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Setembro 2010
Vacina antirábica distribuída pelo Ministério da Saúde já causou a morte de pelo menos 79 animais
Apesar da tragédia, a campanha 2010 só foi suspensa no estado de São Paulo. Enquanto isso, milhares de animais pelo Brasil podem sofrer as consequências da irresponsabilidade dos órgãos públicos
A campanha anual gratuita de vacinação antirrábica, colocou em risco a vida de milhares de cães e gatos em 2010. Até o momento, 79 óbitos foram notificados ao Ministério da Saúde pelos estados de SP, RJ e RN, e pelo menos 2.627 registros de reações adversas, como convulsões, hemorragias, vômitos e dores localizadas, em animais imunizados entre agosto e setembro. Durante todo o ano de 2009, somente 53 casos de reações desse tipo foram registrados, o que representa um número 177 vezes maior de problemas na campanha deste ano do que no exercício anterior.
Segundo o jornal Folha de S. Paulo, Guarulhos e São Paulo foram os municípios com maior incidência de reações adversas. Nessas localidades, o lote de vacina utilizado foi um só, o de número 59/10. Os órgãos públicos responsáveis pela vacinação aguardam a análise dos materiais e a conclusão dos laudos para definirem os rumos da campanha.
Enquanto a sociedade aguarda respostas, o deputado federal Ricardo Tripoli enviou ofício ao Ministério da Saúde solicitando dados referentes à vacina, tais como os critérios para aquisição dos lotes utilizados e a existência ou não de testes prévios que atestassem a qualidade dos produtos. Em resposta ao Forum Nacional de Proteção e Defesa Animal, a Coordenação do Programa de Controle da Raiva, de responsabilidade do Instituto Pasteur (SP), esclareceu que não há data prevista para retomar as atividades, não sendo descartada a hipótese de suspensão da campanha este ano. “Os proprietários estão sendo orientados a procurar clínicas e hospitais particulares, além das Faculdades de Medicina Veterinária” informa Maria de Lurdes Reichman, em nome daquela instituição.
Por ora, sabe-se que a vacina de cultivo celular produzida pelo laboratório Biovet, considerada bastante eficaz do ponto de vista imunológico, foi utilizada pela primeira vez na campanha gratuita. Suspeita-se também que os problemas tenham sido provocados pelo diluente da vacina, que é armazenada em frascos de 25 ml (suficiente para 25 aplicações) e necessita do acréscimo de outras substâncias para uma manutenção e conservação seguras.
Enquanto não houver provas conclusivas de imperícia ou irresponsabilidade por parte dos órgãos públicos, não se pode fazer acusações. No entanto, é alarmante constatar que, à exceção de São Paulo, nenhum outro estado suspendeu a aplicação das vacinas. O Rio de Janeiro foi um dos únicos estados que decidiu adiar a terceira fase da campanha para o dia 16 de outubro por ter constatado reações sintomáticas em trinta por cento dos 170 mil animais vacinados no início de agosto. Ou seja: milhares de cães e gatos estão em risco pelo país, e a situação tende a se tornar ainda mais crítica em regiões carentes, onde a população tem pouco acesso à informação e o atendimento veterinário é escasso ou mesmo inexistente.
A importância da vacinação
As notícias desastrosas da campanha este ano podem gerar outro problema para os bichos: a desconfiança de seus donos, que podem simplesmente desistir de levá-los a tomar vacinas. Isso representaria um enorme retrocesso para a saúde pública e para o próprio bem-estar dos animais.
A vacinação é imprescindível no combate à raiva, cuja letalidade é de 100%. Todos os mamíferos estão suscetíveis a tal zoonose, transmitida por um vírus de ação rápida, e as campanhas públicas gratuitas, realizadas há décadas no Brasil, já asseguraram sua quase erradicação entre os pets, sobretudo no meio urbano. Porém, por não ser possível imunizar animais silvestres, como o morcego, a ameaça persiste. Alguns anos de relaxamento podem ser o suficiente para que o gravíssimo problema retorne com toda intensidade. Aliás o perigo está eminente: após três anos de omissão, o Ministério da Saúde revelou um caso de raiva humana no interior do Ceará provocado por mordida canina.
Em um período como o atual, em que a sociedade se mobiliza para lutar contra a eutanásia de animais saudáveis nos centros de controle de zoonoses e para promover a adoção dos abandonados, isso seria um grave retrocesso, e comprometeria anos de trabalho árduo das ONGs protetoras, condenando um número incalculável de cães e gatos à morte.
Vale ressaltar a importância das campanhas gratuitas em um país como o nosso, de dimensão continental e imensa desigualdade socioeconômica. Ainda são poucos os brasileiros que vacinam seus animais em clínicas particulares. “Não podemos perder a cultura de imunizar nossos animais”, afirma Marco Ciampi, presidente da ARCA Brasil. “Se a saúde pública não apresentar soluções efetivas para que a campanha antirrábica ocorra de forma segura, as ONGs vão se mobilizar fortemente, como, aliás, já ocorreu em ocasiões anteriores. Não podemos fechar os olhos a esse absurdo, e além da correção de rumos, vamos exigir também que os responsáveis sejam punidos”, acrescenta.
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