares para uma campanha na área dos animais de produção, em especial aqueles criados em confinamento.

 

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