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Albino Belotto
Um dos maiores especialistas mundiais em zoonoses, o brasileiro fala sobre como a posse responsável pode ser a chave para atingir uma realidade menos cruel para homens e animais
Albino Belotto foi o primeiro médico veterinário brasileiro a assumir a direção do Centro Pan-americano de Febre Aftosa (Panaftosa). Será um dos palestrantes do painel de bem-estar do Congresso Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA), coordenado pelo veterinário Ray Butcher e Marco Ciampi, presidente da ARCA Brasil.
Suas contribuições para a saúde pública e as relações entre homem e animal foram reconhecidas com a Medalha do Mérito da Medicina Veterinária. Confira a conversa exclusiva com o Notícias da ARCA em que o especialista fala de controle populacional e importantes medidas de combate à Leishmaniose:
Por que é importante que um município tenha controle efetivo de seus animais?
O controle populacional de cães, gatos e outros animais nos municípios é sem duvida uma ação estratégica e prioritária do ponto de vista social, econômico, de civilidade, bem estar, e qualidade de vida. Os métodos mais efetivos e permanentes são os que se baseiam na educação, conscientização e respeito ao bem estar animal. Medidas físicas de controle (esterilização, captura e eliminação utilizando métodos humanitários) são muitas vezes necessárias, mas devem ser aplicadas de forma seletiva, transparente e sempre com ampla participação da população.
Que relação você vê entre as ações educativas e a conscientização para a posse responsável e o controle populacional?
Considero as medidas educativas e de conscientização complementarias e inseparáveis. Para aumentar a conscientização sobre posse responsável e controle dos animais é necessário educação e vice-versa. Nos países em desenvolvimento a intervenção publica ainda é insuficiente para promover de forma permanente mais ações educativas e de conscientização com relação ao controle de populações animais, posse responsável e respeito aos animais.
Quais os efeitos que a lei que proíbe a eutanásia nos CCZs no estado de SP pode trazer aos programas municipais de Controle Populacional?
Não conheço os detalhes da lei, mas considero que a proibição absoluta da eutanásia seria um retrocesso no controle animal que vem sendo realizado por muitos anos nos municípios de São Paulo. Existem situações sanitárias e outras especiais, em que a eliminação humanitária de animais se faz necessária para proteger a população humana e a própria população animal.
Como iniciativas como o programa Veterinário Solidário da ARCA Brasil podem colaborar dentro deste cenário?
Congratulo a ARCA Brasil pela iniciativa. Os médicos veterinários são o principal elo de contacto entre os animais e seus donos. Conscientizados, são os melhores multiplicadores para promover na sociedade a importância social da posse responsável, controle de população, e a relação de benefício mutuo entre as pessoas e seus animais.
A raiva esta controlada na maior parte dos países das Américas. Que tipos de oportunidades na saúde pública e nas relações homem animal este fato traz?
Nos últimos 20 anos o numero de casos de raiva humana nas Américas caiu de uma media anual de 300 casos para menos de dez. Em segundo lugar o controle da raiva traz benefícios a diversas atividades como o turismo, facilita o transito de animais entre os países, impulsiona a economia do setor ligado a indústria de saúde e bem estar animal, principalmente relacionadas aos animais de estimação.
Como você analisa a forma com que o Brasil está lidando com o avanço da Leishmaniose? Quais são as piores conseqüências se essa doença se tornar endêmica em São Paulo, cidade com a maior população de cães do país?
Como sanitarista percebo o problema com grande preocupação. Uma zoonose que no passado tinha características de focos isolados em zonas rurais vem se expandindo rapidamente em áreas urbanas de grandes cidades. Uma situação endêmica de Leishmaniose visceral em São Paulo traria graves riscos à saúde publica e certamente inúmeros casos de transmissão às pessoas. Os custos de controle/eliminação seriam extremamente altos, pelas de multiplicidade de ações requeridas.
Quais as principais medidas uma cidade deve tomar para se preparar contra a Leishmaniose?
Recomendaria como principais medidas de prevenção: Fortalecer os serviços de saúde, centro e núcleos de zoonoses, na vigilância epidemiológica; detecção precoce de casos em cães; revisão do sistema de coleta e envio de amostras e do serviço de laboratório (é fundamental a existência de capacidade laboratorial confiável e com técnicas modernas); e estratégias de controle de focos com participação comunitária.
E qual é a importância debater soluções para esses temas (Controle Populacional, Posse Responsável, Raiva e Leishmaniose)?
Os assuntos das perguntas acima são de importância atual no Brasil, na America Latina e nos países em desenvolvimento em geral, por serem considerados temas da chamada agenda de saúde inconclusa e que ainda não estão considerados nos programas de inclusão social. O controle de populações animais, a posse responsável de animais e o conceito de bem estar animal e respeito a todas as formas de vida, necessitam ser enfocados pelas autoridades e pela sociedade em geral de maneira permanente e sustentável.
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