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Bookmark and Share Setembro 2010

Agonia no litoral
O encalhe de uma baleia franca no litoral de Santa Catarina chama a atenção para as condições desses animais

Uma baleia da espécie franca foi encontrada na manhã do feriado de 7 de setembro entre as praias de Itapirubá e do Sol em Laguna, no litoral sul de Santa Catarina. A polícia ambiental foi alertada por pescadores da região.

O cetáceo – um dos maiores gigantes dos mares – pesava cerca de 40 toneladas e media mais de 15 metros, mesmo não tendo ainda atingido a idade adulta. Estava encalhado a 12 metros da praia e cerceado por um banco de areia, o que dificultaria qualquer procedimento.

O animal foi diagnosticado como doente por veterinários e biólogos marinhos do governo. Apresentava ciamídios, uma espécie de “piolho de baleia”, pelo corpo todo, o que poderia indicar uma série de infecções. O Sargento da Polícia Ambiental José dos Passos Lúcio foi um dos primeiros a chegar ao local e constatou os poucos movimentos da baleia. Coordenando a equipe, o sargento comunicou que o primeiro procedimento de resgate seria realizado na quarta feira, dia 8, quando a maré estivesse alta, já que esta seria a única chance de retirar o animal do local.

Além da própria polícia ambiental, especialistas do Projeto Baleia Franca (PBF), que atua na preservação e estudos dessa espécie, foram contatados. Trabalhando em conjunto, chegou-se à conclusão que a remoção do animal seria impossível, pelos riscos às embarcações envolvidas e também por conta da debilidade da própria baleia. Optou-se, então, pela eutanásia.

A área foi isolada e veterinários e biólogos monitoraram as perdas de sinais vitais do animal, até que o primeiro procedimento de eutanásia foi realizado, no início da noite do dia 10. De acordo com Karina Groch, bióloga e diretora de pesquisa do PBF, o óbito era esperado para 40 minutos após o término do processo, mas passadas 24 horas o animal ainda resistia, respirando com dificuldade, sem mexer o corpo e com sangramentos na pele, devido ao atrito com a areia. Karina afirmou que a dose aplicada ao animal era muito superior à indicada, por conta de seu tamanho, mas, como não funcionou, a morte natural seria aguardada. Muitas ONGs e projetos se uniram para manter sua pele úmida, garantindo assim um mínimo de dignidade. Enquanto aguardavam, amostras de pele e de ar expelido pelos pulmões foram colhidas para os estudos sobre os motivos do encalhe.

Na tarde de segunda feira, dia 13, seis dias após o animal encontrado, decidiu-se por um novo processo de eutanásia. Altas doses de medicamentos, diferentes dos ministrados da primeira vez, foram aplicadas. Finalmente, no início da madrugada de terça-feira, duas horas após o início dos procedimentos, o animal foi tido como morto. Dois tratores realizaram a remoção da carcaça, sendo anunciado que uma autópsia será feita, ainda esta semana, por todas as ONGs e institutos envolvidos nos trabalhos.

Algumas considerações
O termo eutanásia vem do grego, e significa “boa morte”. Pressupõe-se, portanto, que o procedimento deva ser adotado com o intuito de minimizar o sofrimento de um ser vivo, esgotadas as chances de salvá-lo ou garantir sua qualidade de vida.

Ao que tudo indica, este era o caso da baleia encalhada em Santa Catarina. No entanto, o episódio pode denotar despreparo técnico ou demora em ministrar a segunda dose da medicação letal, impondo mais desconforto ao cetáceo, que, ao todo, padeceu durante sete dias.


Aumento na quantidade de baleias no litoral brasileiro
O episódio é bastante triste quando se pensa no sofrimento da baleia, mas aparentemente essa é a hora de as autoridades e ONGs abrirem os olhos e pensarem no futuro.

Setembro é conhecido como o mês de pico no registro desses cetáceos no litoral sul do Brasil, região tida como berçário para a espécie, mas a concentração este ano foi excepcional e um monitoramento mais atento começou a ser realizado.

Comumente 10 ou 15 baleias francas são contabilizadas, mas no primeiro monitoramento aéreo divulgado este ano, ocorrido após o episódio do encalhe, mais de 100 baleias foram avistadas – sendo duas albinas – e num único dia. A causa do aumento incomum será estudada.

Por que ocorrem encalhes de baleias e golfinhos?
De acordo com o Centro de Estudos sobre Encalhes de Mamíferos Marinhos (CEEMAM), essas ocorrências podem ser creditadas a:
- Problemas individuais: fuga de predadores, perseguição a presas perto da costa, doenças e distúrbios de localização em águas rasas.
- Problemas ambientais: interferência geomagnética, que provoca erros de navegação; condições complexas dos mares e do relevo submarino; condições meteorológicas adversas.
 
Os órgãos ambientais e demais entidades envolvidas no episódio não se manifestaram, até agora, sobre possíveis mudanças de protocolo em casos semelhantes que venham a ocorrer futuramente. Dessa forma, caberá à sociedade cobrar maior celeridade e eficiência dessas instituições caso situações dramáticas desse tipo voltem a acontecer.



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