Reprodução
de conteúdos |
Questões
Frequentes |
Entrevista - Novembro de 2005
"Se queremos um mundo melhor para todos, precisamos nos tornar seres humanos melhores"
Leia a seguir a entrevista que Irvênia Prada,
professora emérita da Faculdade de Medicina Vetertinária
da USP (FMVZ-USP), concedeu ao Notícias da ARCA após
o 2º Seminário ARCA Brasil, no qual ela
fez uma exposição sobre a essência da profissão
do médico veterinário:
ARCA Brasil: A senhora acredita que
a classe veterinária está cada vez mais sensível
ou mais atenta às questões que envolvem o bem-estar
dos animais? O que ainda precisa ser feito para que esse profissional
se posicione como aquele que zela pelo bem-estar dos bichos?
IP: Acredito, sim, que as pessoas, de modo geral, estão se tornando mais sensíveis à questão do bem-estar dos animais. E isso inclui, é claro, os médicos veterinários. Mesmo em sala de aula, fui percebendo, com satisfação, que a cada ano as coisas iam melhorando, no tocante a este assunto. O que ainda precisa ser feito, na minha opinião, é darmos testemunho do que pensamos e da forma como agimos, em relação aos animais, mostrando aos mais jovens que existem outros modelos de comportamento além daquele de caráter antropocêntrico, que destaca o bem-estar apenas do ser humano, servindo-se dos animais em seu benefício, a qualquer preço. Alem disso, devemos investir na disseminação de informações que facilitem, ao médico veterinário, mesmo ainda quando estudante, o entendimento e a execução de procedimentos que visem diretamente o bem-estar dos animais que estão sob seus cuidados, independentemente de sua relação com o proprietário.
ARCA: Complementando a pergunta anterior:
que papel cabe ao médico veterinário na construção
de uma melhor interação entre homens e animais?
IP: No alicerce da atuação de cada
profissional, está o exercício da cidadania. Se queremos
um mundo melhor para todos, precisamos primeiramente nos tornar melhores
seres humanos, e isso inclui uma abordagem ética em nosso comportamento
para com tudo: a maneira como tratamos e respeitamos as outras pessoas,
os animais, o meio ambiente, e assim por diante. O médico veterinário,
que tem uma relação direta com os animais, pode exemplificar
esse exercício com mais intensidade. Portanto, julgo que nosso
papel, nesse sentido, envolve um compromisso social muito sério.
ARCA: A senhora tem um livro intitulado
A Alma dos Animais. Qual é a importância de o médico
veterinário, e o próprio estudante de Medicina Veterinária,
enxergarem o animal como um ser pleno, não apenas físico,
mas dotado de uma complexidade emocional, mental e até espiritual
bem mais profunda?
IP: A publicação desse meu livro, A
Alma dos Animais, tem uma história interessante. Quando eu
era presidente da Comissão de Ética da FMVZ –
USP, pretendi elaborar um regulamento para a utilização
de animais em ensino e pesquisa, na faculdade. E da minuta desse regulamento,
que foi apreciado pelos diversos órgãos administrativos,
constava, por diversas vezes, a expressão “mente”,
em relação aos animais. Fiquei surpresa com a rejeição
que esse termo sofreu, por parte de vários colegas que o julgavam
de referência específica para o ser humano. Publiquei
então um artigo em revista da nossa faculdade, com o título
Os Animais têm Alma?. Apesar de provocativo, o termo “alma”
estava sendo empregado como tradução da raiz latina
“animus”, com o significado de mente, psique ou psiquismo.
Meu objetivo era dizer ao meio acadêmico, em linguagem científica,
que os animais têm, sim, essa dimensão abstrata. No passo
seguinte, surgiu a edição do livro, com a mesma temática.
Eu acho fundamental que os médicos veterinários e mesmo
os estudantes tenham a firme convicção que os animais
não são simples máquinas automatizadas, como
se acreditava antigamente. Pelo contrário, pesquisas em Etologia
e em Neurociiência, realizadas às dezenas, nas ultimas
décadas, vêm demonstrando de maneira inquestionável
que os animais são seres sencientes, isto é, têm
a capacidade de fruir sensações tanto de alegria, bem-estar
e conforto quanto de dor e de sofrimento, além de serem inteligentes.
Com essa visão de que os animais têm direito à
própria vida e a situações de bem-estar, nossa
postura se modifica para melhor. Nós nos tornamos pessoas melhores
e interagimos melhor com tudo e com todos.
ARCA: Qual foi seu objetivo com a apresentação
da palestra Bem-Estar Animal, a essência da profissão
veterinária?
IP: Fiz inicialmente uma abordagem histórica,
mostrando como o paradigma antropocêntrico, que valoriza apenas
o bem-estar do homem e recomenda a exploração da natureza
em seu benefício, influenciou e ainda continua influenciando
o pensamento e a conduta das pessoas que dispõem da vida dos
animais, a seu arbítrio. Em seguida, apresentei várias
pesquisas em Etologia, Neurociência e outros ramos do conhecimento,
demonstrativas de que os animais são seres sencientes, além
de inteligentes. Esse conhecimento implica em novos compromissos de
natureza ética, ou seja, precisamos encontrar maneiras de interagir
com os animais, respeitando-lhes sua natureza e seu direito natural
à própria vida e ao seu bem-estar. Para finalizar, recorri
à figura histórica de José do Patrocínio,
nosso valoroso abolicionista e que também era sensível
ao sofrimento dos animais. Minha palavra final foi de homenagem a
meu saudoso mestre, Professor Dr. Ernesto Antonio Matera, que exemplificava,
na busca do bem-estar dos animais – nossos pacientes, como dizia
- , o exercício de nossa profissão de médico
veterinário, em sua verdadeira essência.

18 anos promovendo o bem estar e a proteção de todos os animais!

![]()
Cereal Brasil apóia os nossos trabalhos em defesa dos animais.
| A ARCA Brasil tem o apoio da | Anuncie aqui! |