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Outubro 2011

Cachorra do mato, não da cidade
Espécie silvestre mantida em local impróprio pode voltar ao habitat natural. ARCA Brasil intermedeia possível solução para o caso

da redação do Notícias da ARCA

“Que cachorro estranho...”, foi a primeira coisa que veio a mente de Julio C. Moreira, ao cruzar aquele animal que perambulava próximo à linha de trem, em Araraquara, cidade do interior paulista. Mal sabia ele tratar-se de um cachorro – no caso, de uma cachorra – do mato (Cerdocyon thous), nem que seria o guardião do bicho, batizado de Brasinha, por quase dois anos.

Por se tratar de um animal silvestre, Julio procurou o IBAMA, que até tentou, por duas vezes, devolve-lo ao habitat de origem – nas duas ocasiões, em menos de 15 dias lá estava Brasinha de volta. O paciente guardião ainda procurou dois zoológicos, mas ambos recusaram acolher a cachorra alegando que a espécie “não atrai visitantes”.

Brasinha recebeu esse nome de um veterinário da cidade, quando foi encontrada com o pelo e o corpo chamuscados, provavelmente devido às queimadas nos extensos canaviais da região, que fazem muitas vitimas entre a fauna silvestre. Não demorou muito a pequena ganhou fama e despertou a curiosidade dos vizinhos, que queriam vê-la – o que fez com que Julio fecha-se o muro da casa para não assustar o bicho com toda aquela gente.

O surgimento de animais silvestres nas cidades não é fato raro e pode estar aumentando. De acordo com a veterinária da ONG Mata Ciliar, Dra. Cristina Harumi Adania, isso se deve porque o homem vem invadindo o habitat desses bichos, com desmatamentos e queimadas. “Algumas espécies, como a onça, por conta da rivalidade entre machos, precisam andar muito para encontrar uma área que reúna condições para sua sobrevivência, por isso acabam chegando a áreas urbanas”, explica.

Hoje o animal vive em um terreno de mil m² e tem à sua disposição uma casa desocupada, onde dorme. A sua alimentação é à base de frutas e ração para cachorro. “No início agi por dó, mas o tempo foi passando e eu continuei cuidando do bicho. Ela é muito dócil, chega a chorar quando fica sozinha”, conta Julio. No entanto, há algum tempo a cachorra vem apresentando sinais de estresse, o que também o motivou a procurar a ARCA Brasil.

Para o veterinário e professor de doenças parasitárias da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ-USP), Dr. Marcelo Bahia Labruna, o quadro não desperta maiores preocupações. “O cachorro do mato não tem grandes exigências, se adapta a diferentes tipos de alimentação, como um cachorro doméstico”, explica Dr. Marcelo.

Porém a Dra Cristina Harumi discorda. Para ela, o cachorro do mato não consegue se adaptar a vida urbana e pode causar, inclusive, acidentes. “Essa cachorra foi condicionada desde pequena a conviver com o homem, mas, quando ficar mais velha, poderá mudar seu comportamento e vir a causar algum acidente”, fala a Dr. Cristina se referindo a Brasinha.

Segundo a veterinária da Mata Ciliar, o melhor para o animal é sua reabilitação à floresta. “Não adianta apenas devolvê-la ao seu habitat. Como a cachorra foi condicionada aos hábitos domésticos tem que reaprender a viver na natureza. A reabilitação consiste em afastá-lo do contato humano, dos hábitos alimentares que adquire com o homem, entre outros fatores. Pode levar tempo, em alguns casos isso pode até não acontecer, mas é preciso fazer tentativas”, explica a Dra. Cristina.

 

Em busca de uma solução
Julio procurou ajuda porque percebeu que o animal estava em local impróprio para sua natureza. “Ela precisa de um lugar onde tenha a assistência necessária. Não quero que simplesmente a devolvam para a floresta, ela não sobreviveria”, falou o tutor, apreensivo.

O contato de Julio com a ARCA Brasil e o envolvimento da Mata Ciliar, ONG respeitada por seus projetos na área de animais silvestres, pode fazer a diferença na vida de Brasinha. Nas próximas semanas serão estudadas as chances de sua reabilitação e sua eventual devolução à natureza.

Acompanhe nos canais de comunicação da ARCA Brasil o destino de Brasinha! 

 

Saiba um pouco mais sobre os cachorros do mato

O cachorro do mato (Cerdocyon thous) costuma viver em florestas, cerrados, campos e também em áreas alteradas e habitadas pelo homem. Pesa de 5 a 8 Kg, tem, em média, 65 cm de comprimento, possui uma cauda peluda de 30 cm e tem o focinho comprido; se assemelha bastante a uma raposa, que vive na Europa.

É possível encontrar esses animais em praticamente todo o Brasil. O único lugar onde não se encontra o cachorro do mato é nas áreas baixas da bacia amazônica. Também podem ser vistos da Colômbia ao Paraguai e no Uruguai.

Se alimentam de frutas, insetos, pequenas aves e pequenos roedores, ovos e crustáceos (caranguejos de rios).

O cachorro do mato tem hábitos noturnos e pode ser vistos em beiras de estradas, onde procuram animais atropelados para comer. Por isso é, em muitos casos, vitima de atropelamentos. É um animal que vive sozinho, mas na época da reprodução é visto em dupla.

Sua gestação varia de 52 a 59 dias e nascem de 3 a 6 filhotes com 120 a 160 gramas cada.

Fonte: Embrapa


 

 

 

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