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Abril 2011

Grávidas e gatos: uma relação delicada
Episódio em novela envolvendo o tema da toxoplasmose prejudica a imagem dos felinos e pode agravar o abandono desses animais Bookmark and Share

da redação do Notícias da ARCA

 

Um episódio da novela Insensato Coração da Rede Globo no mês de abril movimentou os setores da proteção animal. No capítulo a atriz Camila Pitanga, que faz papel de grávida, declara não poder chegar perto de uma gata no capô de seu carro, pelo risco de se contaminar com toxoplasmose. A sequencia da cena mostra Lázaro Ramos, que interpreta o pai da criança, pesquisando sobre a doença na internet. Até o momento, a novela não apresentou o resultado da “pesquisa” do personagem, mas teme-se que o estrago já tenha sido feito, com ameaça de abandono para muitos felinos.

Devido à proporção que o caso tomou, o Notícias da Arca entrevistou um dos maiores especialistas brasileiros nesta questão, o infectologista Dr. Vicente Amato, além da Veterinária Solidária Dra. Vanessa Muradian, que defendeu tese de mestrado sobre o tema, entre outros depoimentos. Confira.

Notícias da ARCA: O que é a toxoplasmose e porque está tão associada aos gatos?
Vicente Amato: A toxoplasmose é uma doença infecciosa, causada por um parasita denominado Toxoplasma gondii. Ela se tornou mais conhecida e entrou na atividade clínica rotineira a partir dos anos 50. Vários cientistas brasileiros trouxeram contribuições muito significativas para o conhecimento da doença.
O protozoário vive em vários animais, de várias espécies. Durante uma certa fase, o parasita passa o ciclo no intestino de vários tipos de felinos, evidentemente o que é mais comum entre nós é o gato. A pessoa se infecta através do contato com as fezes do gato.

NA: Como se dá transmissão?
Amato:
A maneira mais comum de transmissão é por meio da ingestão de carnes contaminadas de diversas origens, como bovina, de cabrito ou cordeiro.
Outra via de contágio é o contato com certos tipos de animais. O gato infectado carrega o toxoplasma no intestino, eliminando uma forma do parasita pelas fezes. O contato com essas fezes e a ingestão do parasita pela via oral (*), leva a ocorrência da toxoplasmose.
Outra forma de transmissão é de mãe para filho. A mãe adquirindo a infecção durante a gravidez, pode transmitir para o filho, o que comumente provoca lesões graves.

* Nota da edição: evidentemente, graças à falta de hábitos básicos de higiene, como lavar as mãos

NA: Como saber se houve transmissão?
Amato:
O número de pessoas que adoece é muito grande, e com freqüência as pessoas nem sabem que adquiriram a doença. É o exame de sangue que pode mostrar a existência dessa infecção.
A manifestação da doença normalmente parece muito com imunonucleose infecciosa. Alguns médicos diagnosticam como essa doença e depois percebem que é a toxoplasmose.
Outra coisa importante é que existe tratamento, às vezes é um pouco demorado, mas existe tratamento. E as pessoas que não tem as formas muito graves podem ficar perfeitamente bem após o tratamento.

NA: Como as grávidas devem se proteger?
Amato:
Em relação às mulheres grávidas, é recomendável que se faça um exame de sangue antes da gravidez. Algumas mulheres já foram infectadas, portanto não poderão transmitir para os filhos. Se elas forem negativa, ou seja, nunca tiveram infecção por esse parasita, deve haver maior cuidado durante a gravidez.

NA: Como as pessoas que convivem com gatos podem se proteger?
Amato:
O gato, quando se infecta, tem a possibilidade de transmitir só durante um período, enquanto o parasita tem essa passagem pelo intestino do animal, depois ele não é mais transmissor. É muito difícil saber quando um gato esta nessa situação, pois, obrigatoriamente ele não adoece.

Portanto, para evitar o contagio, os procedimentos de prevenção são: não ingerir carne crua ou mal passada e ter cuidado no convívio mais íntimo com os gatos, com atenção especial para a própria higiene.

 

***

 

Depoimento de Vanessa Muradian, Doutora em Medicina Veterinária, assunto de tese -  Toxoplasma em roedores urbanos:
“De início, podemos entender que não se contrai toxoplasmose apenas pegando um gato no colo, ou passando a mão nele. O maior risco de infecção pelo toxoplasma ocorre por má higiene pessoal e de alimentos.

Se você está grávida e tem um gato em casa que pode ir pra rua e se infectar, o melhor a fazer é usar luvas para limpar a caixa de areia dele ou, melhor ainda, pedir para outra pessoa limpar (que tal o maridão?). Evite ao máximo ingerir carne crua ou mal passada ou frutas e verduras de origem duvidosa. Melhor confiar naquilo que você mesma lavou.

Agora, se seu gato não vai pra rua e só come ração comercial, fique tranquila. Aproveite o carinho do bichano e, quando o bebê nascer, ensine-o desde cedo a respeitar e curtir a companhia dos animais.”

 

Depoimento da jornalista Sílvia Lakatos Varuzza, 40, mãe de Arthur, 2:
“Sempre convivi com gatos. E, quando falo que convivi, não me refiro a uma coisinha básica, do tipo “um ou dois gatinhos por vez”... Falo de abrigar dezenas de felinos, de pegar gato doente, atropelado, com verme, sarna, virose, giárdia...

Aos 38 anos, sem planejar, descobri-me grávida. Comecei a fazer o pré-natal e logo deparei com o preconceito e desconhecimento da classe médica.

Em primeiro lugar, todos os meus exames estavam perfeitos. E a sorologia para toxoplasmose foi negativa.  Ou seja: a despeito de sempre ter tido uma relação estreitíssima com os seres miantes, eu nunca havia sequer mantido contato com o toxoplasma. Ainda assim, o obstetra ficou me atazanando com observações do tipo “evite contato com gatos”. E, pior ainda, me pediu a mesma sorologia várias vezes durante aqueles nove meses. Como se, depois de passar quase quatro décadas sem me infectar, eu fosse pegar a doença JUSTAMENTE durante a gravidez...

Mas o fato é que eu estava preparada para enfrentar a pressão, e detinha informações de sobra para não me apavorar com o terrorismo exercido pelo médico. O que me entristece é saber que muitas mulheres enfrentam situações semelhantes, e sem possuírem a mesma bagagem de que eu dispunha, acabam se desfazendo de seus animais.
Eu discuti muito com os médicos que me atenderam ao longo da gestação. Para todos, enfatizei quão ínfimas seriam as chances de alguém se contaminar pelo simples contato com gatos – e argumentei que os riscos de adquirir uma patologia desse naipe ingerindo vegetais mal lavados e carne crua ou malpassada são muito, muito maiores! Receio, porém, ter encontrado apenas ouvidos moucos...

Meu filho nasceu em 19 de setembro de 2010. O Arthur é perfeito e saudável, tem um astral ótimo e já curte observar atentamente os gatos que moram conosco. Eu, ele, meu marido e os moradores de patas e pelos de nosso modesto apê formamos aquilo que se chama ‘uma família feliz’.

Miau!”

 

***

 

Depoimento de Fernanda Kerr, médica veterinária e proprietária da clínica e Pet Shop “Entre Patas e Pelos”:

 “Sou proprietária de um pet shop e de cinco gatos, convivo com muitos outros diariamente, a maioria resgatados das ruas. Por indicação de minha médica ginecologista, faço o teste para toxoplasmose anualmente e, em dez anos, nunca tive um resultado positivo.

Não consigo entender o motivo de tantos médicos indicarem para suas pacientes que se afastem dos bichanos por estarem grávida e, ao mesmo tempo, não indicam que a paciente evite comer em qualquer lugar e não ingira carne crua, uma vez que a infecção através do gato não é a forma mais comum.

Infelizmente, algumas clientes “gateiras de carteirinha”, aparecerem em seus estabelecimento querendo doar seus gatinhos, pois estavam grávidas e o médico recomendou. Eu tento argumentar, falo para que ela busque opiniões de outros médicos, mas mesmo assim elas optam por doar.

Isso ilustra como um medo exagerado, que já causou o abandono de muitos animais, pode agravar esse quadro ao ser mal explicado em rede nacional”.

O Notícias da ARCA entrou em contato com a Rede Globo a respeito desse episódio e rapidamente recebeu uma resposta em que a empresa afirmava que não é função da novela informar, e que outros programas com teor jornalístico iriam veicular informações sobre o assunto. De fato, o programa Bem Estar, também de abril, abordou o tema da Toxoplasmose, mas ainda de forma incompleta e confusa.
A questão que fica é: como será o desenrolar dessa situação? Será simplesmente esquecida em meio a tantos outros conflitos da trama de Gilberto Braga, ou a Rede Globo produzirá um episódio com informações completas e esclarecedoras?
Enquanto isso não acontece, quantos bichanos terão sido abandonados?

Escreva para a Rede Globo perguntando e dê a sua opinião:
http://falecomaredeglobo.globo.com/

 

 

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