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Agosto 2010
Entrevista
Você sabe o que é medicina veterinária do coletivo?
Conheça a área que pode garantir a saúde dos milhares de animais que vivem em abrigos e centros de zoonoses do país.
Vivemos um caos, os Centros de Controle de Zoonoses não dão conta da dimensão do problema, os abrigos estão superlotados – vide o caso da SUIPA no RJ (LINK) –, e o abandono nas ruas só aumenta. Ou seja, o momento não podia ser mais preciso. Como tornar mais digna a vida de milhares de animais em um dos cenários mais tristes para a proteção animal: os abrigos para cães e gatos?
Essa é a proposta da Conferência Internacional de Medicina Veterinária do Coletivo, que acontece nos dias 14 e 15 de agosto na cidade de São Paulo. Organizado pelo ITEC - Instituto Técnico de Educação e Controle Animal, com o apoio da ARCA Brasil, o evento busca novos rumos e desfazer o crença de que cão e gato só precisam de teto, água e ração. Esse é o momento de enfrentar a realidade, maquiar o problema não ajuda os animais.
Há 17 anos a ARCA defende a transparência da informação, a conscientização como o único meio para diminuir o problema, e aposta no médico veterinário como um dos principais agentes dessa mudança. Sempre em busca de novidades que possam ajudar os animais, a entidade entrevistou a coordenadora do ITEC, Dra. Rita de Cássia Garcia – ex-diretora da ARCA Brasil e responsável pelo evento.
1. A Conferência tem como meta traçar diretrizes técnicas para os responsáveis pelos abrigos de cães e gatos?
Dra. Rita: É uma construção participativa de uma nova área que tem intersecção com outras áreas da medicina veterinária e outras profissões. Serão apresentados exemplos de ações internacionais e brasileiras, mas a idéia principal é que cada abrigo ou CCZ reconheça suas peculiaridades, virtudes e limitações nas diferentes áreas (estrutura física, recursos humanos, recursos materiais), e tente encontrar os melhores caminhos para alcançar os objetivos, tendo em vista a promoção da saúde na sua comunidade e o bem-estar dos animais.
2. A conferência acontece em um momento histórico: a demanda aumentou muito em função da lei que proíbe a eutanásia de animais sadios e a SUIPA (um dos mais tradicionais e maiores abrigos que se tem notícia) vive uma crise sem precedentes, embora conte com 155 funcionários sendo 30 deles veterinários. Como levar saúde a um ambiente como este?
Dra. Rita: É um momento de reflexão. Avaliar o que foi feito, erros e acertos. Abrigos e CCZ’s que mantêm animais são o reflexo de um problema crônico da nossa sociedade e que não diz respeito apenas aos animais. Está relacionado com as condições culturais, sócio-econômicas, religiosas, sociais de cada comunidade.
Enquanto não participarmos as comunidades, reconhecendo as suas características, lideranças, e oferecendo informações para que ela possa formar uma opinião sobre o assunto do abandono, entender que ela foi responsável em "construir" o problema e que deverá se envolver na solução, não vamos a lugar nenhum. Não bastam as campanhas de castração. Precisamos de mais pessoas envolvidas, resumindo: a chave está na participação social.
3. Qual é a sua visão técnica sobre os abrigos brasileiros? No seu ponto de vista eles conseguem seguir os preceitos do bem estar animal?
Dra. Rita: Não há nenhum que seja perfeito, nem aqui nem em outro país. Principalmente se pensarmos que o melhor lugar para um cão ou gato que já teve um lar é outro lar.
Muitos podem ter aspectos positivos de infra-estrutura, funcionários capacitados e recursos para atendimento das necessidades básicas dos animais. Mas se não tiverem programas fortes de divulgação da guarda responsável, adoção e não trabalharem em sua comunidade em conjunto, com envolvimento de diferentes setores, podemos falar que estão restritos ao problema do abandono.
Infelizmente, muitos ainda acreditam que basta oferecer abrigo, alimento e água. E não basta. Isso não é tudo. Precisamos cuidar da saúde mental deles, de compreendê-los como espécie e poder oferecer o que necessitam para praticarem a sua naturalidade, prevenindo doenças, investindo na sua saúde para que um dia possa ter um lar que o mantenha até o final da sua vida.
4. Por que o ITEC resolveu abordar esse assunto?
Dra. Rita: Faz parte do trabalho que o ITEC vem realizando desde 2004 para a humanização dos serviços de controle de zoonoses e de controle animal, com foco na saúde única onde meio ambiente, ser humano e animal são levados em consideração em cada ação.
O fato de três estados brasileiros não poderem mais sacrificar animais sadios faz com que a medicina veterinária na área de saúde publica e controle animal aponte para novos caminhos antes não percorridos. Cuidados com a saúde física, mental e comportamental são fundamentais para se trabalhar a reintrodução desses animais na sociedade em forma da adoção. A medicina veterinária do coletivo reúne todos esses temas, sendo uma área de intersecção.
5. A Dra. acredita que os nossos veterinários ainda não estão preparados para lidar e atender no coletivo? Por quê?
Dra. Rita: Não há disciplinas nos cursos do Brasil que abordem essa questão. Outro fator é que os veterinários que se dedicavam à saúde pública não tinham prática em clinica veterinária. Com a nova realidade, precisamos de um novo perfil e outros profissionais, como assistentes sociais, psicólogos, etc. Hoje, há necessidade de clínicos veterinários, cirurgiões, etólogos, trabalhando em um CCZ onde o sacrifício de animais sadios não acontece mais, e não apenas do veterinário sanitarista.
6. A medicina do coletivo é capaz de atuar em cenários mais caóticos, como a maior parte dos abrigos e centros de controle de zoonoses do Brasil? Quais são os métodos indicados?
Dra. Rita: Não existe uma fórmula mágica para resolver o problema da superlotação dos abrigos e da demanda da sociedade em ter mais abrigos. Existe um conhecimento consolidado em bem-estar, comportamento, controle, entre outros que deve ser adaptado a cada CCZ, abrigo e cidade para melhorar as condições de vida dos animais, a segurança dos funcionários e manter as zoonoses sob controle. O método indicado é capacitar, levar o conhecimento, compartilhar e construir no coletivo.
7. Quais problemas de saúde esse trabalho coletivo é capaz de evitar dentro de um abrigo ou um CCZ?
Dra. Rita: No primeiro ponto, ter um equilíbrio entre a entrada de animais e a saída. Ter programas de adoção com acompanhamento dos animais, seleção das famílias e avaliação para que o animal não volte a ser abandonado. No aspecto preventivo, ter um programa de vacinação, desverminação, controle de ectoparasitas, etc. Ter quarentena de animais novos ou que estão doentes e criar um fluxo no local para se evitar que as doenças se disseminem. O trabalho coletivo envolve toda a comunidade e os problemas que acontecem na relação com os animais.
9. O que o participante pode esperar da conferência?
Dra. Rita: A idéia principal é introduzir o tema trazendo discussões que na prática auxiliam o profissional a realizar mudanças no seu local de trabalho. Por exemplo: Como construir um canil ou gatil levando em consideração o bem-estar dos animais e a segurança dos funcionários? Quanto se deve castrar para controlar a população animal em uma comunidade? Como fazer investigação de crimes contra animais? Como fazer programas efetivos de adoção? Animais comunitários: como trabalhar com eles?
Mais informações: http://www.itecbr.org
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