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A “infelicidade” de nascer pit bull
Vítimas de extremos maus-tratos e abandono, a raça pede ajuda!
“A dois quarteirões de casa, apareceu um pit bull muito lindo, forte, robusto. Desde manhã ele está parado no mesmo lugar, segundo os vizinhos não consegue andar. Abana o rabo quando nos vê, é muitíssimo manso, deixa passar a mão na barriga, come e bebe muita água. Ele está extremamente cansado, exausto na verdade, dá pra ver isso na fisionomia dele. Apesar de tudo que passou nas ruas, ainda confia muito no ser humano.” Carolina Piovesani /São Paulo – SP (*)
A ARCA Brasil recebe pelo menos um e-mail desses por dia. São tristes pedidos de socorro que aos poucos constroem um triste cenário cada vez mais comum quando o assunto é pit bull. O que está acontecendo?
Para Patrícia Cancellara, fundadora da Pit Cão – entidade particular que resgata e cuida principalmente de cães da raça pit bull – o que mais falta é informação segundo os comentários que escuta: "vi na TV o cão atacando; ele tem cara de mau ou vai matar meus filhos; pode me engolir; dá muito trabalho; late; achei que ele era uma ameaça; o meu vizinho reclamou".
O grupo já resgatou mais de 300 pits, mas uma história em especial a marcou para sempre. “Recebemos um chamado no meio da madrugada, um pit bull que tinha sido derrotado na rinha agonizava numa lixeira. Ele deu seu último suspiro em meus braços. Chorei e fiz uma oração dizendo que enquanto eu vivesse, cuidaria dos irmãozinhos dele”.
Há 3 anos a promessa é seguida a risca. Patrícia é médica cardiologista, fundadora da Pit Cão e mãe de uma criança de 2 anos, mesmo assim, nunca pensou em abrir mão de seus 4 pit bulls, todos eles resgatados, vítimas de maus-tratos.
Modismo, despreparo e negligência
“O caráter e a personalidade do cão dependem 20% da genética e 80% do ambiente. A maneira como é criado e as experiências sociais moldam seu temperamento e definem sua maneira de agir.”, afirma a Veterinária Solidária, Rubia Burnier, que há mais de 15 anos pesquisa a agressividade canina.
A dra. ainda recomenda que se informe sobre a procedência do filhote, sua linhagem genética, o temperamento dos pais e a idoneidade do canil/criador. “Escolher um cachorro levando em conta apenas o aspecto físico ou porque a raça “está na moda” é levar um problema para casa”.
Para certas raças ou misturas de raças, essas recomendações são ainda mais importantes. Por isso essas informações, mais os conceitos da Posse Responsável da ARCA Brasil levam à pergunta decisiva: você pode ter um pit bull?
Está provado que o consumo desenfreado e a falta de responsabilidade dos novos donossão as origens do abandono e maus-tratos. E foi o que aconteceu com a simpática Lolly. Abandonada por seus donos em 2004 a cadela corria sem rumo para fugir das agressões das crianças, estava muito debilitada e pesava apenas 11kg (a média para o macho são 27kg). Foi assim que a estudante de veterinária, Fabiana Augusto Pereira conheceu a mais nova mascote da família.
“Ela estava com sarna, vermes, e machucados por todo corpo. Tudo resultado de chutes, pedradas e etc. Ela sempre foi carinhosa, feliz, alegre e nunca demonstrou nenhuma agressividade. Hoje é cuidada com muito respeito e amor, como todos os animais deveriam ser tratados”, ensina a estudante.
O caso da Lolly ainda não virou uma prática. O estigma de “fera assassina” dificulta as adoções e solto pelas ruas o animal vira alvo de crueldades, por isso os especialistas são unânimes: o destino desses inocentes está nas mãos da população.
A castração como controle populacional, há mais de 15 anos defendida pela ARCA Brasil, é uma maneira de diminuir o despejo de filhotes inocentes numa sociedade que, não oferece lares suficientes para eles e não fiscalizam as leis em vigor.
“Leis federais e municipais impõem limites ao comércio e criação de raças consideradas potencialmente perigosas, mesmo assim a sociedade reproduz, comercializa e cria esses animais. Castração, o registro obrigatório (RGA) e o uso de focinheira nos locais públicos, são as medidas básicas, mas infelizmente ainda há muita negligência e irresponsabilidade.”, conclui a Dra. Rubia.
Esperança
Durante todo o processo de apuração, chamou atenção o número de pessoas e grupos de protetores independentes preocupados com o drama que essa raça vive. As mulheres entrevistadas ensinaram que essa rede de solidariedade pode aumentar.
A médica cardiologista divide-se entre o hospital, a maternidade e resgatando pit bulls feridos; a estudante de veterinária confecciona camisetas em prol da raça e já reabilitou animais condenados pelo CCZ; e uma secretária executiva transformou a sua casa em um lar transitório cheio de amor. Faça parte desse movimento. A sociedade é capaz de ditar o futuro desses animais!
Neste artigo a ARCA Brasil reacende a discussão sobre a raça. Convidamos especialistas e pessoas ligadas ao assunto a entrarem em contato conosco para o desenvolvimento de propostas e possíveis ações que ajudem os nossos amigos.
(*) A secretária, Carolina Piovesani acolheu Black, o pit bull retratado no começo da matéria em sua casa e agora ele passa bem. Já foi castrado, está tratando um problema na pata em uma clínica veterinária e ficará nesse lar transitório até terminar todo o tratamento. Já existe uma pessoa interessada em adotá-lo e o peludo de aproximadamente 8 anos, ganhará um novo lar em breve.
Leia na próxima edição do Notícias da ARCA:
- Os pit bulls recolhidos pelo CCZ de São Paulo;
- As propostas e os projetos para ajudar esses animais.
Saiba mais:
- Pitbulls: caça às bruxas
- Dra. Rubia Burnier
- Pit Cão
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