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Especial: Comportamento
Latidos excessivos: todos saem perdendo
Proprietários desesperados, vizinhos irritados e animais estressados. Conheça os detalhes e saiba como evitar este sério problema
Fazer sujeira onde não deve ou comer o pé da cadeira afeta unicamente a família do animal. Ao contrário, latidos excessivos transpõem os limites da casa e incomodam todos ao redor. Se o seu cachorro é um desses “tagarelas” aprenda como evitar que ele ganhe a antipatia da vizinhança.
Quem nunca levou um susto com sonoros latidos ao passar na frente de uma casa? Ou então acordou no meio da noite porque os cães da vizinhança (ou os seus próprios) resolvem latir ao mesmo tempo? Latir é uma forma natural de expressão, mas em excesso podem se transformar num grave distúrbio comportamental que precisa ser tratado.
Para a proteção animal, a vocalização excessiva é um problema que vai além do barulho incômodo. Para as famílias que vivem em apartamentos, a simples pressão do condomínio é capaz de motivar o abandono do animal. Já quem vive em casa está sujeito a fúria e a crueldade de um vizinho que pode até envenenar seu amigão. Nas duas situações, quem paga o maior preço é o próprio bicho.
“Em um levantamento nos EUA, com uma amostra de 1.984 cães de abrigos, os latidos excessivos surgiram em 10o lugar na lista de razões para o abandono. O repúdio aos latidos incessantes é um distúrbio comportamental que pode, até mesmo, ser considerado ‘justificável’” aponta a Dra. Daniela Ramos, especialista em Comportamento Animal pela University of Lincoln (Inglaterra). O Brasil, segundo país com a maior população pet do mundo, ainda não tem uma pesquisa sobre a matéria.
A gravidade da questão está nas conseqüências negativas, como maus-tratos e abandono, por isso não menospreze o assunto. Latido excessivo é coisa séria. Antes de criar caso com os vizinhos ou dentro de casa, procure um médico veterinário especialista em comportamento animal e peça uma avaliação.
Ele (a) está latindo muito, o que faço?
Se engana quem acha que a culpa é do animal. A origem, geralmente está ligada ao proprietário que dá atenção ao cão quando ele late. “Se o dono não ensina o filhote a se controlar nem o estimula a desenvolver outra forma de comunicação, ele dificilmente irá entender que seus latidos incomodam” esclarece a Veterinária Solidária (LINK) e especialista em comportamento animal, Dra. Rubia Burnier, que completa “O pior é que ele vai usar esse recurso toda hora, principalmente quando estiver carente ou sozinho”.
Diante do problema, a primeira coisa a fazer é descobrir quando e por quanto tempo o seu animal late. Caso isso aconteça enquanto você está ausente, pergunte aos vizinhos o que eles ouvem ou vêem para conhecer melhor os detalhes.
Identifique o perfil do seu mascote e veja onde ele se enquadra. A Dra. Daniela divide os peludos falantes em dois grupos:
1- O menos grave, quando o cachorro late em situações específicas. “Ao avistar um estranho ele pode se exceder na freqüência e na intensidade, mas é capaz de se controlar de modo a não emitir latidos fora da determinada situação”.
2- Os mais preocupantes, aqueles que já perderam o controle sob a vocalização. “Os sons acontecem fora do contexto e mesmo na ausência de estímulos aparentes”, diferencia a especialista.
Nos dois casos os latidos podem sinalizar que o animal precisa liberar energia, está ansioso ou sente alguma ameaça ao próprio território. Depois de classificá-lo, é fundamental buscar as causas para o distúrbio. A ONG The Humane Society of the United States, referência naquele país,aponta os quatro principais motivos: 1- tédio ou solidão; 2- questão territorial; 3- medo ou fobia; e 4- ansiedade.
1- Tédio ou solidão: Fica sozinho por longos períodos de tempo. No ambiente não tem companheiros ou brinquedos. Tem menos de três anos e não tem outros meios para gastar energia. É de uma raça ativa, que precisa de uma ocupação para ser feliz. Recomendações: passeie com o cão pelo menos duas vezes por dia. O exercício ajuda fisica e mentalmente. Dê brinquedos e se divirta com ele (a), jogue uma bolinha ou frisbee. Ensine comandos ou truques básicos e pratique todos os dias. ----------------------------------------------------------------------------- 2- Questão territorial: O latido acontece na presença de intrusos (carteiros, crianças indo para escola, outros cães ou vizinhos). Quando estiver em casa e seu animal começar a latir, chame-o e pratique os comandos básicos de obediência (“Fica!”, “Senta!”, “Junto!”). Não esqueça de agradá-lo quando estiver comportado. Não incentive latir para os estímulos de fora. A esterilização também é recomendável, animais castrados tendem a latir menos. ----------------------------------------------------------------------------- 3- Medo ou fobia: Acontece quando ele é exposto a ruídos altos, como tempestades, fogos de artifício, ou barulhos de uma construção. Fique atento a postura do seu cão, orelhas para trás e rabo para baixo são sinais de medo. Recomendações: Identifique o que o assusta e trabalhe em sua dessensibilização. Você precisará de ajuda profissional durante o processo. Converse com o veterinário sobre medicamentos anti-ansiedade (florais), enquanto trabalha na modificação do comportamento. Deixe o animal em uma área confortável, você pode ligar a televisão ou um rádio. Evite mimá-lo para que ele não pense que está sendo recompensado pelo seu comportamento medroso. ----------------------------------------------------------------------------- 4- Ansiedade: Ele começa a latir logo após você sair de casa. A rotina da família sofreu alterações e agora ele passa mais tempo sozinho. Houve a morte de um membro da família ou ele passou um período em algum canil. Alguns casos de ansiedade podem ser resolvidos por meio de técnicas de dessensibilização. Para outros casos é indicado uso de medicação ou florais prescritos pelo veterinário. Informações baseadas no texto da The Humane Society of the United States |
Coleira da discórdia
Motivo de controvérsia para veterinários, adestradores e protetores, as coleiras anti-latidos dividem os especialistas. Para a Dra. Daniela, essa é uma maneira interessante de intervir diretamente no problema, mas alerta que a escolha deve ser bastante cautelosa. “É importante dizer que a coleira anti-latido, por melhor que seja não maneja bem o problema se aplicada sozinha” e indica “As mais recomendadas são as que emitem jatos de ar, inodoro ou com odor de citronela”, conclui a profissional.
Já para a Veterinária Solidária, Dra. Rubia Burnier, nenhuma coleira atua na raiz do problema do latido excessivo. “Mesmo a coleira com spray de citronela requer cuidados porque pode provocar reações alérgicasno pescoço do animal”. E ensina, “Antes de pensar em corrigir, temos que entender a causa. Hoje as pessoas não têm tempo e nem paciência para cuidar do bichinho, por isso buscam soluções rápidas e milagrosas. Reprimir os latidos causando medo ou desconforto pode até funcionar, mas o animal acaba não aprendendo nada com isso. Aprender a controlar suas emoções é tão importante quanto adaptar-se às regras do jogo”.
A ARCA Brasil não aprova as coleiras que utilizam choque, sons e a cordotomia (retirada das cordas vocais)> Na Inglaterra essa prática é proibida por não resolver o dilema e ainda trazer complicações de saúde para o animal. Antes de tomar qualquer atitude, consulte um bom profissional e respeite o bem-estar do seu bichinho.
Não existe uma saída simples e imediata para solucionar qualquer problema comportamental de cães ou gatos, e certamente a dedicação e o comprometimento dos donos será decisivo. Para os mais radicais um aviso: qualquer cachorro late, uns mais do que outros, mas lembre-se que essa é a maneira que eles se comunicam com o mundo - o fundamental é reconhecer os excessos e garantir a qualidade de vida do bicho.
(*) Acompanhe na próxima edição do Notícias da ARCA a segunda parte dessa matéria, com as conseqüências dos latidos excessivos em condomínios e com a vizinhança.
Mais informações:
Dra. Rubia Burnier: www.espacoanimal.com.br
Dra. Daniela Ramos: www.psicovet.com.br
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