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Vitela: receita de crueldade
Aumento do consumo de vitela revela ao mundo as barbáries envolvidas na sua produção
por Juliana Motter
No universo gastronômico, a vitela figura como iguaria sofisticada. Já no vocabulário de proteção animal, a mesma palavra assume uma conotação indigesta. Os bastidores da produção de vitela revelam práticas rudimentares de manejo em que as mãos do homem combinam ingredientes cruéis.
Embora pareça vir de um animal sobre o qual não se tem referência, vitela na verdade é o nome que se dá à carne do bezerro macho de linhagem leiteira que é submetido a técnicas de criação específicas para garantir à sua carne maciez e coloração branca.
A trajetória de sofrimento do bezerro começa já no primeiro dia de vida, quando é apartado da mãe para ser trancado num compartimento que não oferece espaço para que se movimente. Muitos não permitem sequer que o animal se deite. E isso por cerca de seis meses. A intenção é impedir o desenvolvimento da musculatura e garantir a carne tenra. A alimentação é feita apenas com leite. “Privar o bezerro do consumo de fibras e minerais presentes nas pastagens gera uma deficiência de ferro que pode levar a uma anemia”, explica o veterinário José Luciano Andriguetto, professor do departamento de zootecnia da Universidade Estadual do Paraná. Para evitar que os animais adoeçam, os produtores geralmente fornecem grandes quantidades de antibióticos. Com quatro a seis meses de vida os bezerros são retirados do compartimento. Experimentam a liberdade em alguns passos trôpegos e vão direto para o abate de onde saem como vitela.
O Brasil, começa a produzir carne de vitela para aumentar o valor de mercado de bezerros machos – subproduto da constante reprodução de vacas leiteiras. Do ponto de vista econômico, a produção de vitela é interessante para a agropecuária, pois ela agrega valor de mercado a uma carne até então subaproveitada. O que se questiona é a necessidade de submeter os animais a tanto sofrimento para atender a interesses financeiros e gastronômicos.
Enquanto o país não ganha uma lei específica – como aquelas em vigor em alguns países europeus –, que proteja bezerros dos horrores praticados na produção de vitela, entidades de proteção animal procuram conscientizar a população no esforço de assegurar o bem-estar desses animais. “Por enquanto, nossa arma contra essas crueldades é a informação. Se as pessoas souberem de fato o que estão comendo, não serão mais coniventes com práticas desumanas”, acredita Marco Ciampi, presidente da ARCA Brasil.
John Callaghan, representante da CIWF – Compassion in World Farming, alertou, no último Congresso do Bem-Estar Animal organizado pela ARCA Brasil, que além de não comprar vitela as pessoas instruam outras quanto ao manejo cruel de modo a conter o consumo e moralizar as técnicas de produção.
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