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Setembro de 2009

Entrevista – Benedicto W. de Martin
Vida de Veterinário
Conheça a história de alguém que consolidou a ciência que cuida dos animais no país e é lembrado como um profissional sensível às carências dos bichos

Quando Benedicto de Martin abriu o hospital veterinário na Avenida Rebouças, há 50 anos, existiam apenas dez clínicas para cuidar de animais na cidade de São Paulo. Sem preconceitos, ele encarou as dificuldades de um campo de trabalho ainda em formação e ajudou a construir a veterinária como conhecemos hoje.

Além de fundar a disciplina de radiologia (raio-x) em cães e gatos no Brasil, ele inaugurou a Anclivepa-SP e concebeu o Hospital Veterinário da USP, do qual foi diretor durante 15 anos. Estima-se que seus conhecimentos tenham permitido salvar milhares de vidas.

Não bastasse isto, ele sempre participou de mutirões de castração organizados por sua filha Cleonice De Martin, continua a administrar sua clínica cinqüentenária e o IVI - Instituto Veterinário de Imagem (LINK). Confira a entrevista:

Como foi sua opção pela veterinária?
Naquele momento já morava em São Paulo. Sempre quis fazer alguma coisa na área da agronomia. Em uma daquelas conversas de intervalo de cursinho, discutindo horizontes um rapaz falou: “Benedicto, por que você não faz veterinária?”. Eu não tinha pensado nisso. Ele disse: “Você estava querendo fazer agronomia, você gosta de mexer com bicho...”.  E eu respondi: “Quem sabe?”. Então fomos até a faculdade de veterinária da USP, que na época era na Rua Pires da Mota e eu achei aquilo interessante.

Nessa época a veterinária já era uma profissão comum?
Não era tão falada. Inclusive, tive resistência do meu pai. Ele achava que não ia dar certo, que isso era profissão de funcionário público. Pra ele eu ia me tornar um “funcionariozinho”. E não estava de todo errado, funcionalismo público naquela época era uma colocação muito procurada.

Mas o jornal mais lido da época era a Gazeta Esportiva, e o cursinho publicou uma lista com os alunos melhor colocados. Felizmente, eu fiquei em uma boa posição no vestibular e todo mundo foi cumprimentar papai.

Como foi sua decisão de tratar de cães e gatos?
Não imaginava trabalhar com pequenos animais. Queria fazer bovinos ou eqüinos que era minha idéia. No terceiro ano comecei a trabalhar com um colega que era veterinário do exército, mas tinha um consultório em casa. Eu fazia a limpeza, arrumava, checava fichas, esterilizava os instrumentos. Foi assim que eu comecei a ver o lado interessante da clínica de pequenos animais. Me voltei para cães e felinos e os eqüinos ficaram cada vez mais distantes.

Na USP, um bedel me dizia: “Olha, essa coisa de cachorro e gato está ficando muito boa” e como eu tinha uma certa habilidade na área clínica de pequenos animais e fui tomando esse caminho.

E como foi a montagem da clínica?
Hoje são mais de 600 clínicas veterinárias em São Paulo, mas naquela época havia apenas dez. Então eu pensei na Avenida Rebouças que naquele tempo não era central, mas um lugar de passagem onde cruzavam os ônibus vindos do interior e de bairros da Zona Oeste em escala até o terminal no Largo de Pinheiros. Resolvi montar ali.

Teve procura no começo?
Não, foi muito difícil. Eu me lembro de algo interessante: colocamos “H. Veterinário” na frente da clínica (“Hospital Veterinário” abreviado). Aí, um belo dia chegou um senhor lá e disse “Olha, me desculpe falar, mas eu acho que está errado. Tem que pôr ‘Clínica de Cães e Gatos’. Ninguém sabe o que é veterinária”.  Nós que estávamos na escola não lembrávamos disso.

Então eu coloquei “Clínicas para cães e gatos” e o pessoal apareceu um pouco mais.

E como foi sua trajetória com a radiologia?
Um dia apareceu uma cachorrinha que precisava de radiografia e tinha que ser na Pires da Mota. Conversando com o médico que tomava conta da radiologia ele disse: “Precisamos de alguém para operar a radiologia, ninguém quer trabalhar aqui, é difícil”. Como na época eu estava sem emprego, me ofereci para fazer o serviço.

Foi uma oportunidade impar. Tive a possibilidade de aprender a respeito daquela técnica, que naquele tempo era precária, mas já era alguma coisa. Mais tarde fui convidado para ministrar o primeiro curso de radiologia da América do Sul, em Botucatu, na Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu.  Depois montei a disciplina na USP e, ao me aposentar da faculdade, resolvi montar o IVI.

Como eram os animais em sua época?
Os bichos viviam muito pouco tempo. Uma média de três a cinco anos. Um cachorro com sete anos era muito velho. O cão mais velho que atendi durante o início da minha carreira era importado e por isso tinha todas as vacinas. Na faculdade tinha lá um banco de dados e as mortes aconteciam por Raiva, Cinomose, algumas doenças diferenciadas e atropelamentos.

Nessa época, com a aparição dos primeiros carros de fabricação nacional, os cachorros começaram a disputar a rua com o carro. Até então os cães viviam soltos. Era difícil,com as doenças e acidentes, muitos cães não conseguiam se recuperar. E pra vacinar esses animais, tínhamos que importar todas as vacinas.

Hoje a juventude trabalha com outras condições e os animais estão vivendo mais. Tudo isso mudou muito.

E vocês realizavam campanhas de castração?
Nós fomos um dos primeiros organizá-las. Ou pela USP, com a Rita Garcia [ex-diretora da ARCA Brasil], o pessoal todo. Inclusive eu ajudava nas castrações em gato e cachorro. Minha filha gosta dessa área e ainda realiza campanhas.

Hoje esta questão já melhorou, existe mais conscientização, mas ainda é preciso muito trabalho. Na escola nós procuramos passar a importância desse procedimento aos alunos.

Você falou da Rita Garcia, ex-diretora da ARCA Brasil. Como você vê o papel da entidade nessa questão?
A ARCA Brasil sempre nos ajudou, estava sempre conosco e nós também sempre apoiamos. A Anclivepa-SP, que eu ajudei a montar, também foi responsável por melhorar a vida da cachorrada.  Por esse órgão eu trouxe um médico do exterior com a terapia para combater a Parvovirose que teve um boom naquela época.

O senhor também foi agraciado, em 2004, com o título honorário de Veterinário Solidário (que o senhor exibe aqui no IVI). Para você qual a importância de projetos como esse, que dão subsídios técnicos e gerenciais aos profissionais que desejam incluir a responsabilidade social em seu cotidiano?
É uma responsabilidade que você recebe e não escreve.  Porque quando você pode apoiar, pode ajudar, você faz. Eu não tenho mais a capacidade de fazer mutirões, mas eu entusiasmo os mais jovens, eu dou idéias. Eu já estou naquela idade do “faz isso, faz aquilo”, já não posso mais trabalhar tanto como no início. Mas sempre demos atenção para essa questão colaborando de alguma forma. E felizmente eu tenho uma filha que gosta dessa área. Se deixasse ela destinava o Hospital da Rebouças só para fazer castração.

Ela também trabalha com essa parte de terapias com animais com a Hannelore fucks. Então Cleonice está dando continuidade a um trabalho que a gente sempre achou muito significativo.

Tem um pouco a ver com aqueles congressos da ARCA, não tem?
Sim, tudo foi ajustado de maneira bem consciente.  Eu acho a ARCA evoluiu bem. O pessoal da ARCA age de uma maneira boa e muito bem-vida.  O meu título [de Veterinário Solidário Honorário] está lá com meus quadros e prêmios.

É verdade que sua família é “integrada” também por um jumento?
Meu jumento é um jumento muito importante. Quando nasceu minha primeira neta, achei que deveria ter animal maior. Uma colega nossa veio dizer que ela tinha uma criação de jumentos e ele fica no sítio. É muito gozado porque ele foi criado com cachorros e quando eu chamo ele vem pulando como se fosse um cachorrinho, o Carlito é uma graça.
Ele toma conta do sítio, toma conta de todo mundo.  Faz malcriação quando eu demoro muito para ir pra lá e vira cara para mim. É um sem vergonha de marca maior. Eu cerquei o sítio, tem uma área pequena que é minha e o resto é dele. Quando vou para lá fico o dia todo com ele na varanda.

 

A ARCA Brasil presta sua homenagem a um dos personagens
mais importantes na relação homem-animal: o médico veterinário!

 

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