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Febre Aftosa - Novembro de 2005

 

Febre aftosa: crueldade no abate de animais contaminados

A cena é chocante: o atirador aponta um rifle na direção do gado que, contido pelas cercas do curral, não tem para onde fugir. A foto não revela o que ocorre depois que o primeiro tiro é disparado. Mas uma reflexão surge neste momento: O que se passa com os animais ao verem o primeiro companheiro cair? Serão eles capazes de pressentir a chegada da morte inevitável?

Enquanto a mídia brasileira enfoca exclusivamente os prejuízos econômicos deflagrados pela epidemia de febre aftosa que vitimou o gado brasileiro, Notícias da ARCA busca informações sobre os métodos de abate adotados pelos órgãos responsáveis pelo controle da doença.

O Ministério da Agricultura garante que os animais são mortos conforme os protocolos estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Centro Panamericano de Aftosa (Panaftosa). O órgão assegura que:

 

“Os abates são feitos por policiais militares, com balas de calibre 22, no chamado ponto de mira. A idéia é que o tiro seja certeiro (por isso são designados atiradores treinados e experientes), de modo a infligir o menor sofrimento possível ao animal(..).

“Ao contrário do que é feito em matadouros que seguem as normas estabelecidas para o abate humanitário, onde os animais são colocados em baias de contenção individuais para receberem o tiro de pistola pneumática (que dessensibiliza o animal antes do processo de sangria e desossa), o gado com aftosa é colocado em grupo nos currais (também chamados de “mouqueiros”). Os animais ficam um tempo no local para se “ambientarem”, o que os deixa mais calmos para o momento do abate. Seria inviável fazer o sacrifício em bretes, pois o espaço restrito tornaria muito difícil o ato de içar o animal morto. Os cadáveres são então empurrados por tratores, para dentro de valas, cobertos com cal (esterilizante, justamente para evitar a contaminação) e enterrados”.

Para a ARCA Brasil, o fato de um determinado procedimento contar com respaldo “técnico” não o isenta de ser questionado. Se até nos matadouros, onde são observadas condições razoáveis de bem-estar para os animais, o gado entra em pânico diante do sacrifício iminente – pupilas dilatadas e respiração ofegante são alguns sintomas observados nas reses que esperam sua vez no “corredor da morte” –, o que dizer daqueles que, em currais a céu aberto, observam as quedas sucessivas de seus companheiros?

“Infelizmente, trata-se de uma operação de guerra”, analisa o veterinário e especialista em Bem-Estar Animal Matheus Paranhos, da UNESP de Jaboticabal (SP), “e os métodos utilizados podem não nos contentar, mas não chegam a ser a pior opção diante da gravidade do quadro”.

O protesto da ARCA Brasil se dá por mais esse exemplo de que, invariavelmente, valores humanitários são relegados a segundo plano em função dos interesses econômicos. Enquanto na Ásia milhões de aves já foram incineradas vivas em nome do controle da gripe aviária, em nosso país, o gado paga a conta da incompetência do governo, que não tomou as medidas necessárias para equacionar de forma eficiente as campanhas de vacinação. Fica registrada nossa indignação de que os animais sempre paguem o preço do descaso e do desleixo.


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