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Agosto de 2008

Medalha de ouro pelos bichos
Na terra das Olimpíadas, veterinário demonstra que, para ser uma potência, a China deve praticar a compaixão pelos animais

Os Jogos Olímpicos costumam atrair a atenção das pessoas pelo ideal de congraçamento entre os todos os povos e pelas disputas entre os melhores do mundo no esporte. Este ano, porém, o evento acontece na China, país de muitas controvérsias, seja no campo dos direitos humanos ou pela forma como trata os seus animais, provocando toda uma série de protestos dos amantes dos bichos. O ex-Beatle Paul McCartney, por exemplo, está indignado e tem promovido um boicote contra a competição. 


No entanto, apesar dos comprovados maus hábitos de parte da população chinesa, as movimentações em prol dos animais naquele país podem surpreender. O extermínio indiscriminado de cães em cidades do interior da China, justificados pelo governo como uma política de combate à raiva (saiba mais), geraram protestos e descontentamento da população local, levando à proibição dessa medida cruel e extrema.  

Para falar um pouco de seu país, das Olimpíadas e da forma como seu povo se relaciona com os animais, a ARCA Brasil traz uma entrevista exclusiva com John Wu, jovem médico veterinário chinês da cidade de Guangzhou (no sudeste do país), reconhecido na comunidade internacional por sua atuação em prol dos animais:

- Na China existem limitações para o número de filhos por família. Isso também ocorre com cães e gatos? O fenômeno “Pet” também se manifesta na China?

Na China, apenas as grandes cidades têm a criação de animais regulamentada e essas leis variam. Na maioria destes locais vale a política de “um animal por família”. Mas essa conduta geralmente não é implantada rigorosamente, existem muitas famílias com dois ou mais cães.

- Há muita controvérsia em relação à maneira como a população chinesa trata os animais. Esses hábitos vão demorar a ser mudados ou as novas gerações podem acelerar o processo? 

Não acho que seja difícil alterar os maus caminhos tomados pela China na forma de tratar os seus animais. Não é uma cultura chinesa maltratar os bichos. Pelo contrário, muitos chineses os amam, assim como eu, porém, muitos deles não sabem como cuidar dos bichinhos. Para você ter uma idéia, nem tínhamos a concepção de pet (animal de companhia) há 15 anos e a maioria das pessoas ainda desconhece esse tipo de relação. Educação é a chave e eu acredito que esse cenário será totalmente mudado nos próximos dez anos, assim como mudou muito na última década. E lógico que as próximas gerações poderão fazer essas mudanças acontecerem com muito mais velocidade.

- Quais são as direções que o seu país está tomando?

Na China não há leis que visam ao bem-estar animal e, por isso, o governo não tem direções claras e nem encaminhamentos para promover estas questões. No entanto, durante os resgates de animais vítimas dos terremotos do último 12 de maio, além dos grupos internacionais, muitos outros locais e associações de veterinários chinesas se envolveram nos salvamentos. E o governo permitiu todas essas ações, apesar de insistir que as preocupações deveriam estar voltadas prioritariamente para as vítimas humanas.

- Além do problema educacional, qual seria o grande obstáculo da proteção animal na China? Os imensos esforços para o crescimento da economia pode ser um deles?

Um obstáculo é a falta de legislações visando ao bem-estar animal, o que faz com que o trabalho de proteção seja ainda mais difícil. Os grupos locais não têm fundamentos legais para as suas ações, por isso ficam sem direcionamentos e as crueldades contra os animais não podem ser punidas.

Não acho que o desenvolvimento econômico possa ser um obstáculo para a proteção animal. Pelo contrário, com o aumento do poder aquisitivo, mais e mais famílias podem criar pets e então aprender a amar e cuidar de um bichinho. Se as pessoas são pobres e não têm condições de sustentar um animal, então não têm oportunidade de estabelecer este tipo de relação, o que torna as preocupações com o bem-estar mais difíceis de serem compreendidas e até aceitas.

- Você acha que o mundo vê a China com preconceito por causa da maneira como se relaciona com os animais?

Em relação aos países desenvolvidos, o bem-estar animal na China e em outros países pode estar muito atrasado. Mas, comparando-se com alguns países da África, a situação da China não está tão ruim. Não é justo comparar a China com os países desenvolvidos. A relação da população com os bichos está se alterando e cada vez mais chineses não só se importam com os animais, mas têm tomado atitudes para ajudá-los. Os ocidentais deveriam levar isso em consideração antes de julgar as atitudes dos chineses para com os animais.

- O que você acha do boicote promovido por Paul McCartney contra seu país?

Eu não entendo a ação de Paul McCartney. Porém apoio as ações das estrelas internacionais contra a crueldade. Essas atitudes ajudam a aumentar a atenção do público sobre os problemas na China. Eu penso que, na verdade, a maior parte dos chineses não sabe nada sobre a crueldade da indústria de peles e acredito que se tivessem acesso a essa realidade, muitos não a aceitariam. Novamente, educação e legislação são muito importantes.

- Algumas agências mundiais de notícias divulgaram que estaria havendo um extermínio em massa de cães e gatos nas regiões onde estão acontecendo os Jogos Olímpicos na China. Você pode confirmar essas informações e falar sobre elas?

Eu não ouvi nada sobre isso. Provavelmente deve ter acontecido em Pequim (cidade sede da Olimpíada). A China é um país que dá muita importância à sua imagem. O governo de Pequim pode ter levado os animais abandonados para abrigos do governo [CCZ] como medida sanitária e ecológica. Não seria ruim se o governo reconhecesse a importância de manter um abrigo para os animais. Os esforços governamentais podem não ser perfeitos, mas demonstram estar bem direcionados. Se a comunidade internacional puder dar mais suporte e ajuda a Pequim, a proteção animal irá se desenvolver.

De acordo com o meu conhecimento, nos abrigos da maioria dos países (incluindo Hong Kong), o número de animais eutanasiados passa da metade da população local. A China precisa de apoio e orientação profissional e não críticas cegas. Afinal, nenhum governo gosta de observar uma população de animais errantes em sua cidade, especialmente a China, um país com imensas taxas de pessoas contaminadas com raiva.

- Como se deu sua escolha pela veterinária e por que você começou a trabalhar junto aos grupos de proteção animal?

Eu escolhi estudar veterinária porque amo os animais. O primeiro motivo que fez com que eu começasse a trabalhar com os grupos de proteção animal na minha cidade foi o interesse na promoção do meu trabalho. Assim, os grupos poderiam divulgar minha clínica para os seus sócios e mantenedores. Além disso, eu precisava de mais casos, mesmo que apenas para desenvolver minhas práticas. Ao fazer isso, fui tocado pela compaixão e solidariedade dos voluntários pelos animais abandonados. Minha cabeça mudou e eu passei a me interessar por tudo relacionado ao bem-estar animal. Eu percebi que poderia fazer algo por esses bichos e então escolhi essa nova direção.

Leia entrevista com a brasileira Rosa Lewellen, que também age pelos animais na China

 

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