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15 anos a bordo da ARCA
Em entrevista inédita, Marco Ciampi faz um balanço e aponta caminhos para a proteção animal no país
Na última reportagem da série especial de 15 anos da ARCA Brasil você confere uma entrevista com o presidente da ong:
Aos 53 anos, Marco Ciampi pode vangloriar-se de ter passado os últimos 15 deles defendendo seres que não tem voz em nenhum parlamento, câmara, ouvidoria ou grêmio estudantil. Esse é o período em que ele tem sido uma das cabeças por trás da ARCA Brasil, uma das principais ONGs de proteção animal do país.
Com formação na área de comércio exterior, Ciampi já trabalhou com alimentos orgânicos e com publicidade, mas foi ao coordenar a libertação do golfinho Flipper que se encontrou profissionalmente. Desde então, tem sido um dos protagonistas na conquista de mudanças significativas para os bichos no país.
O que esses 15 anos de ARCA Brasil representam para a proteção animal no país e para você?
A impressão que eu tenho a bordo da ARCA é que literalmente uma nova página se abriu para a proteção animal no país. Desde a década de 90, as demandas públicas, em particular a questão do controle de cães e gatos, sofreram a influência de movimentos humanitários e de ongs como a ARCA Brasil, juntamente com pressões internas dos próprios técnicos do setor público (CCZ), que já buscavam uma alternativa para a inaceitável política de captura e extermínio. Teríamos que viabilizar propostas semelhantes para cada uma das áreas onde existe o sofrimento animal.
Pra mim, pessoalmente, é um aprendizado estabelecer objetivos a médio e longo prazo, porque estratégias em curto prazo geram frustrações. Nada se resolve num decreto, uma decisão imediata ou em um ato de indignação. As transformações e resultados vêm com o tempo. No plano pessoal eu aprendi a lidar com essa realidade de fomentar hoje as mudanças de amanhã e posso dizer que me sinto feliz em ter participado de mudanças que já são concretas hoje. Com esses 15 anos a gente pode comemorar muita coisa.
Quais foram as maiores conquistas da ARCA Brasil neste período?
Ter sido protagonista dessa tomada de consciência e transformação no sistema de controle de cães e gatos é sem dúvida o carro chefe entre os feitos da ARCA Brasil. Outro é a consolidação do nome da ARCA nos veículos de comunicação, junto às empresas, nos meios acadêmicos, técnicos e profissionais. No momento em que uma cultura e uma organização em torno dela se consolidam – ao mesmo tempo em que se apóiam e se sustentam –, você pode dizer que existe algo realmente em formação, e essa é uma conquista muito importante.
O lançamento do programa Veterinário Solidário e o estreitamento da relação com os esses profissionais são motivos de orgulho e também uma de nossas maiores conquistas. Da mesma forma, a comunicação da ARCA Brasil também pode ser considerada uma conquista. O fato de surgirmos como primeira referência no Google ao se pesquisar o termo “Proteção Animal” demonstra a penetração do nosso trabalho.
Existem outros aspectos que podem ser lembrados, como por exemplo, ter sido escolhida como parceira pela Humane Society, a maior entidade dos EUA, em uma campanha na área dos animais de produção, que vai enfocar o ângulo do animal confinado. E também por representar o país em outras campanhas pioneiras, como a das alternativas ao uso de animais na ciência, representada pela campanha Ensino Sem Dor.
Existe também um trabalho de fundo, importantíssimo, que é a organização e a transmissão de conhecimento, representado pelos congressos, seminários, conferências e workshops. Toda essa parte de formação que a ARCA representa, e que lançou sementes e nutriu praticamente todas as iniciativas na área da proteção animal no país.
Como são escolhidos os caminhos que a ong vai trilhando ao longo do tempo? A realidade brasileira exige uma postura diferente das ONGs internacionais?
A realidade brasileira é composta por um mundo de carências que exigem uma cuidadosa seleção dos caminhos para que se possa atingir um resultado. Esse pragmatismo é algo naturalmente difícil para os nossos valores. Somos testemunhas do sofrimento dos animais, especialmente os mais sensíveis, e queremos resolver os problemas – que são muitos – de maneira emergencial, sem o devido planejamento. Um trabalho estruturado obriga você a pensar em tudo, inclusive na estrutura interna, pois não se pode abraçar tantas e diversas questões.
No passado já aprendemos à duras penas que atitudes intempestivas podem trazer resultados danosos não só para a ONG, mas para o movimento da proteção animal.
Qual é a estrutura da ARCA hoje em dia e como você gostaria que ela fosse?
A ARCA tem se preparado, nos últimos três anos, para uma transição decisiva: se tornar uma entidade completamente sustentável, com departamentos e áreas internas que cuidem dos projetos com profissionais alocados para cada tema.
Isso é um desafio duplo porque de um lado há a falta de recursos e do outro existe a falta de uma mão de obra qualificada para esse tipo de trabalho. Obstáculo esses que surgem não só para a ARCA, mas para todas as entidades que lidam com o direito das minorias. Eu gostaria de poder estalar os dedos e encontrar os talentos, mas eu sei que é um processo complexo encontrar as pessoas certas, com compromisso, equilibradas em suas aptidões, com capacidade de suportar as pressões e se adaptar a forma de agir da organização.
A comunicação é considerada um dos itens mais importante para a ARCA Brasil. Como e em quais dimensões essa comunicação se desenvolve hoje em dia?
As nossas ferramentas de comunicação básicas são o nosso site e o nosso newsletter. Todo esforço da nossa equipe interna de comunicação é no sentido de aprimorar cada vez mais essas ferramentas, que permitem o acesso de todo o Brasil e até do exterior a informações vitais. Promotores, advogados, veterinários, dirigentes de outras organizações, estudantes e jornalistas se abastecem nessas informações e isso só aumenta a nossa responsabilidade com relação aos nossos conteúdos.
Existem outras ferramentas que usamos pontualmente, como a assessoria de imprensa. Nossa presença na mídia, embora seja importante, precisa ser retro-alimentada, o que exige uma estrutura interna que ainda não temos.
Você pode falar um pouco dos projetos que estão em desenvolvimento?
A comunicação, por exemplo, é um projeto em permanente desenvolvimento. E dentro de comunicação você tem subprojetos, como o site, o newsletter e a assessoria de imprensa. Por aí vamos vendo o quanto é rico e abrangente o que se chama de “projeto” dentro da ARCA Brasil.
Com relação a animais de produção, estamos com muita esperança que em 2009, já com o site da campanha pronto e várias outras peças desenvolvidas, teremos resultados concretos dos contatos iniciados este ano no setor de produção, varejo e área governamental. Na seqüência, agiremos na comunicação para consolidar aquilo que é a marca registrada da ARCA Brasil: estabelecer um alicerce pioneiro em uma área de muita carência. Nesse caso, quantitativamente, a de maior carência na questão animal. Apenas frangos, são 3,5 bilhões processados todos os anos apenas no Brasil! Também temos o maior rebanho de zebu do mundo e 3º maior de suínos. Sabemos a representatividade que terá esse trabalho, e ao mesmo tempo as dificuldades de iniciar e dar uma estrutura técnica e confiável para ele, como é o padrão da ARCA Brasil e de nossa parceira, a Humane Society International (HSI).
Já o Veterinário Solidário é um atalho para atingir o que a ARCA se propôs na década passada: a consolidação e o estreitamento de visão junto a classe veterinária, o que poderá acelerar os processos em busca de um Controle Populacional efetivo de cães e gatos e de uma Posse Responsável plena.
Qual é a influência desse trabalho em sua vida? Como era o Marco antes da ARCA e como é o Marco hoje?
O Marco antes da proteção animal era uma pessoa inquieta, com habilidades e possibilidades. Tinha uma visão razoavelmente abrangente, desejo de mudança, militância nos movimentos humanísticos, em particular na questão da alimentação alternativa e da agricultura orgânica.
Quando encontrei a chance de trabalhar com a proteção animal tive a sensação de ter reencontrado um velho amigo, um sapato usado que se adequava perfeitamente ao meu pé. Me debrucei sobre o assunto e seu pioneirismo, que tanto me encantou, eu estava entrando e pisando em terrenos nunca antes trilhados. O cidadão comum desconhecia os bastidores e os sofrimentos dos animais. Isso implica obviamente em uma série de dificuldades, mas como dizem do desbravador: a água da fonte que ele bebe, só ele sabe o sabor.
O batismo de fogo do meu trabalho foi com o golfinho “Fliper” (LINK). O que posso dizer, hoje em dia é que, diante do gigantismo das questões, sou diariamente forçado a reconhecer as minhas limitações. E lidar com as limitações não é a coisa mais gostosa que tem na vida. Por isso, tento reconhecer durante esse processo, as conquistas, as pequenas vitórias e aprender a celebrá-las junto com quem nos cerca.
Eu diria que um dia a proteção animal vai gerar apoio não só profissional, mas talvez psicológico ou de recursos humanos, para as pessoas que se dedicam a esse setor, de tantas carências e sofrimentos, e que têm um peso, uma força e uma conotação próprias. Requer uma estrutura emocional e até existencial para cada um se manter no rumo e acreditando naquilo que faz.
Qual é a sua maior expectativa com relação ao bem-estar animal para os próximos 15 anos?
São duas: consolidação das políticas públicas para esse setor em diversas áreas, de uma forma abrangente, maior. E uma melhor estruturação das entidades de proteção animal, que é o que vai permitir isso acontecer gerando então cultura que vai aos poucos penetrar na sociedade e desenvolver as mudanças planejadas.
Pretendo ver surgir, nos próximos 5 anos, o trabalho sustentável de uma cidade que possa dizer que tem o controle dos seus animais e quem sabe aí o índice zero de abandono animal, vamos dizer, num município acima de 100 mil habitantes. Já para os próximos 15 anos, quero encontrar esse mesmo tipo de política numa grande cidade, uma capital, que tenha esse controle com índice de abandono zero, ou seja, todo animal terá um lar ou um adotante em potencial para ele.
Proteger os animais para você é:
Proteção animal é deixar o animal em paz, em seu habitat natural, no caso dos animais silvestres. Para os animais de consumo é questionar-se e ao mesmo tempo respeitar os seus limites numa escalada em direção a uma atitude que, um dia, possa prescindir da alimentação animal, porque acredito que o homem no futuro não vai se alimentar de animais. Na questão do animal doméstico, encontrar o equilíbrio entre o real prazer que é conviver com esse animal, e ao mesmo tempo ser responsável por ele, não gerando o excedente ou o abandono. Na área da experimentação, poder avançar para uma ciência que ofereça o que nós esperamos dela, ao mesmo tempo em que se respeita os critérios de não utilizar animais, a menos que seja absolutamente imprescindível para o avanço e a cura de doenças – não aquelas causadas pelo próprio homem. Em relação aos animais usados para tração (carroças), que sejam respeitadas as soluções que os livrem do sofrimento. Da mesma forma os animais usados para a diversão humana, que seja extinta essa relação de abuso. Assim como para os animais utilizados em cultos, ou onde houver a opressão, o medo, o terror.
De forma global, proteger o animal é respeitar não contribuir para o seu sofrimento.
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