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Outubro de 2009

Segurem os peões
Presidente da ARCA Brasil relata a tentativa de forçar a volta dos rodeios em Guarulhos, cidade com uma das leis de proteção mais avançadas do país

Por Marco Ciampi

Quando fui procurado pelo combativo ativista Rodolfo Aliaga, membro-fundador e Conselheiro do Fórum Nacional de Proteção e Defesa dos Animais, para que a ARCA fosse representada em uma audiência publica que debateria os rodeios em Guarulhos, não imaginava que viveria um momento tão intenso.

Afinal, não parecia difícil defender o arquivamento do PL que propunha a volta dos rodeios àquele município, posicionamento já tomado (mas não oficializado) pelas comissões de Meio Ambiente, presidida pela vereadora Luiza Cordeiro e de Justiça e Redação, presidida pelo vereador José Luiz e defendida pelos principais jornais da cidade, o Diário de Guarulhos e Folha Metropolitana.

Guarulhos ganhou as atenções do movimento de proteção animal do país ao aprovar a Lei Municipal 6.033 – Lei de Controle de Zoonoses e Bem-Estar Animal do Município de Guarulhos, por sua ousada e abrangente legislação em favor dos bichos (saiba porque). A tentativa de tornar inválido o art. 26, que proíbe este tipo de espetáculos partiu do vereador Wagner Freitas, nada menos que um ex-locutor de rodeios para quem esses eventos são “manifestações artísticas e um incentivo a cultura do povo de Guarulhos”. O comentário equivale ao que devia se pensar nos tempos em que cristãos eram oferecidos às feras na arena para divertir as massas, panis et circenses.

Força bruta
Todo militante do movimento da proteção e defesa dos animais com alguma experiência sabe que o tema rodeio é sinônimo de emoções fortes. Aparentemente, os defensores dessa prática norte-americana parecem fazer questão de transferir aos debates os mesmos comportamentos truculentos e chulos que envolvem esses eventos – em especial seus bastidores.

As intervenções questionáveis do político dos rodeios tinham como efeito acirrar os ânimos e pareciam querer desestabilizar os demais membros da mesa. Lá estavam alguns pesos pesados da proteção animal neste tema, entre eles, Sonia Fonseca, Irvênia Prada e Vânia Tuglio. Uma dessas provocações foi combustível para um tumulto na platéia – repleta de homens com chapéus de cowboy - e só não gerou graves conseqüências pela intervenção dos policiais que acompanharam toda a sessão.

Entre os poucos favoráveis ao rodeio, estava o professor Tenório, conhecido defensor dessas provas que apresentou seus tradicionais argumentos. Entre eles o de que um animal sem o sedem também corcoveia, sem explicar porque os promotores não aceitam realizar as provas sem este artefato.

Expectativa de final feliz
Duas comissões já deram parecer contrário à tentativa de trazer de volta o rodeio, falta apenas o voto da Comissão de Saúde e Higiene, para quem o debate foi uma apresentação de argumentos favoráveis e contrários. Salvo momentos de nítida provocação, os debates transcorreram dentro do esperado e de forma democrática. A expectativa é de que Guarulhos siga a tendência mundial e preserve suas conquistas com relação aos direitos dos animais.

Posição da ARCA Brasil
A ARCA Brasil tem sua origem marcada por um episódio que se insere no mesmo capítulo dos rodeios, o uso de animais para diversão humana. A entidade, que nasceu com o nome Associação dos Amigos do Golfinho Flipper, foi criada por conta do projeto da libertação do último golfinho brasileiro utilizado em shows, na cidade de São Vicente, no litoral paulista. Na época, com o apoio técnico e financeiro da WSPA, o projeto foi coroado de êxito, mas exigiu um aparato sem precedentes até hoje no país para reabilitar e devolver ao mar aquele mamífero marinho (confira a história completa).

O diretor técnico da ação foi um ex-treinador de golfinhos norte-americano, Ric O’Barry, que anos antes havia feito fortuna treinando animais para a indústria cinematográfica, como os episódios Flipper e os filmes de James Bond. O’Barry me confidenciou que quando um de seus animais prediletos, uma fêmea, após ter sido aposentada da “vida artística”, em uma grande crise de consciência e ele jurou se dedicar a libertação de quantos golfinhos em cativeiro fosse possível, pelo resto de sua vida. Autor de livros, ele se considerava responsável pelo aprisionamento desses animais pelo mundo afora, ao passar a falsa imagem de que viviam felizes a saltar e divertir os humanos. A triste verdade, é que um golfinho pode viver até 50 anos em seu habitat, enquanto que em cativeiro essa média é reduzida para cinco anos.

Reconhecida no país e até fora dele por seu papel na consolidação da cultura em defesa dos animais no país, a ARCA Brasil, entre outros eventos internacionais, realizou três edições do Congresso Latino-Americano do Bem-Estar Animal, considerados verdadeiros marcos, onde todos os temas da proteção animal foram apresentados por mais de 120 especialistas nacionais e do exterior.

O Congresso de 2000 trouxe um acalorado debate sobre os rodeios, assegurando ao mesmo professor Tenório, de forma democrática e transparente (sem manobras de bastidores), um espaço inédito em encontros da proteção animal para que o defensor dos rodeios pudesse expor suas idéias. Talvez por isso, ele tenha citado meu nome como uma espécie de garantia aos trabalhos que ocorreram aquele dia em Guarulhos.

A ARCA Brasil é contra a exploração de animais para diversão humana ou onde envolva qualquer tipo de sofrimento com bichos. Se o que estava em discussão em Guarulhos era a utilização dos animais, porque então o município não mantém a vanguarda e realiza um grandioso evento, com maior potencial ainda de despertar o interesse do público? Grandes nomes do cenário artístico e opções verdadeiramente culturais sem utilizar animais não faltariam. Se a administração e empresários locais tiverem interesse, a ARCA Brasil e demais entidades somariam para tornar esse um acontecimento glorioso e de grande sucesso.

Dessa maneira, além de atrair investimentos para a cidade, seria mantida a recente, porém já sólida, tradição de respeito aos animais naquele município. Quem sabe até mesmo o prof. Tenório, que alega ser um dos principais combatentes da desumana prova do laço, não faz como Ric O´Barry e passa para o “lado de cá”?


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