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Julho 2011

Animais que mudam vidas
A partir deste mês, o Notícias da ARCA traz testemunhos desses encontros cheios de emoção e ensinamentos. O primeiro deles é o da arquiteta Isabela Esquivel e do cãozinho Xico

da redação do Notícias da ARCA

Os animais, muitas vezes, operam verdadeiros milagres. Não é raro ouvir histórias de pessoas que tiveram suas vidas mudadas depois de passar a conviver com os bichos. São relatos de superação, de cumplicidade, de transformação ou de “simples” amizade.

A partir deste mês, o Notícias da ARCA trará, em algumas edições, testemunhos desses encontros cheios de emoção e ensinamentos de uma interação já descrita como “o mais forte laço entre espécies da natureza”. O primeiro deles é o da arquiteta Isabela Esquivel e do cãozinho Xico, uma história onde é difícil saber quem, na verdade, foi “resgatado”.

O resgate da minha vida
"Fazia uma linda manhã em Santos e eu me preparava para uma reunião de trabalho em São Paulo, que seria às 13hs, quando senti uma estranha inquietude – um chamado do coração? – que me fez antecipar a viagem. Saí de casa cerca de 10hs da manhã, pensando por que raios triplos eu interrompera uma agradável reunião de negócios em Santos para me antecipar tanto a outra, em São Paulo, esta bem chatinha e entediante.


Há uns 17 km antes de chegar a capital vi, encostado ao muro de concreto da pista um pequeno cão ofegante, com um palmo de língua pendurada e olhos arregalados que olharam os meus, por uma fração de segundo. De golpe, olhei pelo retrovisor e vi que ele, sem se mexer, ia ficando para trás, cada vez menor e mais indefeso. Quando processei a cena, temi que ele fosse atropelado pelo próximo carro. ‘Impossível não voltar!’, pensei.

Procurei o primeiro retorno – foram os quilômetros mais intermináveis que já percorri! – e, quando consegui, logo avistei uma manchinha escura, à esquerda, que tomava forma. A mesma língua enorme, o mesmo par de orelhas em plena atenção.
Desci do carro, tirei os sapatos de salto escolhidos para minha reunião chatinha e fui em direção a ele, sem pensar em outra coisa que não fosse salvá-lo. Quando cheguei, acariciei sua cabecinha, tentando mostrar que ele não estava mais só.
Em poucos minutos apareceu uma viatura da Ecovias e pedi ajuda. O moço(*) que dirigia parou, atravessou a pista em minha direção e, antes de qualquer ajuda, me puxou a orelha ao ver meu carro esparramado no canteiro central. Então, calmamente, munido de luvas de couro bem grossas, foi em direção ao cãozinho e, com o cuidado e a prática de quem já passou por muitas situações desse tipo, o levantou pelas axilas.

Abri a porta e ele colocou o camarada no assoalho, atrás de meu banco. Lembrei da veterinária que cuidava dos cães de minha filha e dirigi para lá imediatamente.

Ao chegar à clínica, na Vila Madalena (Zona Oeste de SP), entrei correndo gritando: ‘Marina, Marina?’. Quando a encontrei, segurei sua mão e disse que tinha trazido um cão que encontrara atropelado na Rodovia dos Imigrantes, e ela, pra meu espanto, perguntou: “É um preto?”.

- “Sei lá se é preto, Marina, nem consegui olhar direito pra ele ainda!!” Quando confirmou que era o mesmo animal, foi a vez dela suspirar. “Vi esse cãozinho na Imigrantes, não consegui parar e vim pra clinica com o coração apertado!”. O bicho era mesmo um predestinado...


O diagnóstico prévio foi de uma pata traseira quebrada e, possivelmente, também o quadril. Finalmente, olhei no relógio e vi que AGORA estava na hora de ir para a reunião.  Sabendo que o bichinho estaria bem, me dirigi ao local – onde cheguei pontualmente. Entrei na sala, cumprimentei as pessoas, sentei e, enquanto retomava o ritmo, fui lembrando das cenas que acabara de viver. De repente, ficou claro por que havia saído tão cedo de Santos: “Foi pra salvar o Xico!” Sim, a essa altura ele já tinha um nome – e era com ‘X’ mesmo.

Nunca fui tão rápida e eficiente em uma reunião. Com um alivio na alma, sai como quem vai pegar o neto na maternidade. Ali nascia meu mais novo companheiro, a mais nova (e deliciosa) parceria da minha vida!


Depois de uma cirurgia e cinco pinos, foram meses de tratamento e pequenas caminhadas, que ficaram mais longas à medida que ele se recuperava. Com aqueles pinos fixados quatro dedos para fora, não havia um que não me parasse pra perguntar o que era aquilo com meu cãozinho. Contei dezenas, centenas de vezes, fazia questão de afirmar que um animal atropelado podia, sim, ter um final feliz. Quem sabe alguns dos ouvintes teriam a coragem de parar pra ajudar mais um.

Hoje é ele que me leva a caminhar todos os dias. Não viajo mais sozinha, não como mais sozinha, não durmo mais sozinha. Agora sempre saio para passear, para me cuidar e ser cuidada. Perdi 3 quilos, minha pressão arterial abaixou, ganhei músculos nas pernas, maior disposição, mais fôlego, minha memória melhorou. Fiz novos e solidários amigos, que possuem interesses comuns, causas em comum, pessoas mais saudáveis.



Apesar de ser santista, e ter passado boa parte de minha vida aqui, graças ao Xico hoje vejo minha cidade por muitos e infinitos ângulos. Este camaradinha, pequeno só no tamanho, transformou a minha vida!

Foi assim, aos poucos, que cheguei a uma outra e intrigante conclusão: “A resgatada fui eu.

 

Obrigada, Xico Esquivel!
Obrigada por me dar a honra de fazer parte de sua vida!”

(*) Marcos A. Cirino, como depois descobri, é o nome desse profissional exemplar da Ecovias -- meu mais recente herói moderno!

 

 

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